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Henrique Raposo

Ateísmo de galinheiro

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Anda por aí um ateísmo de galinheiro. Estou a falar daquela crendice que fica escandalizada com o facto de Lisboa não receber o Papa da mesma forma que recebe o Presidente do Burundi. Estou a falar daquela malta que começa aos pulinhos histéricos quando vê as bandeiras do Vaticano nos autocarros da Carris. E o pior é que esta malta julga que dá pulinhos científicos, isto é, julga que a sua irritação tem certificação científica. São ateus de galinheiro, mas dão-se ares de ateus de laboratório. Este ateísmo saltitão e pseudo-científico é inspirado, entre outros, por Richard Dawkins, um biólogo conhecido pelos seus pulinhos anticristãos (o homem até quer prender o Papa). O ódio anti-religioso de Dawkins é idêntico ao ódio dos analfabetos da 'formiga branca' lisboeta. Nada de grave, diga-se: Dawkins tem todo o direito a trincar tremoços jacobinos em tascas arsenalistas. O problema começa quando Dawkins tenta legitimar esta intolerância com os seus galões de cientista.

Em "O Deus de Dawkins" (Alêtheia), o teólogo e cientista (sim, as duas coisas podem coexistir) Alister McGrath desmascara as pretensões científicas do ateísmo de Dawkins. McGrath começa por reafirmar a velha evidência: a religião não é um assunto captável pelo método científico. Para Dawkins, Deus não existe porque não é laboratorialmente testável. No árido e imanente mundo de Dawkins, é uma idiotice acreditar em algo que não possui forma empírica. Com paciência de santo, McGrath relembra que existem áreas de transcendência que escapam à técnica científica. Mas, atenção," O Deus de Dawkins" não assenta numa estratégia defensiva, ou seja, McGrath não procura defender a fé. O teólogo de Oxford procura, isso sim, atacar a fraqueza científica das teses de Dawkins. Por outras palavras, McGrath mostra como o ateísmo de Dawkins não tem qualquer fundamento científico. É apenas uma crendice taberneira mascarada de ciência. É um ódio irracional maquilhado com o batom e rímel do jargão científico.

Do alto da sua autoridade científica, Dawkins afirma que a "religião é um vírus". Para 'comprovar' esta asserção, Dawkins distorce por completo a realidade, tomando a parte (os fundamentalistas) pelo todo. Pior: este biólogo darwinista transforma o seu ateísmo na única resposta aceitável, deixando de lado qualquer cepticismo em relação à sua própria teoria. Ora, isto representa uma quebra intolerável do protocolo científico. Dawkins esquece que a ciência não anda à procura da verdade redentora, mas sim de probabilidades. Aliás, todo o conhecimento científico, desde a física à ciência política, assenta nesta arquitectura céptica: só podemos ter estabilidades teóricas, e nunca certezas teóricas; todas as teorias são falsificáveis, logo, todas as teorias são 'temporárias'. Dawkins esqueceu este cepticismo basilar, e transformou a ciência numa cruzada contra Deus. De forma anticientífica, Dawkins elevou uma probabilidade (darwinismo) à condição de verdade absoluta (e intolerante), que procura, inclusive, explicar todo o universo humano, desde as relações culturais até à história das ideias.

Muitas pessoas acham que Dawkins desrespeita a religião. Não concordo. Dawkins desrespeita, isso sim, a ciência. Este ateísmo de galinheiro é um embaraço para todos aqueles que acreditam no cepticismo científico. A ciência não precisa de Papas.

Henrique.raposo79@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010