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Luis Pedro Nunes

Dá-me o meu iPad, já!

É apenas uma placa de vidro com net que nem tem telefone. Por isso suplico: devolvam-mo...

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Há os que dizem que o iPad é apenas um iPhone gigante que nem chamadas faz e há os que estão convictos que o iPad é o gadget mágico que vai salvar a imprensa da estocada final. Para evitar qualquer distracção, desliguei a TV, baixei a tampa do MacPro, tirei o carregador do iPod, vi os mails no Blackberry e liguei então o tal do 'mágico' iPad. Ao fim de uma hora estava entediado e tinha voltado para o computador a lamuriar-me no Twitter sobre o assunto. Mas passados dois dias - bendita inconstância - estava rendido ao iPad. Porque tinha respondido finalmente à pergunta: mas que raio de coisa é esta?

Perdemos a capacidade de nos deslumbrar com aparelhinhos. Há 18 anos estava eu maravilhado com o fax - c'o a breca! Em reportagem no meio de Angola escrevia num caderno, tentava arranjar linha para Luanda e ditar a um camarada que por sua vez mandava para Lisboa pelo extraordinário fax onde uma secretária dactilografava para o computador. E terei certamente pensado como seria fantástico ter um telefone/computador que me permitisse enviar directamente. E isso aconteceu e foi assim que os repórteres ficaram redundantes e passaram à história.

Agora, ao fim de 12 horas de teste de iPad a única novidade que verdadeiramente lhe tinha encontrado era finalmente ter tecnologia LED 9,7 polegadas e YouTube comigo na sanita - perdoem-me a imagem, é ver as regras de etiqueta iPad que disponibilizo no fim do texto. Numa esplanada é-se obrigado a ficar à sombra porque não se vê nada no ecrã com excesso de luz e tem que se pedir password wi-fi. Há que cruzar a perninha e colocar o iPad lá em cima porque é aí que ele se adapta melhor e ignorar os olhares de nojo das mesas ao lado porque dá uma bandeira do caraças... Depois tem que se levantar e estar preparado para colocar aquilo debaixo do bracinho assim tipo pochette do Ronaldo ou mariconera do Cunhal.

Foi necessário deixar passar uns dias para o iPad crescer em mim, encontrar o seu lugar entre os electrodomésticos da minha vida. É impressionante como perdemos a capacidade de nos espantar e achamos defeitos em tudo: ah aquilo é muito grande, tem pouca portabilidade, já viram o tamanhão? Leva-se na mão assim como... hum... como sempre levámos um livro na mão - e às vezes até carregávamos com dois, três e quatro. E agora aquela fina tablete de chips equivale a dezenas de milhares de livros e videopalestras e o mais que se queira por estar conectado com a Rede enquanto se passeia com ar de vendedor de paletes de cerveja a anotar no ecrã.

Mas afinal, dizem os espertalhões, aquilo é apenas um capricho do Steve Jobs que se quisesse até era capaz de vender o TGV aos portugueses, uma tramóia da Apple para gastarmos mais uns cobres num 'coiso'. Bom, um telemóvel também tem net, mas está ali esmagadinha num ecrã, um computador portátil é portátil no sentido em que o deslocamos de um tampo de mesa para outro. O iPad é a net. Sem rato nem teclado com ecrã LED 9,7 polegadas para ver emissão em directo, baixar filmes ou jogos numa resolução fantástica, revistas e jornais numa definição apetitosa (os que têm uma aplicação iPad), livros compráveis em segundos em livrarias online, motores de busca que encerram o saber de milhões de Alexandrias e visitas virtuais a mundos perdidos, aos mapas que me indicam em GPS e conectam por si a sites, numa sequência de informação que vão intuindo antecipadamente o que quero. Toca-se com a ponta do dedo e plinck! abre-se, acontece. Não se espera, não bloqueia, não empanca. E percebe-se que é algo que ainda está em 'bruto', que só tem seis meses de vida.

O iPad vai salvar os jornais? Disseram-me que há uns textos muito interessantes sobre o assunto mas entusiasmei-me a comprar toda a espécie de apps inúteis na loja Apple e esqueci-me de os ler. Entretanto, a verdadeira dona do iPad pediu-o de volta e fiquei com um vazio na minha vida. Como é que se pode viver sem um iPad? Não pode, obviamente.

Salvar os jornais - O iPad tem sido apontado como eventual salvador da imprensa escrita. A verdade é que as subscrições são caras num mundo em que o free é a regra. Cita-se o caso do "Wall Street Journal" que ainda vende 2 milhões de cópias e só conseguiu 10 mil subscritores da app. Porque o iPad não irá salvar os jornais http://newledger.com/2010/06/why-the-ipad-wont-save-newspapers/ Guia de boas maneiras para usar o iPad http://edition.cnn.com/2010/TECH/mobile/06/02/ipad.etiquette.anna.post/index.html?iref=allsearch

Texto publicado na edição da Única de 12 de Junho de 2010