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Expresso

Henrique Raposo

Alegre é o nosso sapato

Um jornalista iraquiano transformou Bush num campo de tiro. Armas utilizadas? Dois sapatos pestilentos. Os "media" europeus, com elevado profissionalismo, elevaram este episódio à condição de acontecimento da semana. E isto diz quase tudo sobre a forma como a Europa ocidental vê o mundo.

Os europeus ocidentais gostam de chapinhar numa realidade virtual inventada pelos telejornais; uma realidade virtual sem qualquer relação com a realidade concreta, aquela coisa chata produzida pelos actores extra-europeus da política internacional. O processo de criação desta realidade paralela até é simples, tal como ficou evidente neste episódio do sapato vingador.

Os telejornais encadearam factos insignificantes no sentido de produzir uma narrativa rudimentar: mostraram o sapato voador, atirado pelo Robin dos Bosques iraquiano; mostraram Bush, com reflexos de Lev Yachine, a desviar-se do sapato; e, em jeito de "punchline" televisiva, mostraram os comentários circenses de Hugo Chávez sobre o episódio deste sapato justiceiro que vingou todas as injustiças do mundo perante o maléfico imperador americano. Com esta montagem pueril, os telejornais criaram 5 minutos de uma telenovela intercontinental. E a realidade?

E explicar que os americanos estão a vencer no Iraque? Não interessa. E dizer que Chávez preside a um regime autoritário que encontra no antiamericanismo a sua fonte de legitimação? Também não interessa. Há uma espécie de proteccionismo mediático na Europa: os factos incómodos têm de pagar altíssimas taxas epistemológicas e, por isso, nunca penetram na economia narrativa dos telejornais.

Esta degenerescência cognitiva da Europa ocidental piora à medida que caminhamos para Ocidente. Ou seja, a fuga da realidade atinge o seu zénite em Lisboa. Portugal é mesmo o cinturão negro da negação, e, como tal, adora 'sapatos' mediáticos. Nem por acaso, esta semana ficou marcada pelo esvoaçar de dois velhos 'sapatos' da política portuguesa: Manuel Alegre e Santana Lopes.

Pela enésima vez, os portugueses tentaram adivinhar aquilo que vai nas cabeças de Alegre e Santana. Perante este sapateado mediático, a minha pergunta é só uma: mas porquê? Por que razão discutimos estas (e outras) personagens secundárias com tanto afinco? Ora, porque os portugueses precisam de 'sapatos' para não pensarem nas questões difíceis que estão a dinamitar o regime. Que questões? Indico apenas duas. Primeira: este sistema partidário, que fez a transição democrática, ainda faz sentido na actual fase de consolidação democrática plena? Se calhar, o caos dos partidos à direita (PSD e CDS) e a loucura ideológica dos partidos da extrema-esquerda (PCP e o PCP-descafeinado, o BE) indicam que estamos a assistir ao fim do actual sistema partidário. E ainda bem.

A nossa democracia merece um sistema partidário com uma nova respiração, sem o bafo decrépito que vem de 1974-82. A segunda questão, que os portugueses recusam colocar em cima da mesa, é a seguinte: o actual Estado Social é sustentável? O Estado pode estar em todo o lado ao mesmo tempo? Se queremos o Estado na saúde, temos dinheiro para ter o Estado na educação?

Como não têm coragem para enfrentar estas perguntas, os portugueses atiram 'sapatos' uns aos outros.

Henrique Raposo