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Expresso

José Gameiro

Maria, Manel (XIII)

MARIA

Este fim-de-semana o Manel foi voar, os miúdos tinham imenso que fazer e eu telefonei à minha mãe e desafiei-a para sairmos. "E o que é que eu faço ao teu pai?", ainda me disse, mas sabe tão bem quanto eu que ele adora ficar uma tarde inteira a ler.

O convite não foi ingénuo. Sentia necessidade de falar com ela. As nossas conversas não são muito frequentes, não sou aquele estilo de mulher que telefona à mãe todos os dias, ela também é pouco "melga", quase não me faz perguntas, mas quando falamos é a chamada conversa de fundo.

Perguntei-lhe de chofre: "A mãe está casada com o pai há 51 anos, mais quatro de namoro, nunca teve vontade de conhecer outro homem?"

Olhou-me com os olhos muitos abertos, hesitou, mas respondeu, com uma quase imperceptível irritação na voz: "Às vezes penso que fui uma parva, mas sempre adorei o teu Pai." "Ó mãe, não estou a perguntar se alguma vez deixou de gostar do pai, nem a querer saber dos seus segredos, só gostava de perceber se alguma vez se sentiu atraída por outros homens."

"O que é que se passa contigo Maria? Estás com problemas com o Manel?" Que não, "com o Manel já tive, como sabe, mas agora está tudo bem, se estiver com problemas é comigo". A minha mãe riu-se:

"Olha, se quando estiveste separada do Manel tivesses tido esta conversa comigo, sabia perfeitamente o que te dizer, agora não sou capaz, vais ter de pensar sobre isso sozinha." Deu-me um beijo e rematou: "Basta olhar para ti para perceber que só és parva quando queres e se quiseres, tudo aquilo que fizeres ou não fizeres será por ti e para ti, agora tenho de ir que o teu pai precisa de mim para lhe fazer o chá."

Pensei, a vida assim é simples, tenho é de pensar no que tenho para fazer em casa, para quando o Manel chegar estar tudo calmo e sossegado.

MANEL

Estou fora de casa há três dias e tenho saudades da família. Mas ontem senti muito a falta do meu pai. Já passou algum tempo sobre a morte dele, mas parece que agora sinto mais a sua falta. Não me é fácil falar do homem e do pai, é mais simples descrever a nossa relação, era simples e forte. Por vezes oiço amigos falarem dos pais como autoritários, até déspotas, distantes, o meu não tinha muita paciência para grandes discursos sobre regras de conduta, dizia-me, simplesmente, "podes sempre dizer o que sentes e o que pensas, mais depressa ou mais devagar vamos ter de chegar a um acordo".

E, mais ou menos, assim foi toda a vida. Acho que a coisa mais importante que me transmitiu foi a ideia de que a maior parte da nossa capacidade em estar bem vem de nós próprios. Ensinou-me a estar sozinho, um dia disse-me - uma daquelas coisas que nos ficam para sempre - "a maior parte do teu tempo vai ser passado em solidão, aproveita-o bem, quando estiveres com os outros não os chateies".

Tinha uma relação de grande cumplicidade com a Maria, divertindo-se a gozar comigo - tens aqui uma grande mulher, vê lá se te aguentas. Já muito doente, sabendo que estava próximo do fim, pediu para falar connosco a sós. A Maria hesitou se devia estar presente, mas ele foi muito explícito: "Quero falar com os dois." Pedimos à Rita que saísse com a avó e fomos lá a casa.

"Já não vou viver muito tempo, quero-vos pedir uma coisa, que vocês vão prometer que fazem." Prometemos. "Quando isto estiver para acontecer e eu vos disser para falarem ao Afonso ( o melhor amigo dele e meu padrinho, que é médico) ele sabe o que há-de fazer, Temos um contrato mútuo há muitos anos, mas a tua mãe nunca poderá saber de nada." Passados uns dias, a Maria ligou-lhe, eu não fui capaz, o meu pai adormeceu. Será que um dia vou ser capaz de fazer o mesmo?

José Gameiro