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Expresso

Luis Pedro Nunes

"Smoking" faz bem à vida

Eis um investimento seguro: faz de um homem um cavalheiro. Ou um "barman".

O "smoking" é dos mais decentes investimentos na vida de um homem de sociedade. Fica-se ali com um companheiro, uma consciência crítica que vai alertando para o que estamos a fazer com a nossa vida, apontando para a qualidade das nossas mulheres em relação a nós, o desaparecimento delas, das festas, da falta delas, da barriga, do excesso dela. Evita chatices e poupa dinheiro anos a fio. Deve pois o homem, quando considera que em determinado ponto da sua existência está anatomicamente definido e estruturado, decidir por se colocar nas mãos de um bom alfaiate e dar o capital por bem entregue.

É reconfortante saber que o "smoking" está ali estacionado no guarda-fato, impecável, hirto, fiel, resistente à voracidade da moda. E no momento em que for chamado ao dever, muitas vezes só em ocasiões como o "réveillon", ele irá declarar: "Atão pá? Mais dois quilos que o ano passado? Não tens vergonha? Fiquei um ano inteiro fechado com bolas de naftalina e é assim que me tratas? Vou sair com um gordo? E como é? Temos miúda nova ou é aquilo do ano passado?" Um alarve. Não sei com quem terá aprendido estes modos se está na solitária o ano inteiro.

O marmanjo controla os ciclos da vida do seu "dono". Duas peças de vestuário, testemunhas silenciosas de momentos fora do vulgar e que têm como função reduzir-nos a uma mancha negra uniformizada para fazer sobressair a companhia feminina. E o "smoking" é um amigão: não guarda rancores dos salpicos do vomitado e não tolhe os movimentos ao permitir a dança ou a corrida desbragada em fuga quando um grupo de arruaceiros decidir espancar os totós vestidos de "smoking".

Pode alegar-se que é um disparate, que se pode alugar um, para quê "gastar" em algo que se usa tão esporadicamente? Ora, ora... Vejamos: vai então querer vestir umas calças, roçar e aquecer as suas intimidades onde dezenas de outras partes pudibundas baloiçaram, sabe-se lá em que desvarios, mas numa única certeza: em festa! E sabe-se o que isso pode significar. E se existe um evento que necessite de "smoking" é óbvio que os "de alugar" decentes vão desaparecer rapidamente e o surrado que sobrar vai fazer de si uma figura tipo arrumador de lugares do Parque Mayer. Afinfe-lhe seis uísques marado do bar aberto da festa a que vai e veremos como a faixa vai descair até ao joelho e o laço até ao sovaco.

Vamos aos factos. Um "smoking" clássico é a compra inteligente pois nunca passa de moda. É praticamente a mesma coisa há cem anos. Claro que se tiver dinheiro para mudar todos os anos, be my guest, vá pelos veludos "bordeaux" e detalhes assassinos que para o ano vai usá-lo no Carnaval.

Estas tecnicalidades não as estou a dizer de boca para fora. Fui buscar conselho ao mestre alfaiate Domingo Rocha, do El Corte Inglés, temperamental como todos os artistas, e que acha que embora os clientes tenham sempre razão, as regras do "smoking" existem e devem ser cumpridas: o tecido deve ser granito de alpaca, ter sempre uma margem de dois a três centímetros para que a vida dê ao cliente a possibilidade de prosperar uns lustrosos 10 quilos. Com ele são precisas três semanas e duas provas. Preço? Pouco mais 1500 euros. Garante menos marreca, e um "trompe l'oeil" na zona abdominal que supera um ano de falta ao ginásio.

E, se tudo falhar, já tem farda para ser um elegantérrimo empregado de mesa no Luxemburgo.

Preço Se dividir os tais 1500 euros por dez anos constata que é mais barato do que ir todos anos a um "réveillon" com um fato rasca. E hoje já há "smokings" de 400 a 800 euros no "prêt-à-porter". Vale a pena dedicar algum tempo ao detalhe, ao apertar, cintar, encurtar e ao saber estar dentro de um, dado que tem uma certa adaptação biomórfica e é suposto conseguir comer e dançar dentro dele.

Clássico Deve ser preto, casaco de um botão, sem abertura traseira, banda de seda, calça com duas pregas com galão e algibeira na costura. Com esta "base" é possível inovar, pois se optar por uma camisa de fraque com colarinho de pontas redondas e um laço maior ou uma gravata preta já tem variações. Palavra de alfaiate que sou só o papagaio.

"Smoking" (de "smoking jacket") Utiliza-se em Portugal para o que se entende como "tuxedo" (EUA) ou "black tie" (GB). Há 30 anos não haveria grandes diferenças entre estas duas categorias, mas os bailes das escolas secundárias norte-americanas criaram uma nova e bizarra espécie na família dos "tux". Para os interessados sobre regras www.blacktieguide.com