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Editorial

Adotar um acordo

A forma de escrever palavras, a que se dedica a ortografia, não nos porá todos a falar, ou sequer a escrever, do mesmo modo. Mas é uma forma de projetar o nosso idioma.

(www.expresso.pt)

 O Expresso, costumam dizer os seus leitores e até os seus mais ferozes críticos, é uma instituição. Embora recusemos essa classificação, no que ela tem de mais institucional, agradecemo-la naquilo em que se refere ao nosso esteio de credibilidade. É, pois, esta instituição, melhor diremos este jornal, que doravante adota o acordo ortográfico.

A nova ortografia entra nestas páginas polémicas à parte. Não queremos com isto significar que o acordo é bom, nem sequer o adotamos por não termos outra hipótese senão fazê-lo. Do nosso estatuto editorial faz parte a defesa da língua portuguesa e é, tão somente, nessa perspetiva que nos colocamos. Consideramos que o português, que nos liga em cinco continentes e é no fundo a nossa pátria, como escreveu Pessoa, fica a ganhar se houver alguma unificação ortográfica, ainda que modesta.

Mas uma consideração de ordem mais prática nos leva a adotar o acordo. Em breve, assentes as ondas da polémica, escrever uma palavra com a grafia que aprendemos na escola parecerá tão desajustado como utilizar as grafias com que Eça e Camilo (para não ir mais longe) escreveram as suas obras literárias. Por exemplo, este título. Se daqui a um ou dois anos escrevêssemos adoptar causaríamos uma estranheza significativa. Seria como agora escrevermos pae ou mãi, a ortografia de antes de 1911.

O Expresso pretende-se um jornal com um grande passado e com um grande futuro. Não poderia ficar agarrado a um conceito por razões de mero conservadorismo ou por alguns dos seus redatores preferirem escrever da forma que aprenderam.

Como sempre, pensamos para a frente. O passado é um lugar que abandonámos.

A perceção da crise

Cavaco voltou a usar o termo "insustentável" para caracterizar a nossa economia. De pronto lhe respondeu o porta-voz do PS e o próprio primeiro-ministro. Um e outro entendem que é necessário ser positivo para animar a economia, pelo que a realidade pode e deve ser pintada a cores mais alegres. Sócrates, em particular, chegou a afirmar no Parlamento que, por vezes, se sentia isolado a puxar pelo país.

A questão é política, e não vale a pena usar argumentos bacocos para justificar um ou outro discurso. O Governo considera que a realidade deve ser servida em doses homeopáticas, porque a situação tende a melhorar e são necessários a colaboração e o otimismo de todos. O Presidente entende que é preciso consciencializar cada português para as dificuldades futuras, porque é imperioso mudar de vida.

Pretender que há somente um caminho é arrogante, ainda que fosse preferível que, pelo menos ao nível do topo do Estado, houvesse apenas um discurso. No entanto, e uma vez que há duas perceções opostas, é escusado pretender que uma delas é mais patriótica do que a outra.

Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010