Siga-nos

Perfil

Expresso

Henrique Raposo

Sócrates em Gramido

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Um dos mitos mais desconcertantes sobre Portugal é aquele que proclama o nosso pacifismo bovino: o povo português, assim reza a lenda, é adepto dos 'brandos costumes'. Meus amigos, esta é a maior mentira que os portugueses contam sobre Portugal. Salazar foi o inventor desta falácia, e, 40 anos após a morte do ditador, o país ainda utiliza a farsa dos 'brandos costumes' para se auto-retratar.

Esta branda mitologia foi uma espécie de soporífero salazarista destinado a acalmar um país que esteve em permanente clima de guerra civil entre 1808 e 1926. Hoje, tendemos a esquecer que a violência de 'português' contra 'português' foi a marca desse longo século XIX português (1808-1926). Durante este período, os portugueses foram tudo menos brandos uns para os outros. O ódio entre as diferentes facções (liberais vs. miguelistas; setembristas vs. cartistas; monárquicos vs. republicanos) era superior a tudo, era superior ao próprio sentimento patriota. O ressentimento entre portugueses esmagava o amor por Portugal. E isso ficou evidente na forma como se encerrou a guerra civil da Patuleia. Entre uma humilhante invasão estrangeira e um acordo interno, as duas facções escolheram a primeira hipótese. Ou seja, os portugueses foram incapazes de alcançar um acordo dentro de fronteiras, e preferiram ser humilhados pelos 'capacetes azuis' (ingleses e espanhóis) da Quádrupla Aliança. O armistício só foi alcançado através da acção de um general espanhol e de um coronel inglês. Na Convenção de Gramido, perante a ausência do governo 'legal' de Lisboa, a Junta rebelde, um soberano 'ilegal', assinou a sua rendição no quartel espanhol. Entre a perda de soberania às mãos de estrangeiros e o 'dar-o-braço-a-torcer' ao adversário interno, a Junta preferiu o primeiro caminho.

A Convenção de Gramido mostra como o ódio de 'português' contra 'português' é o motor da História de Portugal. O ressentimento do 'português' não está reservado para o exterior, mas sim para os outros portugueses. E, nesta fase do campeonato, o leitor atento já percebeu por que razão esta crónica está empoleirada em 1847: em 2010, a perda de soberania económica é uma espécie de Convenção de Gramido em câmara lenta, com o euro alemão a tomar o lugar do mosquete inglês nessa árdua tarefa que é colocar os portugueses no curso da autogovernação. Aquilo que Jean-Claude Trichet terá explicado a Teixeira dos Santos não é diferente daquilo que uma legião de portugueses anda a gritar há anos. Aquilo que Angela Merkel terá soprado ao ouvido de José Sócrates não é diferente daquilo que Ferreira Leite anda a dizer há anos. Então, porque foi necessária uma intervenção externa para o governo acordar? Porque o ódio que um 'português' sente por outro 'português' continua a ser superior ao amor que esse 'português' sente por Portugal. O ressentimento ideológico continua a esmagar o patriotismo. Era assim em 1847. É assim em 2010. Entre a humilhação às mãos da nova Quádrupla Aliança (Alemanha, França, BCE, Comissão) e a admissão de que Ferreira Leite tinha razão, Sócrates preferiu a humilhação e a perda de soberania. A culpa não é dele, coitado. A culpa é nossa, de todos nós. Portugal não é um país de 'brandos costumes'. E essa falta de brandura começa logo no ódio que o 'português' sente por outro 'português'. O patriotismo é impossível nesta terra.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010