Siga-nos

Perfil

Expresso

Ruben de Carvalho

Com as Câmaras... não se brinca

Estou honestamente convencido de que não existe em Portugal uma única pessoa (incluindo o próprio) que considere ser Pedro Santana Lopes pessoa indicada para assegurar a governação municipal de Lisboa.

Convergem para esta conclusão duas naturais condicionantes: as duras exigências de uma séria governação no poder local, por um lado, e, por outro, as características políticas e pessoais do indicado candidato do PSD.

Os ingleses, com aquelas incómodas frases que nos levam a ser incapazes de as evitar, dizem: "the right man in the right place". Santana e Lisboa são rigorosamente "the wrong man in the wrong place".

Só quem olha a administração pública de forma completamente alheia ignora que a gestão da Câmara de Lisboa é das mais complexas, trabalhosas e exigentes tarefas do panorama político português. Não hesito um segundo em dizer que a um vereador (e, por maioria de razões, ao presidente) do município lisboeta se exige - se trabalhar - um esforço físico, um ritmo, um horário, uma capacidade de bom senso e diálogo, uma disciplina intelectual e uma capacidade de estudo que encontrão paralela exigência em muito poucas funções ao nível de poder central e talvez se aproximem bem mais de semelhantes encargos em autarquias de dimensões aproximadamente complexas. E que com parcimónia têm sido atingidas.

A própria estrutura do poder local democrático, com toda a sua riqueza e democrática complexidade (câmaras, assembleias, freguesias), introduz uma exigência de esforço, atenção e conhecimento que constitui o justo preço de nos encontrarmos perante uma das mais profundas expressões da ligação entre a política e os povos, seja no dia-a-dia seja mesmo na identidade histórica do país.

De uma forma ou de outra, mais ou menos profunda ou pormenorizadamente, todos acabamos por ter noção desta realidade. A autarquia não apenas lida com os problemas que estão mais perto das pessoas como ela própria lida de perto com as pessoas. Numa pequena dimensão territorial ou demográfica, naturalmente que tais factos podem ser torneados pelo populismo pessoal, pelo caciquismo hereditário, pelo obscurantismo ou pela indiferença. Tudo muda de amplitude quando falamos de Lisboa.

Alguém imagina o "bon vivant" noctívago que é Santana perder noites assoberbado por problemas urbanos que, em rigor, procuram ainda - e se calhar continuarão a procurar - soluções? Mais fácil seria vê-lo decidir nessa mesma noite comprar um carro de alta cilindrada custando milhões ao erário municipal mas que o colocaria 'ao nível' do Presidente da República - como fez.

Alguém imagina o homem - incapaz de constituir eficazes e inevitavelmente complexas equipas de trabalho, antes as substituindo sistematicamente por fiéis grupos de amigos aduladores - a coordenar a exigência de uma máquina administrativa com 10 mil trabalhadores, com problemas que se medem em volts ou em euros, metros cúbicos ou profundidade de lençóis freáticos, índices de CO2 ou calorias das refeições das crianças das escolas?

Diz o PSD que Santana é a melhor hipótese para "ganhar votos". Dizem também no PSD que, assim, não incomoda Manuela Ferreira Leite. Os critérios de governação do PSD chegaram aqui?!

Mas, pergunte-se: quanto se vê, o mandato de António Costa permitiu que se chegasse aqui, a que alguém pense que Santana é alternativa!

Não. Há outra Lisboa. E, sobretudo, há outra política.