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Luis Pedro Nunes

Teste ADN caseiro: é o fim da macacada!

Um kit para detectar doenças vai ser posto à venda. Queremos mesmo saber?

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Qualquer consumidor de ficção científica rasca sabe que a humanidade inevitavelmente se vai separar em duas raças distintas no momento em que for à mercearia e tiver à mão um teste ADN 'faça-você-mesmo' de doenças genéticas. Já todos vimos filmes sobre distopias baseadas numa discriminação feita 'num futuro não muito distante', com uma raça perfeita e saudável e uma sub-raça humana doente, mal encarada, que ajuda nas limpezas e, se for preciso, ainda fornece uns órgãos sobressalentes. Pois bem: há 15 dias, e por uma questão de horas, as autoridades federais norte-americanas impediram que chegasse a milhares de supermercados um kit ADN que seria colocado nas prateleiras entre os preservativos e a pasta de dentes. Ou melhor: está suspenso e poderá estar à venda ainda este mês.

Mas como é que um kit, que é basicamente um frasco de plástico para cuspir, pode ser esta caixa de Pandora eugenista? É que, à primeira vista, são só vantagens naquilo a que se chama 'medicina personalizada'. Envia-se o nosso ADN (o cuspo ou o equivalente ) e, por preços que oscilam entre €60 e €500, tem-se acesso a uma senha numa página da Net com os resultados requeridos. Que vão desde a reacção à cafeína e ao álcool, à propensão para engordar ou à predisposição para o cancro no pulmão, leucemia, esclerose múltipla ou doenças cardiovasculares. Já os casais que planeiam ter filhos, por apenas 150 euros podem antecipadamente saber se são portadores de 23 variações genéticas que predispõem os filhos a doenças hereditárias.

É que as consequências do acesso aos testes não acompanhado pelo aconselhamento/interpretação de um médico poderão desencadear um efeito dominó de resultados imprevisíveis. Já todos abrimos envelopes com análises dirigidas a médicos... e sabemos o stresse que é quando espreitamos. E muitas vezes as respostas são simples resultados binários: positivo/negativo. 'Estou safo/lixado'. Neste caso o teor até nos é dirigido, basta aceder a uma senha por computador, as respostas falam em "propensão"... A questão é saber se estou preparado para fazer ctrl+alt+delete ao médico quando o teste me disser que tenho propensão para uma doença grave. Mortal...

Um exemplo: no cancro da mama só serão testadas algumas mutações genéticas associadas a esta condição, não se excluindo a possibilidade de contrair a doença devido a mutações não-genéticas. Com resultados parciais é possível que as mulheres deixem de fazer mamografias com regularidade ou vivam desnecessariamente atormentadas. Isso dos médicos pode passar a ser uma coisa muito sobrevalorizada - tendo eu as respostas comigo...

E há toda uma série de efeitos em cascata que deixam qualquer um de pé atrás. Mesmo um darwinista convicto. A empresa que quer vender os kits está interessada em criar um biobanco com o material genético que receber, com intenções de um dia o vender. É o que eu digo. Isto já cheira mesmo a filme com andróides e sub-humanos que vivem em reservas...

Mas com o chamado 'teste de gravidez' a situação pode ser mais imprevisível. Colleen McBride, a directora do Departamento de Investigação Comportamental do National Human Genome Research Institute, garante que é impossível antecipar todas as consequências da comercialização de um kit deste género. Desde casais que podem desistir do matrimónio após a chegada do teste a decisões sobre abortos por mera leitura errónea dos dados, as possibilidades são inúmeras e nem sequer é preciso introduzir na equação futuras sogras a fazer testes à socapa para testar o genes do genro.

Nos filmes de ficção científica isto acaba sempre numa sociedade de castas em que os geneticamente perfeitos se cruzam entre si e os 'inválidos' acabam submetidos e subjugados sine die.

Esse futuro está a dias de começar, pois os testes já existem e podem encomendar-se via Net. Só ainda não chegaram aos supermercados.

Ou recusamos o kit já ou aceitamos e cuspimos nele.

Raça perfeita Paul Saffo, um conhecido futurologista norte-americano, garante que os super-ricos vão separar-se numa raça distinta muito em breve, devido aos desenvolvimentos nos campos da biotecnologia e da engenharia robótica, que possibilitarão todo um manancial de alertas, drogas feitas à medida, ou órgãos criados em laboratório que darão pelo menos mais 20 anos de vida de grande qualidade. Empresa que quer comercializar kits de ADN http://www.pathway.com Site de Paul Saffo http://www.saffo.com

Texto publicado na edição da Única de 5 de Junho de 2010