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João Duque

A dieta de D. Augusta

João Duque (www.expresso.pt)

Dona Augusta foi a Cabo Frio à famosa Rua do Biquíni onde milhares de tanguinhas minúsculas, bem cavadas, deixam antever um inquieto e efervescente imaginário masculino. A seu lado, o sr. Januário, abanava e dizia sim às interpelações de sua esposa: "- Achas que este me fica bem?" "- Sim." "- E este mais cavado?" "- Sim." Nos sins do sr. Januário, o que faltava em biquíni, sobrava em celulite de dona Augusta, que garantia que a sua dieta a levaria a envergar, no Verão do Algarve, qualquer modelo mais ousado que ali comprasse.

O país entrou em dieta. Tivemos o PEC I, depois o PEC II e ainda esta semana mais um PEC-inho dedicado aos desempregados. Cada PEC descredibiliza porque mostra que os anteriores não foram suficientemente estudados e ponderados.

Aumenta-se o IVA, na taxa dos 5%, por causa da Coca-Cola, esquecendo que é tão obsceno a Coca-Cola na taxa de 5% como na de 6% e que os medicamentos, o pão, ou o leite, não são refrigerantes. Aumenta-se o IRS numa trapalhada que não sei o que vai dar, e reduzem-se algumas despesas.

Mas o que me está a assustar de momento é que apesar das estatísticas do produto estarem, aparentemente, a correr bem (crescimento de 1,7% no PIB no primeiro trimestre), tudo o resto desaba.

Até ao final de Março de 2010 a diferença entre as receitas e as despesas do Estado (orçamento e segurança social) era negativa na ordem dos 2050 milhões de euros, representando um agravamento de 13,8% neste indicador, face ao ano anterior.

Por isso, não é de estranhar que a dívida pública esteja, este ano, e novamente, a explodir! Se no ano passado, por esta altura, a dívida pública directa total já tinha aumentado 6100 milhões de euros entre Janeiro e Abril, este ano a conta já vai em 7189 milhões!

Isto é, se no ano passado, ano da calamidade, nos tínhamos endividado entre Janeiro e Abril a uma média de 51 milhões de euros ao dia, este ano vamos na bonita soma de 60 milhões de euros ao dia!

Agora, francamente, acham que se pode manter este ritmo de evolução?

Acham imaginável iludir os credores mostrando-lhes que estamos bem? Como?

Será que a estratégia passa por apregoar a manutenção dos programas de investimento público impossíveis e irreais, como fazia o patético ministro iraquiano quando afirmava, às câmaras da CNN que os invasores estavam dominados e estes lhe acenavam por trás das costas?

O crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano deveu-se, afinal, a um continuado programa de despesa pública e se estivesse de acordo com a nossa capacidade de produção, teria sido provavelmente um dos piores da Europa. Assim, continuamos felizes...

Dona Augusta acha que a dieta que está a fazer (cortar a manteiga das torradas), lhe permite enfiar o biquíni, mas o realista sr. Januário sabe bem que aquela celulite não sai assim das nádegas de sua esposa. E entre os sins à dona Augusta vai deitando o olho a outros biquínis...

jduque@iseg-utl.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010