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Luis Pedro Nunes

Sol na Rata e barraco no Tamariz

As praias de Cascais são as mais democráticas e multirraciais do país. Esta é a verdade.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

A Praia da Rata é uma pequena enseada que servia o antigo hotel Estoril-Sol e onde agora se ergue o edifício do arquiteto Gonçalo Byrne que faz lembrar umas peças de Tetris. Já várias vezes a tentaram rebatizar para Praia das Moitas, mas não pega. Garantem-me que o nome se deve aos roedores que ali deambulavam devido aos antigos esgotos. Hoje a água está limpa, mas ficou a piada: "Vou apanhar sol na Rata." A quantidade de trocadilhos é infinita. Mas aqui fica já o meu depoimento na primeira pessoa: a Rata é democrática, multirracial e pacífica.

O Passeio Marítimo parte de Cascais e segue junto ao mar durante 7 km até à Praia da Azarujinha, passando pelo Tamariz. Nesta pista há sempre atividade. Dos skates às bikes, às duplas de senhoras em caminhadas vigorosas mas sem parar de falar, aos pintas a correr em slow-motion a mostrar os peitorais, aos retornados ainda com rancor das Lundas e muita madame de embaixada a queimar caloria com amiga escolhida por zona geográfica, tipo americanas com canadianas, turcas com gregas e por aí. Uma nota para os brasileiros. Cascais e Estoril sempre foi lar de brasileiros ricos: os primeiros a utilizarem o Passeio Marítimo à calçadão do Rio. E os brasucas imigrantes que têm ali na praia um momento de escape ao domingo como de extensão à churrascada. Ah, falta-me falar dos portugueses. Chegamos ao caso de domingo passado, dos "tiros e facadas". Parece que foi uma só facada e uns estalidos de pistola de alarme. Mas sacaram logo da comparação à la Brasil. O que tenho assistido é a um crescente "mal-estar" contra brasileiros - mas disso nada ouço. Li e vi nos diretos que "parecia o Brasil".

Ainda não referi os portugueses brancos (enfim, se é que os portugueses se podem considerar mesmo de raça branca), mestiços e pretos.

O concelho de Cascais é mais do que a zona costeira e espalhado pelos arrabaldes há todo o tipo de bairro. Seria ingénuo não dizer que muitas vezes os portugueses mais pobres são os portugueses mais escuros. Mas haja alegria. É que a praia é de borla e as tias de Cascais adoram estar tisnadas do Sol, criando assim uma espécie de nivelamento cromático estival.

A praia do Guincho deveria servir para deslastrar de gente e classe social mas o vento acima dos 25 nós consegue esfoliar qualquer um.

A Câmara de Cascais tem feito um notável esforço de recuperação do turismo. No fim de semana passado estava a decorrer o Estoril Fashion Art Festival, o Cool Jazz Fest, o Grande Prémio de Portugal de Hipismo, Festival Musa na Praia de Carcavelos (reggae) e o Summer Club do Tamariz que dá para a praia estava a abarrotar às 5 da manhã... mas de repente há uma brecha na realidade e o comboio suburbano colide no glamour.

Desde o início da semana que havia incidentes na Linha de Cascais com grupos rivais. Não é preciso ser agente do SIS, bastava ver as reportagens na TV para perceber o crescendo e a impunidade glorificada. Sábado à tarde já se viu o machibombo da Polícia de Choque deslizar pelo Pontão sobre a Rata.

A praia estava insuportavelmente cheia. Sem Guincho e com maré cheia apertavam-se ricos e pobres, cotas e pitas, brancos pretos, sóbrios e ganzados. Possivelmente, domingo também esteve assim. Para pior. O comboio vomitou sobre este mosaico sucessivas golfadas de forasteiros. Muitos deles em direta, com a noite de sábado às costas. Uns trariam contas por saldar. Outros arranjaram-nas ali.

Vários aspectos simbólicos implodiram no fogo de artifício do 4 de julho português: os gangues de negros tugas armaram a barraca na aristocrática praia do Tamariz.

Mas não foi Brasil nem Somália. Foi Portugal/século XXI. E fica aqui o meu desafio ao maduro que escreveu na caixa de comentários do "CM". Caro "anónimo", vá lá a Mogadíscio, mande umas postas de pescada e regresse, que lhe ofereço este espaço para escrever se a comparação foi mesmo justa.

Estarei a apanhar sol na Rata.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Julho de 2010