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João Duque

Avé Maria...

João Duque (www.expresso.pt)*

Recordo com doçura, as primeiras vezes que me confessei. Vasculhava a cabeça à procura de pecados a despejar no regaço da sotaina do senhor prior. Mas não ia além de umas desobediências maternais. Sim, porque da lista dos mortais, não tinha eu experiência. Naquela idade, nem a mulher do próximo desejava...

A dívida de Portugal não só a pública, mas essa especialmente, é o nosso pecado colectivo. Abusámos na antecipação do prazer pela utilização dos recursos. Deleitámo-nos com miríades de bens para os quais não tínhamos capacidade de pagar.

E agora? Agora estamos viciados nesse tipo de vida, num padrão de consumo desajustado à riqueza produzida, investimentos feitos que não se usam, investimentos que queremos fazer sem sentido económico mantidos por embirração política.

E como a qualquer viciado, dói quando se tenta travar o vício.

Como muitos disseram durante a passada campanha eleitoral que a dívida era o nosso maior e mais urgente problema nacional. Riram de Manuela Ferreira Leite, escarneceram dela e do seu apego à visão contabilística do problema, atirando-lhe isso na cara como se fosse um despropósito, uma mania, coisa de velhos do Restelo...

Lançaram a ideia de que o endividamento era inesgotável e que não tinha efeitos sobre a taxa de crescimento ou o próprio custo do capital.

O custo da dívida disparou. Agora, meio atordoados, e sem perceber como vamos sair desta encrenca, acusam-se as agências de rating, a imprensa de atear as fogueiras para vender jornais, os especuladores, os alemães, os americanos e todos os que não ajudam a Grécia, ou Portugal. Acusa-se... Os maus são sempre os outros. Nós só emitimos dívida (se existe é para ser emitida) e crescemos pouco!

Ainda meio confuso, assisto a um espectáculo que nunca imaginei: os mercados vergaram a arrogância do primeiro-ministro, a sua forma de lidar com a oposição, a sua intransigência e inegociabilidade das suas propostas.

Para melhorar o teatrinho, a rapaziada faz greves e quer aparecer nos telejornais das cadeias de televisão a que assistem os nossos credores... Um mimo! Nada melhor para nos aproximarmos da Grécia. Portugal e a Grécia juntos representaram a grande final do Euro. Agora, juntos de novo, arriscam-se a representar o grande final do euro...

A dívida sufoca-nos. Proponho que a reestruturemos convertendo parte das emissões de Obrigações do Tesouro em dívida perpétua não amortizável. Assim nem as gerações futuras têm de suportar o pesado fardo do reembolso.

Esta semana ficámos a saber que foi decidida tolerância de ponto aos funcionários públicos por ocasião da visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI a Portugal.

Não sei se é por isso ou não, mas aproveitando o dia 13 de Maio e antecipando os dias 20 e 21 de Maio, datas em que Portugal vai ter de pagar, respectivamente, 5,6 e 1,3 mil milhões de euros de dívida que se vence, apetece pedir aos peregrinos: em Fátima rezem por nós. Avé Maria...

*Professor catedrático do ISEG

jduque@iseg-utl.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 1 de Maio de 2010