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Expresso

Henrique Raposo

O Gafanhoto e o BPN

Certa vez, assisti a um milagre. Só uma vez. Uma. Foi na época em que o Vasco Granja enchia a TV com desenhos animados da Checoslováquia (mais tarde, nas aulas de História, descobri que o Vasco Granja foi mesmo a única coisa boa que saiu do Pacto de Varsóvia). Nessa altura, eu tinha um fascínio qualquer com formigueiros. Se não estava a ver os bonecos do Vasco Granja, estava a ajudar as formigas. Para desespero da minha avó e dos meus primos, tudo o que era bolacha ia para os formigueiros do bairro. Criei, aposto, a raça de formigas mais roliça do mundo. Eu era uma espécie de David Attenborough arraçado de Maria de Lourdes Modesto. E esta ajuda humanitária não se ficava pelas bolachas. Também fazia banquetes com bichos. Gafanhotos, sobretudo. Gostava de atar um pequeno cordel às patas daqueles cangurus de rés-do-chão. Para quê? Ora, com aquelas algemas feitas de linha de coser, os gafanhotos ficavam ali à mercê das minhas formigas de estimação. Mas certa vez aconteceu o inesperado. O tal milagre. Um gafanhoto preso pela minha linha passeou-se à porta do formigueiro da rua de baixo. E não aconteceu nada. O patudo ficou como estava. Intacto. Incólume. Com todas as patas no sítio. Não sei se aquele formigueiro estava à mercê de febres budistas, mas o certo é que o gafanhoto não foi desmantelado. Guardei o bicho, e nunca mais toquei em gafanhotos. Mais tarde, nas aulas de Filosofia, percebi que aquela foi a primeira e a última manifestação da existência de deus na minha vida.

Se a justiça portuguesa conseguir julgar em tempo útil as pessoas envolvidas no caso BPN, então, terei descoberto o meu segundo gafanhoto. Mas não me parece. Só temos direito a uma sarça-ardente na vida.

O Pião de Obama

A Europa é uma enorme loja de brinquedos. Descobri isso ao procurar um pião para o meu primo mais novo. Entrei numa loja de brinquedos, flanqueei uma horda de crianças mal-educadas e procurei o dito pião. Em vão. Já não há piões. As raparigas da loja nem sequer sabiam o que é um pião. Como plano B, pensei em comprar berlindes. Mas, que raio, também não havia berlindes. Depois, ao andar pela loja, descobri que já não há brinquedos de rua. Aqueles brinquedos que eu usava na terra, na areia, nos baldios, onde calhasse, já não existem. As crianças já não vêm brincar para a rua. Todos os brinquedos daquela loja só funcionam num ambiente caseiro, almofadado e hermeticamente fechado. As crianças de hoje brincam no mundo de sonhos da ASAE. Que decadência, meus senhores. Estamos a criar uma geração de eunucos que nunca esfolaram os joelhos a jogar à bola na rua.

Aquela loja é a metáfora perfeita da moral mariquinhas-pé-de-salsa da Europa contemporânea; uma Europa com medo de ir para a rua, com medo de esfolar os joelhos no chão empoeirado da História. Mas, meus caros eunucos de joelho imaculado, Barack Obama vai exigir que os europeus esfolem os joelhinhos nas areias do Afeganistão. E se os europeus recusarem o repto? E se os europeus continuarem a usar joelheiras em combate? Se isso acontecer, Obama considerará a Europa como um actor político pouco sério. Obama sabe jogar ao pião.

Henrique Raposo