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Expresso

João Duque

Porque será?

O antigo presidente Jorge Sampaio questionou o Governo sobre a sua intervenção no BPP pedindo explicações, depois de o ministro Teixeira dos Santos e do governador do Banco de Portugal terem menosprezado a importância do BPP no sistema bancário português.

Compreendo e apoio a intervenção do Governo, mas concordo que as explicações foram parcas e vagas.

Será que se receou algum impacto numa instituição financeira menor (ou como explicar a presença da Caixa Central de Crédito Agrícola no consórcio de 'gente crescida', quando o Montepio ficou de fora e é maior)?

Será que se receou a degradação da imagem dos outros bancos que irão em breve ao mercado internacional captar recursos através de dívida garantida pelo Estado português?

Será que houve o receio de uma degradação do custo da dívida púbica portuguesa face à alemã que, sendo normalmente de 20 a 30 pontos-base (0,2% a 0,3%) acima, em Novembro passado já era quase 1% mais alto?

Será que por isso há o receio de, por um lado, observar um impacto negativo no custo de refinanciamento da dívida pública com um agravamento do défice orçamental, e por outro, no agravamento do custo do capital das empresas agravando ainda mais o clima de recessão a que parece inevitável fugirmos?

Será que chegou a haver o receio de uma alteração do "rating" da República com um agravamento muito significativo do custo do capital?

Será que há o receio de uma dificuldade de financiamento externo através dos leilões de dívida pública em resultado do último leilão em que a procura mal ultrapassou o montante indicativo e se prevê uma pressão enorme de soberanos concorrentes a inundarem no futuro o mercado de dívida?

O mercado secundário de dívida pública portuguesa é 10% do que era e quer os Estados Unidos quer os países europeus estarão a pressionar fortemente o lado da oferta de dívida. Só os mais atractivos e seguros captarão o interesse do capital internacional.

Poderá haver um pouco de 'sim' em algumas das respostas a estas interrogações, mas o que não ficou claro foi a opção por uma intervenção que por um lado foge ao esquema do fundo de 20 mil milhões para garantias estatais, e por outro foge à nacionalização de capital do tipo 'à inglesa'.

João Duque, professor catedrático do ISEG