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Luis Pedro Nunes

A Prada sabe mais que o diabo (rezemos)

As agências de rating e a banca viram-nos as costas. Mas Miu Miu confia em nós. Um luxo.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Tudo no mesmo dia. O FMI estava em Madrid a apertar o gasganete a Zapatero; já em Kiel, na Alemanha, o primeiro submarino Tridente baptizado "Arpão" era entregue ao almirante dos almirantes portugueses, cravando-se no coração das nossas contas públicas, e na Avenida da Liberdade, em Lisboa, abria uma megastore da Prada - coisa para quase 700 metros quadrados. Não misturo estes factos por fazer um belo ensopado populista, mas porque ao ler os jornais me questionei: o governante espanhol foi obrigado a ajoelhar perante o Fundo Monetário Internacional e o nosso ministro da Defesa bem tentou denunciar os contratos dos submarinos, mas certamente que a marca italiana de luxo teria conseguido desistir da loja em Lisboa - deve ter menos cláusulas que uma fotocópia de um contrato desaparecido de Portas. Nestas coisas, para perceber há que ver. E ala!, festa de inauguração com ele.

Quero já prestar a minha homenagem, como português falido, a Miuccia Prada: grande mulher! Quando em todos os jornais financeiros do mundo os nomes de Portugal, Espanha e Grécia são vistos como os novos tinhosos, a quem ninguém se quer associar, em que nos balanços as empresas se orgulham por não ter ligações com 'esses' países, a Prada, que leva os negócios a sério e aumentou os lucros no ano passado e está num delicado setor, manteve a sua determinação em abrir uma megaloja em Portugal. Ou melhor, in Lisbon.

Lisboa necessita destes ícones que lhe conferem estatuto de cidade cosmopolita e a manutenção da Avenida da Liberdade como artéria central de luxo com ligação ao Chiado é essencial para não passar para os roteiros de turismo das favelas. Já o facto de a revista "Monocle" voltar para a semana, no número de Julho, a incluir Lisboa na lista das 25 cidades do mundo com melhor qualidade de vida é algo que me ultrapassa. Mas voltemos à Prada.

A loja é de facto enorme e está de um bom gosto que vou escusar de adjetivar: é Prada. A festa tinha alguns dos Croquetes & Batatinhas do costume, mas havia potenciais compradoras, umas senhoras com griffe, chegadas em carros do corpo diplomático - faltou-me ali companhia feminina sofisticada para ler o que traziam vestidas. Espreitei um blazer azul (mais de 2000 euros) e respetivas calças (mil e poucos). Nestas coisas deve-se fazer sempre a matemática dos "locais" - seja em Madrid ou Beverly Hills -, entrar para a lista de clientes e esperar pelos saldos privados de 70%. Diziam-me mais tarde: afinal, embora todos os artigos sejam impecavelmente manufaturados, é preciso não esquecer que é tudo made in China a baixo custo e que - como muitos dos produtos de luxo - só ganham valor real após ter a marca. As lojas surgem também para educar o gosto, para mostrar a sua existência no espaço público perante a contaminação das contrafações e a perda de importância dos produtos de luxo nas novas gerações.

E antes de me lançarem um coro de indignações "anti-rico/mata-mata", infelizmente - e reforço o infelizmente - esta loja não é feita a pensar nos portugueses. Se somarmos a dívida pública à privada já atingimos 250% do PIB, mais a nova taxa de juro de 30% do cartão de crédito, mais os ricos que sobram que preferem fazer compras no estrangeiro, quem irá à loja Prada?! Ouvia na loja bichanar entredentes... "os angolanos... isto é para os angolanos..." Talvez. E turistas americanos, agora que o euro está acessível de novo. Pode ser.

Foi no meio deste pensamento macroeconómico que fui subitamente abordado por uma senhora que se apresentou como diretora de uma revista feminina: "Mas o que é que está aqui a fazer? Isto não é política! Bem, o António Costa está aí, mas não deve ser por isso. Gosta de trapinhos, é?" Ainda balbuciei uma resposta. Mas a força gravitacional de Bárbara Guimarães sugou-a antes que conseguisse encadear um raciocínio decente. Mas respondo por aqui: "A loja da Prada é mais realpolitik que comissão parlamentar em dia de escutas, minha senhora."

Vale a pena uma visita, não paga nada. São dois pisos com todas as variantes Prada - feminino, masculino, sapatos, malas, óculos, perfumes, maquilhagem e zona Miu Miu, um spinoff de Miuccia Prada. Todas as lojas são entregues a grandes arquitetos. Roberto Baciocchi fez do 206 da Avenida da Liberdade um espaço amplo, luminoso e moderno, mantendo as colunas de mármore originais e os vitrais nas portas. http://www.prada.com/ Qualidade de vida em Lisboa http://www.monocle.com/Locations/Portugal/Lisbon/

Texto publicado na edição da Única de 26 de Junho de 2010