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Luis Pedro Nunes

Professoras vestidas, pfff

Um colégio fino aceitaria a prof da "Playboy"? Os aldeões é que as pagam.

Luis Pedro Nunes (www.expresso.pt)

O avesso virou lado de fora. Uma professora do 1º ciclo, da província, comete a insanidade de posar prostrada, pelada e depilada por meia dúzia de tostões para a "Playboy" e torna-se uma heroína perseguida por forças retrógradas e obriga-me agora a fazer um discurso moralista. É que se o strip vai para o 1ª ciclo vou ter mesmo que concluir a Escola Primária.

Quero aqui dizer que o meu conhecimento do sistema educativo é reduzido. Já o mesmo não posso dizer da história da multinacional de Hugh Hefner e daquilo que os urbanozinhos chamam de "tacanhez da província", mas que mais não são que os centenários e intricados equilíbrios sociais existentes numa pequena comunidade, e Bruna, professora de actividades extras é de Mirandela e leccionava na aldeia vizinha de Torre Dona Chama. Conhecia o terreno e deu um passo arriscado para a tal carreira de modelo que ambiciona. Mas não é Bruna que verdadeiramente interessa.

Numa nota mais pessoal. Deixem-me que diga que a ordem natural da relação "Playboy"/professora é a de que a segunda confisca a primeira colocando o detentor do objecto confiscado em apuros. É assim que lembro com eterna saudade a minha colecção de especiais Bo Derek, a minha deusa loira dos anos 80 fotografada pelo marido John ("Ele não te ama Bo, ele só te usa pelo dinheiro!!!")

Mas tenho acompanhado estupefacto os indignadíssimos movimentos de apoio a Bruna. O seu afastamento da sala de aula tem sido taxado de acto de perseguição medieval, como se o resultado num colégio queque ou modernito de Lisboa fosse diferente. Assim de repente não estou a ver nenhum país tão 'avançado' que aceitasse esta situação sem o mínimo de polémica - embora estejamos num mundo de mensagens pan-pornográficas também é verdade que muitos pais tendem cada vez mais a proteger os filhos do que teimam ser uma influência desse mesmo mundo. Entre os 'atrasados' da aldeia e os 'avançados' da cidade não acredito que a abertura pudesse ser tão diferenciada de um mundo ou de outro. Nem que no Iowa ou em Londres pudesse ser diferente. Aliás, basta fazer uma busca na Net e constatar que o mundo civilizado está cheio de casos de professoras despedidas por posarem nuas para "Playboys", "Penthouses" e afins.

O preconceito vive é na cabecinha dos pró-Bruna. Mas espero e creio piamente que os subscritores desses manifestos online expliquem aos filhos de 6 anos, com as imagens ao lado, e com o Playboy Channel ligado, o racional e a diferença entre arte erótica e pornografia. E que a revista é o último bastião do império semifalido Playboy que ainda não se pornificou totalmente. Bruna, generosamente, resplandece essa tensão. Por 700 euros.

Colocando isto de uma forma pouco sofisticada, os movimentos de apoio à Bruna falam da liberdade de expressão e de uso do tempo livre - como se ela fosse uma bombeira voluntária de Mirandela ou funcionária da Câmara -, não se pronunciam sobre o papel e o compromisso que um professor deve ter na comunidade. É verdade. Até porque garanto que não quero ver o Mário Nogueira, da Fenprof, nu!

Mas uma sociedade que acha mais importante uma professora ganhar uns cobres e mostrar as mamas do que defender a formação e estruturação dos miúdos não é verdadeiramente moderna. Porque então este seria só mais um passo para qualquer coisa. E qual seria o seguinte? Levar os alunos à sessão fotográfica - dado que qualificaria como uma 'actividade extra'?

A minha proposta é: a infância deve continuar a ser infância. A puberdade deve continuar a ser o caos hormonal horrível e aí a "Playboy", se calhar, já passou de moda. A idade adulta deve continuar a ter coisas morais e imorais e um espacinho para os amorais mandarem umas postas.

Meninos, vamos lá recapitular: Uma professora primária posou pelada e depilada para a "Playboy" e agora está espantada porque foi afastada das crianças? Nááá, pode lá ser uma coisa dessas.

Todas as televisões fizeram peças do género: "Em Mirandela não se fala de outra coisa." Seguidamente, vieram os movimentos de solidariedade nas redes sociais e uma cobertura jornalística exaustiva. Mas, pela primeira vez, que me lembre, os principais jornais pixelizaram (camuflaram) os mamilos da jovem em causa...

Texto publicado na edição da Únicade 22 de Maio de 2010