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João Duque

Os ungidos

João Duque (www.expresso.pt)*

Estavam os filhos de Israel em fuga do Egipto acampados diante do mar, quando, "ao levantarem os olhos, viram os egípcios que vinham no seu encalço. Foram tomados de espanto e , clamando em alta voz, disseram a Moisés: 'Não havia, porventura, túmulos no Egipto, para que nos conduzisses a morrer no deserto?' Moisés respondeu ao povo: 'Não temais! Tende ânimo, e vereis a libertação que o Senhor vai operar hoje em vosso favor'. Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fê-lo recuar com um vento impetuoso vindo do Oriente, que soprou toda a noite. E pôs o mar a seco. As águas dividiram-se e os israelitas desceram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha à direita e à esquerda".

O que é que se paga a um gestor de topo? O tempo que passa em reuniões a dar ou a cercear a palavra aos presentes? A manter os trabalhos dentro da ordem? As horas dedicadas em representação da empresa em reuniões sociais?

Sim, também isto, mas muitos mais do que isto: paga-se a capacidade de ver mais longe do que os outros. Ver o que ninguém vê, o que não consegue, não quer ou tem falta de coragem para ver e implementar.

Paga-se a capacidade, o brilho, o magnetismo, ou carisma, que poucos têm e que, como que por milagre, parece concentrar-se num só. Ao líder paga-se o dever de estar sempre a pensar naquilo que a organização deve ser dentro de um, três ou cinco anos. Ao líder paga-se a 'cabeça no futuro'.

Eles são como que os ungidos por uma 'mão invisível', os escolhidos para liderar os outros. Estes aceitam-nos, elegem-nos e pedem-lhes rumos e orientações.

Não sei se os que me lêem, alguma vez estiveram sozinhos num gabinete a chefiar um grande colectivo de homens a quem se pediram rumos, orientações. 'E agora mestre? O que é que fazemos?' Esta é a pergunta mais difícil que se coloca a um homem, à qual todos os que estiveram nessa situação já algum dia responderam para os seus botões: "Não faço a mínima ideia!"

Mas os verdadeiros líderes são os que acabam, depois de reflectir, por encontrar a resposta. Conseguem formar as equipas, pô-las a trabalhar em harmonia, entusiasmar os outros no desempenho e fazem prevalecer os seus ideais sobre o mundo. Há outros que se metem na cama, acabrunham-se, ou erram desastradamente na implementação. Esses falham.

Qual deveria ser a remuneração de Moisés se fosse feita uma proposta à assembleia dos filhos de Israel em fuga do Egipto? Deveria remunerar-se a acção sobre as forças da natureza, que não foi, em verdade, sua? Ou a visão, a tenacidade e o cariz inigualável?

"Os egípcios os perseguiram: todos os cavalos do faraó, seus carros e seus cavaleiros internaram-se após eles no leito do mar. As águas voltaram e cobriram os carros, os cavaleiros e todo o exército do faraó que havia descido no mar no encalço dos israelitas. Não ficou um sequer".

*Professor catedrático do ISEG

jduque@iseg-utl.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010