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Editorial

3 anos de cão

O ajustamento era incontornável mas atira-nos para a recessão, faz explodir o desemprego e não resolve o insustentável crescimento da despesa do Estado.

(www.expresso.pt)

Portugal vai viver o seu primeiro ajustamento sob a égide da "nova" União Europeia, aquela que constituiu um megafundo de €75o mil milhões para apoiar os países da zona euro sob ataque dos mercados e que autorizou o Banco Central Europeu a comprar títulos de dívida pública desses mesmos países. Trata-se do programa de ajustamento económico mais violento que alguma vez suportámos, superior aos que nos obrigaram os acordos com o FMI em 1977-79 e 1983-85. Por isso, olhando para o passado e sabendo que não dispomos hoje dos mesmos instrumentos de política económica - desvalorização da moeda, subida das taxas de juro, controlo das importações - pode-se prever, com grande probabilidade, que o país não só entrará em recessão este ano, como verá o desemprego disparar. Com efeito, as medidas anunciadas vão ter como resultado a forte contracção da procura interna, responsável em grande parte pelo crescimento de 1,3% da economia no primeiro trimestre do ano. Do investimento público e privado não se espera nenhum contributo positivo neste quadro profundamente recessivo. Restam as exportações, insuficientes para compensar os outros motores do crescimento económico.

O pacote de medidas foi elaborado sob pressão e a pressa não é boa conselheira. Por isso, o programa não passa de um recolector de receitas e de cortes de despesas, sem grande coerência. Mais importante, o aumento dos impostos veio para ficar por três anos, sendo de suspeitar que se possa eternizar. Em contrapartida, o corte nas despesas é mais incerto e indefinido, não está detalhado e apresenta um carácter bem mais conjuntural. Como o Governo continua a dar mostras de grande autismo - a adjudicação da linha de TGV Poceirão-Caia no meio desta tormenta financeira é verdadeiramente extraordinária, mas a evidência de que implica, a prazo, a construção de uma nova ponte sobre o Tejo, é uma afronta ao esforço que vai ser pedido aos portugueses - teme-se o pior. E o pior é acordarmos do pesadelo em 2013, depois de três anos de cão, e descobrir que a despesa pública foi a única que não emagreceu nesse período. Ou, por outras palavras, que o monstro está bem e recomenda-se.

Saldanha Sanches

Com o falecimento de José Luís Saldanha Sanches, ocorrido sexta-feira, aos 66 anos, o país perde um dos seus mais eminentes fiscalistas mas também um grande lutador contra a ditadura, que lhe valeu várias passagens pela prisão, e um batalhador incansável pela qualidade da democracia portuguesa. De uma grande coragem física e intelectual, Saldanha Sanches era colunista do Caderno de Economia do Expresso desde Abril de 1999, onde enfrentava sem medo os interesses instalados no país - um exemplo raro e a ser seguido.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010