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Editorial

Dizer a verdade aos turcos

A possibilidade da entrada da Turquia na União Europeia é um daqueles assuntos em que dificilmente se percebe quem está a falar verdade. Efectivamente a favor da adesão turca estão... os americanos (e é preciso que a actual mudança política não os faça ver diferentemente) e, na Europa, os seus únicos e firmes aliados ingleses. Depois, há Portugal, Espanha e outros países cujas opiniões públicas não se motivam (porque a Europa, para os portugueses e outros, é mais uma ideia de subsídio do que um conceito de espaço político).

Num país como a França, onde a política interna pode gerar verdadeiras aberrações, aprovou-se uma lei absurda (e provocatória para a Turquia), segundo a qual é condenado quem negar o massacre turco sobre os arménios em 1915 (como se a História pudesse ser julgada e determinada por leis). Ou seja, é condenado em França quem seguir a historiografia oficial turca.

A Alemanha, repleta de imigrantes provenientes da Turquia, não pode ser oficialmente contra a sua adesão; mas teme-a, e a senhora Merkel é, pessoalmente, contra. Os gregos detestam os turcos, Chipre receia-os (metade da ilha é dominada por eles), húngaros, austríacos e outros povos da Europa central têm deles péssimas recordações – por muito que isso custe ao bem-comportado e politicamente correcto sistema em Bruxelas.

Os adeptos da entrada de Ancara dizem que, apesar de tudo, preferem ter a Turquia 'deste lado' do que do lado do islamismo; mas coisas semelhantes podem dizer-se da Rússia, de Israel ou do Líbano. É um raciocínio que torna a Europa um espaço de geometria variável e imprevisível.

Na passada quarta-feira, a Europa voltou a adiar a questão turca. Colocada perante a recusa de Ancara em deixar aportar os barcos cipriotas, Bruxelas concedeu mais uns dias, até meados de Dezembro, para decidir se, em retaliação, suspende ou não as negociações de adesão. Ao mesmo tempo, o Governo turco manda emissários por toda a Europa a dizer que, tecnicamente, preenchem todos os requisitos impostos por Bruxelas e que a questão é apenas política (ainda a semana passada esteve em Portugal o seu ministro da Economia e chefe da missão negocial para a UE, Ali Babacan).

E o que pensam os turcos? Uma recente sondagem que o 'Financial Times' reporta indica que 4/5 acham que a UE é injusta e desleal para com o país.

Têm razão.

A Europa, acima de tudo, tem de falar claro: ou quer a Turquia (e nesse caso negoceia de boa-fé, sem reservas mentais); ou acha que a Turquia nunca terá condições para entrar e diz claramente que os turcos jamais podem ser parte de um clube que tem os seus fundamentos em valores civilizacionais estranhos à tradição otomana.

Tudo isto parece não passar de um jogo de enganos. À Europa interessa dar a entender que a Turquia pode entrar, mas não lhe interessa que a Turquia entre. O que provoca uma tensão na Turquia que, a prazo, pode voltar-se violentamente contra a Europa — a sondagem é um prenúncio. O desfecho final destes avanços e recuos é imprevisível. Mas a melhor política seria os europeus terem a coragem de dizer toda a verdade aos turcos.