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Expresso

Notas da Católica

A nova corrida aos bancos

O negócio bancário tradicional repousa na confiança dos depositantes na possibilidade de poderem resgatar os seus depósitos a qualquer altura. É esta confiança que permite aos bancos efectuar o seu negócio de alto risco: captar recursos de curto prazo sob a forma de depósitos, e aplicá-los em activos ilíquidos de longo prazo como, por exemplo, empréstimos a empresas ou particulares. É este risco que está na génese da criação da 'janela de desconto' dos bancos centrais, a qual permite aos bancos comerciais 'descontar' activos ilíquidos contra-numerário, quando confrontados com uma crise de liquidez.

Recentemente, com o crescimento explosivo dos derivados financeiros as autoridades monetárias depararam-se com uma nova e perigosa forma de susceptibilidade do sistema a crises de confiança. No mercado de derivados, os principais protagonistas são os bancos de investimento. Estes bancos emitem e transaccionam grandes quantidades destes produtos, constituindo-se, assim, como contraparte de muitas transacções. Um banco de investimento que se veja incapaz de pagar as dívidas emergentes da sua actividade de "trader" de derivados, pode provocar um efeito de dominó de quebra de liquidez ao longo da cadeia de relações contratuais entre os participantes deste mercado.

Foi este risco que fez com que o FED norte-americano, numa decisão inédita, decidisse alargar o privilégio do acesso à 'janela de desconto' aos bancos de investimento. Perante o colapso do banco de investimento Bear Stearns e a iminência de uma crise muito mais grave com o banco Lehman Brothers, o FED anunciou que aceitaria 'descontar' activos apresentados por bancos de investimento, numa jogada audaz para sossegar o mercado sobre o 'risco de contraparte' destas instituições. Foi esta a decisão crítica que permitiu suster o agravamento da crise dos mercados financeiros.

José Filipe Corrêa Guedes, Professor da FCEE - Católica