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Expresso

Editorial

Cavaquismo «light»

Ontem fez um ano que Cavaco Silva tomou posse. Se não puxarmos pela cabeça, nem damos pela data. Excesso de descrição? Nem tanto. O Presidente esteve presente, com intervenções e avisos, sempre que tal foi necessário. Indefinição de funções? Também não. O Chefe de Estado definiu bem o que queria, dentro das limitações do cargo, e fez da - cooperação estratégica - com o Governo uma realidade. Falta de ideias? Nada disso.

Cavaco descobriu os 'Roteiros' e teve excelentes intervenções nesse domínio.

Na verdade, o que se passou foi que Cavaco fez exactamente o que se tinha proposto fazer. Ora isso, em Portugal, é raro e tido como maçador.

Para aqueles que se lembram dos últimos tempos do 'cavaquismo', quando faltavam ideias, campeava o autismo e medrava o autoritarismo. A versão século XXI de Cavaco Silva é muito mais "light" - desenvolto, bem-disposto, distendido, o homem em si parece outro. É muito melhor Presidente do que foi primeiro-ministro.

Claro que o lugar em Belém deve ser muito mais fácil do que o de São Bento (pelo menos, assim parece).

Mas o facto de ser mais simples não significa que não sejam necessários requisitos bem definidos e de certa forma raros para quem ocupa o Palácio de Belém. Olhando para trás, e imaginando (porque apenas imaginar se pode) qualquer outro dos concorrentes no lugar de Cavaco Silva, sente-se algum conforto pelo bom-senso manifestado há um ano.

Se em Portugal há um político de primeira linha que vai sobreviver a Sócrates (que, como Cavaco nos anos 90, parece, tal como os eucaliptos, secar tudo à sua volta), esse político é Cavaco.

Se quiser e tiver saúde, tem ainda mais nove anos de presidência pela frente.

O estado do Estado

O Estado não tomou posição na OPA da Sonae sobre a PT. Na votação crucial sobre a desblindagem dos estatutos absteve-se. Mas a Caixa Geral de Depósitos votou contra, ou seja a favor do BES e contra a Sonae. O Governo diz que a estratégia da CGD é autónoma. E claro que nós acreditamos piamente nessa autonomia, como acreditamos no Pai Natal e na fada dos dentes.

A prevalência

Um tribunal de Sintra obrigou a Força Aérea a libertar dez sargentos punidos pelas suas chefias. Diz o tribunal que prevalece a liberdade. Pode parecer um bom princípio, mas não é. Um militar, quando escolhe livremente essa carreira, deve saber, à partida, que perdeu um bom pedaço da sua liberdade individual.

Qualquer dia, os tribunais decidem sobre a anulação dos exercícios militares e da ordem unida, em nome do princípio da diversidade.