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Expresso

Editorial

Até à humilhação

O incêndio que lavra nos países islâmicos a propósito do discurso do papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona não vai acabar nos próximos dias. Pelo contrário, vai agravar-se e vai alastrar - porque essa é a estratégia de todos os extremistas que utilizam o Islão como ideologia.

E o que está a acontecer é 1) descontextualizar as palavras do Papa; 2) utilizá-las para fazer alastrar o ódio do mundo islâmico ao mundo ocidental; 3) não descansar enquanto o Papa não se humilhar, ao ponto de pedir desculpas públicas.

Ora o discurso do Papa, ao contrário do que pretende insinuar a campanha em curso, apela ao diálogo de culturas - e não ao ódio. A citação que está na base da ira islâmica ilustra exactamente esse objectivo: é do desconhecimento do outro que nascem os conflitos.

Manuel II Paleólogo, o Papa citado por Bento XVI, diz que é absurdo difundir a fé pela violência. E pergunta ao seu interlocutor, o escritor e pensador islâmico Ibn Hazn de Córdova: "Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo. Não encontrarás senão coisas demoníacas e desumanas, tal como o mandamento de defender pela espada a fé que ele pregava".

Ora apesar do Ocidente estar claramente sob pressão e à defesa no que toca ao mundo islâmico, é bom não tapar o sol com a peneira. E é bom não escamotear que o Islão foi alcandorado a ideologia por todos os que nos últimos anos têm vindo a praticar atentados violentos e desumanos sobretudo contra alvos civis ocidentais - por muito que esta realidade custe a todos os que não querem impor o Islão pela espada. Todos os atentados dos extremistas são feitos em nome da leitura, que consideram a única possível, das palavras do profeta Maomé. Os terroristas que atiraram os aviões contra as torres gémeas de Nova Iorque citavam trechos do Corão no momento do impacto. Osama bin Laden invoca Maomé para justificar a continuação de atentados contra o Ocidente. O escritor Salman Rushdie foi alvo de uma "fatwa" - em nome de Maomé.

Por isso, não tenhamos ilusões. A campanha vai continuar até o Papa aceitar pedir desculpas. Aliás, os que se servem inviamente desta polémica, não querem desculpas. Querem continuar a acirrar os ódios no Oriente, querem arregimentar novos apoiantes para a sua causa e querem sobretudo a humilhação do Ocidente - seja por causa dos "cartoons" dinamarqueses, seja por causa de uma citação feita pelo Papa. Resta saber se estamos dispostos a facilitar-lhes o caminho.

N.S.