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Expresso

Luis Pedro Nunes

Qwert e o flutuário para o cérebro

As mensagens de telemóvel reduziram-nos a cuspidores de rajadinhas de emoções condensadas. De todas as invenções tecnológicas da última década, a que terá tido maior impacto sobre o modo como nos relacionamos emocionalmente com os outros é o SMS. Esta é uma asserção que parece pomposa e digna de tese. Mas tem 153 caracteres. O que quer dizer que podia recambiá-la num SMS. Cada um que decidisse se era uma boutade. A complexidade da linguagem humana está espremida a uma hipercondensação alfanumérica infantilizada. (Há dias recebi uma mensagem de um amigo estrangeiro. Dizia: C u l8tr. Ou seja: See you later. O destinatário é ele mesmo um unzipper).

Sem cinismo. Envio mais de mil SMS por mês, tenho a obtusa capacidade de os escrever sem olhar, com a mão debaixo da mesa de reuniões - "sim fofinha tb gosto mt de ti. Agora n me chateies +!" -, e é efectivamente possível responder a um conduzindo uma mota (o truque está na embraiagem). O SMS é um causador de ruído no paradigma amoroso quando tenta conectar os humores bioquimicamente desfasados num casal (exemplo: ela com PMS - Síndrome Pré-Menstrual; ele com as variações diárias da Síndrome da Irritação Masculina - IMS ).

Mas o SMS faz de muito cobarde um valente por 20 cêntimos. É fechar os olhos e "enviar". O sacaninha lá segue a fazer os estragos... Quantas vezes há um SMS que se cruza no satélite em tom de crescendo de ofensa com outro em sentido contrário a pedir tréguas? Que esperar se ao longo do dia vamos enviando estados de alma contraditórios com a determinação de esguicho de um géiser? Dica: o qwert pode ter um efeito calmante.

Enquadramento. Até há pouco tempo os telemóveis só tinham teclados que seguiam uma lógica da sequência do alfabeto. Tecla 2abc, tecla 3def. Que digo eu? Estamos no país dos 12 milhões de telemóveis. Mas a nova geração de aparelhos - os i-Phones e os Blackberrys - vêm com teclados similares aos computadores, o qwert.

O qwert não é um pormenor, pois obriga a uma alteração da conexão entre o cérebro e os dedos. Deixa de ser o polegar o comunicador para voltar a ser o indicador, se for um ecrã de toque. É pior do que quando se abandonou o teclado azert nas máquinas de escrever. O meu polegar sabia à minha revelia que "estúpida!" se escrevia com o morse mental de três cliques na tecla 3 para o E, quatro cliques na 7 para o S... e adiante até fazer o send e três horas antes de estar de joelhos a pedir perdão e a chorar baba e ranho.

É certo que a mensagem de telemóvel tem feito muito pelo tímido. Nas estratégias de acasalamento o SMS faz agora parte do processo coreográfico de construção de uma persona interessante. Cria um trilho de nenúfares simbólicos, um atalho de tijolinhos de 150 caracteres directos ao coração e zaca! - "bute jantar? jocas". As tampas/negas não custam tanto e permite saídas airosas.

Mas hoje o supremo bem é estar desligado. Mesmo nos espaços em que estes estão proibidos já há quem refunda o telemóvel. Assim começou-se a comercializar o silêncio, um estado de suspensão total, de desligamento do cérebro, a flutuar num útero de água salgada, na total ausência de estímulos. O luxo é durante uma hora não ser, não querer saber, parar a existência: um momento em que é possível estar a boiar no zero absoluto, não sendo a morte, pois quando se volta tem que tomar um duche tramado e rijo para tirar o sal das ranhuras corpóreas.

IMS

Condição hormonal masculina que altera o ciclo do humor do homem ao longo do dia? Baixa testosterona, e grandes níveis de stresse explicam impulsividade e momentos de ausência? Já é possível arriscar: "Uma semana antes do período, as mulheres comportam-se tal como os homens se comportam diariamente".http://www.whatyououghttoknow.com/show/2008/09/23/ims/

Flutuar

São 50 minutos numa cápsula, nu em água morna com 300 kg de sal Epson, com ausência de gravidade, som, luz, em que o cérebro vai desligando até se atingir "um registo de ondas theta". O flutuário é perto do Largo do Rato, em Lisboa. O conceito e informação em www.float-in.pt

Polegar

Luvas com pontas do polegar e indicador amovíveis para enviar SMS. Ou mexer no i-Pod durante o "jogging". Uma grande ideia de um executivo que estava farto de "ver as mensagens do seu Blackberry com a ponta do nariz". Encomendar em http://shop.freehands.com/