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Luis Pedro Nunes

O PowerPoint é estúpido

A realidade está refém da dissecação em quatro alíneas e dez minutos.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Possivelmente aquele slide de PowerPoint até será o espelho da situação do conflito no Afeganistão. Mas de momento já é conhecido como "Tigela de Esparguete" e simboliza o caos em que a NATO está metida e de como o PowerPoint enredou os militares. O general Stanley A. McChrystal foi citado no "NYT": "Quando percebermos esse slide teremos ganho a guerra". Os Marines saltaram das trincheiras a apoiar - o PowerPoint é o verdadeiro inimigo. O fanáticos da Microsoft e os milhões de pessoas que já passaram por inteligentes (OK, e são inteligentes) devido ao programa ripostaram que as apresentações são más se quem as preparar for curto de ideias.

Nas cavernas do Afeganistão e via net, os talibãs devem ter assistido com interesse a este debate sobre um programa informático com mais de 10 anos...

O que é certo é que esta polémica faz reflectir sobre o poder do PowerPoint na nossa estrutura mental, de decisão e de compreensão da realidade, dado que se expandiu a todos os sectores da sociedade, das empresas ao Estado e à escola onde os professores vão passando slide atrás de slide para alunos que vão deslizando o olhar sobre os tópicos, adiando o entendimento destes para um momento posterior - os slides até chegam por mail a casa - e acreditando que a vida, o mundo, as relações se dividem em quatro tópicos. Ou então noutro slide. Ou então manda-se vir um template online.

Assim concordo parece-me que... bom, vou fazer um slide.

O PowerPoint é:

-Estupidificante - o orador limita-se a papaguear;

-Simplista e simplório - tudo se resume a quatro pontos;

- Mentiroso - em caso de dúvida adiciona-se mais slides;

-Hipnotiza a audiência como galinhas - muitos passam pelas brasas.

E quão doloroso é quando aparece um maduro com uma apresentação de PowerPoint e ele mais não faz do que a usar como uma cábula gigantesca em que repete o que lá está escrito, onde o tom de voz entra numa conjugação entorpecedora a que se chama 'morte por PowerPoint'.

Mais absurdo é utilizar um daqueles templates pagos, uma pré-formatação da realidade que vamos tratar e nos ensina a ler a realidade num esqueleto já montado e que está pronto a andar. Pressupostos tão elegantes, conclusões tão límpidas e universais a bem da nossa apresentação que parecem ter surgido de um olimpo do conhecimento que não sabemos se é a realidade que já tem quatro alíneas se é o nosso pensamento que já criou essa estrutura de decomposição do real.

É evidente que há centenas de peritos profissionais e casos felizes de autodidactas em PowerPoint que podem rebater esta exposição com uma apresentação de dez slides com efeitos especiais e provar que sou um imbecil - e que devia ser atirado para o meio do Afeganistão tatuado com as caricaturas de Maomé.

Estive a ler o artigo de defesa do PowerPoint na Slate.com em que para demonstrar as imensas possibilidades que este medium ainda tem se mostravam dois exemplos: Al Gore na "Verdade Inconveniente" e Steve Jobs na apresentação do iPhone. Bom, além de nenhum deles ter utilizado o produto da Microsoft, é como comparar "A Guerra das Estrelas" a um vídeo maroto que uma vez fiz.

Há uma certa beleza caduca neste debate. Hugo Chávez acaba de contratar 200 funcionários para alimentar a sua conta pessoal de Twitter e Obama foi esta semana a uma Universidade declarar perante alunos que iPods, iPads, Xboxes e PlayStations são "inimigos da Democracia" porque "distraem" os jovens. Alguém lhe devia ter feito um slideshow sobre os perigos de afrontar a Apple.

Um dos clichés da criatividade é a expressão 'pensar fora da caixa'. A verdade é que o mundo que fala para uma audiência está enredado numa imensa tigela de esparguete mental planetário de linguagem powerpointiana. Já não será fácil saltar fora do rectângulo e dar ao slide. Nem com ajuda dos marines.

'Tigela de Esparguete': O slide do paradoxo, pois se o programa de computador gerador de gráficos, colunas e alíneas serve para simplificar, neste caso resultou na confusão que se vê. O Pentágono admite que a estabilidade no Afeganistão até pode estar ali colocada - caso percebesse a mensagem. Veja em: http://msnbcmedia.msn.com/i/MSNBC/Components/Photo/2009/December/091202/091203-engel-big-9a.jpg

Texto publicado na edição da Única de 15 de Maio de 2010