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Luis Pedro Nunes

Não gosto de bola, há problema?

Agora, em junk tv sou especialista. De combates de rua a prisões de alta segurança.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Futebol não é a minha praia. Se não gostasse de política, de marisco ou de anedotas ficávamos por aqui. Mas não gostar de futebol parece implicar um qualquer subtexto. Um sintoma ou uma declaração. Ou o tipo não é de fiar ou está-se a armar. E em vez do Argélia-Eslovénia deve estar a ver "A Gaiola das Malucas" do La Féria ou "A Gaivota" de Tchekhov.

Isso de não apreciar particularmente futebol não implica ter aversão, ser alérgico ou detestar o jogo. No meu ramo de negócio sou obrigado a acompanhar as Ligas, as equipas e os resultados e a saber que o Ricardo Costa que esteve na berra nos últimos meses não é o do Expresso mas o da arbitragem - o que faço sem drama. Mas o facto de não ter paixão pelo fenómeno vai-me deixando perplexo e agastado com estes levantamentos nacionalistas em delírio agarrados à gaita grasnante - com um hino americano, três brasileiros nacionalizados de propósito e um grupo de trabalho que não está entrosado, editores de noticiários a surfar na alucinação e um país que deliberadamente e com a anuência dos políticos e comentadores decidiu suspender a realidade. Apetecia-me gostar de bola. Estou a mentir, não apetecia nada.

O Mundial é mais agregador e consegue recolher alguns dos que normalmente resistem. Ficar de fora já é ser contra Portugal, já é recusar os amigos, a festividade, já é ser parvo, antissocial, já é não permitir que as pessoas tenham prazer, tens que aderir, tens que entrar. A Selecção torna-se um elemento de pressão fascizante. Eu digo não!

Roteiro de sofá para fugir ao Mundial

Para não criar grandes rupturas no quotidiano é necessário manter hábitos. Como qualquer homem contemporâneo descapitalizado um dos meus vícios é zappar numa cadência pessoal e metaprogramística mantendo a compreensão simultânea de uns três a quatro canais. Ora o Mundial vem gerar ruído sobre essa beleza saltitante no LED. A TV está pejada de sucedâneos de bola que vão de estatísticas ao Figo a dançar em directo com o João Baião.

Mas nada de entrar em crise e loucura tipo ver um filme todo. Da minha experiência a junk tv e a "televisão realidade" têm muito má fama dada pelos críticos que vêem TV por obrigação, da mesma forma que eu vejo bola. Há hoje uma panóplia de programas deste género que servem todo o tipo de clientela.

Eis a ementa do meu fim-de-semana passado

Sequência "ai estou tão seguro aqui na minha casinha"

Recomendo um crescendo de programas que vão desde o pequeno furto à prisão de alta segurança, a celas imundas no 3º mundo.

Além dos conhecidos "Cops" e agora o "DEA" (Fox Crime) que relatam o lado da polícia na captura de pequenos, muito pequenos e mais ou menos médios criminosos, a brutalidade crua da série "As Mais Duras Prisões Americanas" (NatGeo) pelo mix entre a loucura absurda do sistema penal norte-americano e a beleza assassina da diversidade da população prisional vai deixá-lo feliz por estar em casa num sábado à noite. Já o "Presos no Estrangeiro" - o fascinante relato reencenado da típica turista no Peru que acede a trazer um pacote de quilo de coca e fica 8 anos numa prisão local é ainda mais reconfortante que uma sobremesa de chocolate fondue.

Sequência "ainda bem que já não sou puto"

Recomendo dois programas da MTV. Os reality shows mataram os videoclips e aquilo já não é um canal de música. É o caso de made. Um adolescente disfuncional manda um pedido para ser "mudado". O último que vi, um puto de 14 anos, 145 kg, diabético gay, queria fazer o triatlo à séria. Em três meses de treino intenso e diário - campeões nas modalidades mudam-lhe a vida e ele consegue. Melhor? Bullybeatdown. Jovens adultos pedem ajuda à MTV. Há anos que são espancados e abusados por um bully local. Vai o apresentador à cidade, um ex-lutador, Jason Mayhem Miller, desafiar o matulão para uma luta decisiva. Por dez mil dólares ele terá que enfrentar um profissional de MMA. Se perder terá que pedir desculpas e nunca mais tocará ou fará mal às vítimas. O bully acaba sovado e humilhado. Os teens hoje não têm vida fácil. Ainda bem que já passámos esta fase.

Sequência "depois do Mundial também mudo a minha vida"

É óbvio que isto de estar afundado no sofá não vai acabar bem. A TV está atafulhada de programas de "transformação" de visual. Aconselho "Family Fat Surgeons" (People & Arts). Pai e filho especializados em obesidade mórbida. Drama, muito desespero acima dos 200 kg. Um reality show de nicho. Suspenda a piza.

Texto publicado na edição da Única de 19 de Junho de 2010