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Henrique Raposo

"Estado de emergência"

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Caro Presidente da República, venho por este meio comunicar-lhe a minha faraónica desilusão com a conduta política de V. Exa. Não, não estou zangado consigo por causa do casamento gay (eu até acho piada aos gays conservadores, esses oximoros com pernas). Não, também não estou chateado consigo por causa das suas declarações sobre o turismo (a infelicidade do seu raciocínio acabou por transformar Vieira da Silva num génio da economia, mas eu perdoo a V. Exa.). Eu estou a amarinhar pelas paredes, porque V. Exa. não reagiu às declarações inconcebíveis do ministro das Finanças. V. Exa. quis ser o explicador de economia de Vieira da Silva na semana em que devia ter sido o professor de direito constitucional de Teixeira dos Santos.

Na semana passada, Teixeira dos Santos reconheceu a retroactividade e a inconstitucionalidade dos 'novos' impostos. Mas logo a seguir, e através de uma cambalhota czarista, o mesmo Teixeira dos Santos suspendeu a Constituição: para justificar a inconstitucionalidade fiscal, o ministro invocou uma situação de emergência (eu ainda olhei pela janela à procura dos tanques espanhóis que justificariam a convocação daquele "estado de emergência", mas não os vi). Como é óbvio, caro Presidente, esta posição de Teixeira dos Santos é um absurdo perigoso. Mesmo que a resolução dos problemas do país implicasse a convocação de um "estado de emergência", essa prerrogativa caberia apenas ao Presidente. O "estado de emergência" não é um expediente burocrático. É o acto político por excelência, e não pode ser invocado por um ministro das finanças pedinchão.

Eu esperei, mas V. Exa. não reagiu a esta ofensa. Um ministro afirmou, com todas as letras autoritárias, que a máquina fiscal está acima da Constituição, mas V. Exa. não disse nada. Meu caro Presidente, este seu silêncio é inadmissível. E de duas, uma: ou V. Exa. concorda com Teixeira dos Santos (neste caso, V. Exa. não seria um grande político, mas apenas um bom contabilista), ou V. Exa. tem medo de causar uma "crise política". Eu estou inclinado para a segunda hipótese. E, neste sentido, deixe-me dizer-lhe uma coisa: o seu silêncio acrítico em relação a este governo já enjoa. V. Exa. acha que está a fomentar a estabilidade. Engana-se. V. Exa. está, isso sim, a pactuar com a podridão czarista deste PS. Os socialistas vão suspender a Constituição por seis meses, e V. Exa. anda a dar aulas de turismo e de "ética da responsabilidade". Não goze comigo, V. Exa.

O fascista dos morangos

Meus caros, eu quero fruta nacional. Estou farto de não encontrar fruta portuguesa nos supermercados. Nem a Dona Felisberta, da mercearia que paga 10 euros de renda, tem morangos dos nossos. Ando e volto a andar, varro e volto a varrer as prateleiras com os olhos, mas não acho a bela nêspera portuguesa. As senhoras do 'super' já me conhecem como o "neurótico da fruta" (o que é triste, porque antes eu era o "giraço do iogurtes"). Meus amigos capitalistas-donos-de-supermercados, eu prefiro apanhar escorbuto a comer nêsperas e morangos espanhóis. Sim, é verdade, sou um bocado de extrema-direita na minha frutinha. Nos moranguinhos, então, sou mesmo fascista.

Henrique.raposo79@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010