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Editorial

A moeda e a política

Estamos no limite de uma decisão importante: ou damos passos no sentido de uma ainda maior integração política na UE ou corremos o risco de ser o elo fraco do euro.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

As crises, já se sabe, são oportunidades. O que os europeus ainda não tiveram coragem de fazer - maior integração política dos países que constituem a zona euro - talvez sejam, agora, obrigados a fazê-lo a fim de impedir o inimaginável: que o ataque à moeda comum, via países mais vulneráveis, como a Grécia, Portugal e Espanha se torne uma constante que acabe por destruir o esforço da união monetária.

O euro, que abarca 16 dos 27 países da Europa, teria de, mais cedo ou mais tarde, desembocar numa muito maior e mais firme união política. O problema é que isso colocaria - como, de facto, já colocou - várias velocidades na União. Há os que estão fora da moeda porque assim quiseram - Reino Unido, Dinamarca, Suécia - os que querem entrar e não conseguem, como a Roménia e a Bulgária, e finalmente os que têm esperanças de vir, em breve, a pertencer ao clube.

Seja como for, não parece sustentável cada Estado ter abdicado de parte substancial do seu poder - a política monetária e cambial - sem, ao mesmo tempo, ter criado um centro político claro onde essas e outras decisões com elas relacionadas sejam efectivadas.

A crise acabou por revelar que a Europa do euro, tal como Gary Lineker dizia do futebol, é um jogo simples em que no fim acaba por ganhar a Alemanha. Como se sabe, depois de estarmos todos suspensos pelas eleições no estado alemão da Renânia do Norte/Vestfália, que a maioria dos gregos, espanhóis e portugueses nem saberiam que existia, foi do Governo alemão que chegou o sinal de solidariedade com que se deveria ter atalhado, logo de início, as primeiras dificuldades.

Sem demagogias nem dramas, ao mesmo tempo que proclamamos que as iniciativas alemãs não podem nem devem ser unilaterais, mas partilhadas, devemos, porém, de igual modo compreender que uma parte da soberania de cada Estado terá de continuar a ser transferida para o centro da Europa, para Bruxelas, onde cada um terá de ter o voto de acordo com o peso que tem.

A Europa caracterizou-se por construir ao longo do século XX um sistema social notável de apoios, pensões, reformas e sobretudo de convivência pacífica e de respeito pelos Direitos Humanos que não pode dar-se ao luxo de destruir por antigas rivalidades ou pequenos poderes que cada Estado pretende manter. Se países como os do Sul da Europa necessitam de ajuda para superar as dificuldades, terão de saber que a defesa da moeda (sem a qual estariam 100 vezes pior) acarreta uma menor autonomia não só em matéria económica, mas nas correspondentes decisões políticas. Numa palavra: deixar cair a Grécia seria um erro de dimensões trágicas, mas permitir que a Grécia, ou qualquer outro país, possa agir de novo como agiu, por mero interesse político interno, não o seria menos.

O federalismo europeu - sempre subentendido pelos fundadores da CEE, mas nunca explicitado - nunca esteve tão próximo da agenda real dos países que constituem a União Europeia como agora.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010