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Expresso

Henrique Raposo

Já chega de Guterres

Portugal é uma manta de retalhos semanal. Cada semana é uma entidade autónoma, separada das semanas anteriores e sem continuidade nas seguintes. Nesta semana, falou-se dos combustíveis. Na semana passada, discutiu-se o cigarro de Sócrates. Na outra semana, abordou-se a subida dos juros. Na próxima semana, discutir-se-á o código laboral. E nunca aparece um fio condutor entre os temas. Portugal não tem uma visão política e uma narrativa histórica para enquadrar as diferentes discussões semanais. Às 23h59 de cada domingo, alguém carrega no 'reiniciar'; feita esta "tabula rasa", as segundas-feiras caem de pára-quedas em Lisboa, oriundas de um Olimpo ahistórico, apolítico e 'aportuguês'.

O rei deste lufa-lufa é José Sócrates. Todas as semanas, o primeiro-ministro, embrulhado no "power point", oferece ao país uma dose de percentagens e tabelas apontadas ao futuro. As dificuldades do presente? As raízes históricas dos problemas? Nem vê-las. Sócrates não governa o Portugal de 2008. Sócrates governa uma montanha de estatísticas endereçadas a um Portugal hipotético, algures no futuro. O primeiro-ministro precisa de um banho de realidade. E, para começar, podia rever a série documental de António Barreto, 'Portugal, um Retrato Social'.

Através das artimanhas do "power point" e demais bugigangas do marketing político, Sócrates - na linha de Guterres - inventou um Portugal irlandês ou finlandês sem qualquer relação com o Portugal... português. Este governo faz promessas e planos de modernização que são impossíveis de cumprir porque - simplesmente - não têm correlação com as possibilidades históricas de Portugal. Eu suponho que esta elite guterrista e pós-guterrista já esqueceu um facto bem relembrado pela série de António Barreto: a minha geração nasceu num país do terceiro-mundo. Dói, mas é verdade: quando eu nasci (1979), Portugal estava somente a sair do terceiro-mundo. O país da minha infância (o Portugal dos anos 80) era - no máximo - uma terra de remediados. Mas, apesar de tudo, este Portugal era realista; os portugueses tinham os pés bem assentes no chão rugoso da sua História. O problema surgiu nos anos 90. Durante esse longo sono guterrista, Portugal começou a pensar que já era 'europeu'; os portugueses esticaram os sonhos e começaram a viver como holandeses. O mal-estar que agora percorre Portugal é, na verdade, o fim dessa ilusão criada por Guterres. Os portugueses (ainda) não são holandeses.

Não podemos esconder Portugal atrás dos biombos guterristas elaborados no tear do "power point" semanal. Temos de sair da mentira de 1998 (Portugal: país 'europeu') e regressar à dura realidade de 1988 (Portugal: país a caminho de ser 'europeu').

Politicamente Correcto

Islamismo e Multiculturalismo' (Almedina), de José Pedro Teixeira Fernandes, retrata a contradição do Ocidente politicamente correcto: o islamismo (caracterizado por verdades absolutas) é protegido pelo multiculturalismo ocidental (ideologia relativista que recusa a Verdade). Ou seja, a violência islamita cresce numa atmosfera onde estão proibidos os instrumentos epistemológicos que permitem criticar o 'outro', o 'não-ocidental'.

Henrique Raposo