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João Duque

Palhaço ou toureiro

João Duque (www.expresso.pt)*

Um dia destes perguntaram a um miúdo da família: "O que é que queres ser quando fores grande?" Sabem qual foi a resposta? "Quero ser reformado!" Bonito! Um puto de nove anos diz-me que o que mais almeja da vida é ser reformado!

Estava eu esta semana a contar a mesma história a uns amigos e, antes de dar a resposta, ouço-a pronta da boca de um dos compinchas: "O puto quer ser reformado!" Espantado, perguntei-lhe como é que adivinhara. "É pá, um miúdo meu amigo deu-me a mesma resposta há umas semanas!"

Lindo! O caruncho ataca fundo e espalha-se depressa...

O país está de rastos. As finanças públicas afundam-nos. As empresas, endividadas, estão sem meios para financiar a actividade que proporcionará trabalho. A Justiça tolhe-nos. A educação regride. E quando todos precisamos que uma nova geração venha cheia de esperança, força e criatividade para nos ajudar a pagar as colossais dívidas que juntámos, ei-los a responder em uníssono: "Queremos ser reformados!"

Mas afinal, porquê o meu espanto?

Durante anos, assisti atónito a um ardente desejo nacional de "passar à pré-reforma", situação deliciosa em que, numa mistura de empresa e Estado, num conluio intrageracional, se decidiu que não se trabalhava, se ia para casa mantendo o rendimento por inteiro. As deliciosas justificações eram mais do que muitas: esta gente (na casa dos 50!) já não se consegue reciclar, esta gente dá mais despesa em luz, papel, água ou renda pelo espaço que ocupa (no emprego, leia-se), do que se forem para casa, etc., etc., etc...

Da pré passava-se à dita, até porque aquela não passava de um purgatório à beira do paraíso...

Depois veio a técnica de 'comprar a reforma.' No meio de confusões monumentais e por esquemas que qualquer actuário de terceira categoria reprovaria liminarmente, assisti à escandalosa compra de reformas magníficas por pessoas importantíssimas, à mistura com a arraia-miúda que também aproveitou da confusão, até porque os eruditos esquemáticos sempre tiveram de usar a lei dos grandes números para se safarem no meio das multidões...

E é este o estado de Portugal. Temos uma geração de reformados florescentes, muitos ainda 'jovens' e, valha-nos isso, a transpirar saúde, com reformas nunca mais igualáveis - garantidas por direitos adquiridos e que nunca mais ninguém poderá adquirir -, a fazerem as delirantes delícias de uma geração de netos que vêem nos avós tudo o que os seus pais não têm: tempo, saúde, dinheiro, alegria, rejuvenescimento... Ao contrário, os pais correm atrasados para todo o lado, queixam-se de falta de dinheiro para acudir às exigências, da instabilidade do emprego, perdem a alegria, gritam com os filhos, definham, envelhecem.

Portugal corre o risco de ficar corroído pelo bicho da preguiça calaceira com uma geração já cansada antes mesmo de começar.

Na minha geração queríamos ser médicos, engenheiros ou advogados, com um ou outro mais arrojado a preferir: "Palhaço ou toureiro!"

*Professor catedrático do ISEG

jduque@iseg-utl.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Maio de 2010