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Henrique Raposo

A longa noite socialista

Henrique Raposo(www.expresso.pt)

Com a excepção do interlúdio cómico Barroso/Santana, o PS governou Portugal nos últimos quinze anos. Portanto, o PS é o principal culpado pelo estado comatoso da nossa economia. Isto não é uma questão de opinião, é uma questão de facto. Quinze anos são quinze anos, e os resultados desta longa noite socialista estão aí: dívida incontinente, défice incontrolável e incapacidade crónica para crescer a uma média europeia. A tormenta que estamos a viver em 2010 não resulta da mediática crise internacional de 2008-2010, mas sim da silenciosa crise portuguesa que começou a emergir em 1999. A publicidade enganosa de José Sócrates não pode apagar este facto: nos últimos dez anos, Portugal saiu da rota de convergência com a Europa; na última década, a Europa e o mundo conheceram um crescimento ímpar, mas Portugal passou ao lado dessa prosperidade. Aliás, nós estamos a atravessar o período mais negro da economia portuguesa desde o tempo em que o meu avô 'prohibia' a minha avó de ir à 'pharmácia'.

Com Guterres e Sócrates, o PS continuou a linha de fomento fontista iniciada por Cavaco Silva (o socratismo é uma espécie de cavaquismo 2.0). Em consequência, este cavaquismo cor-de-rosa viciou o país nas obras públicas, criando assim a contradição mortal da nossa economia: Portugal aceitou fazer parte do euro, do mercado europeu e da globalização, mas, em simultâneo, viciou-se nas obras públicas, aquelas coisas faraónicas que não são exportáveis. Isto é o mesmo que ir para o duelo do "O.K. Corral" com uma fisga a fazer de Colt 45. Ao jogar com as armas erradas, a economia portuguesa transformou-se numa linha de montagem de dívida: os governos socialistas pedem dinheiro aos malvados especuladores para depois distribuírem esse dinheiro pelos benfazejos construtores civis, os arautos da modernidade socrática. Desta forma, Portugal, que devia estar concentrado nos mercados externos, tornou-se um ensimesmado estaleiro de obras.

A não ser que o dr. Jorge Coelho surpreenda o mundo com a invenção da 'obra pública exportável', Portugal não pode continuar a apostar neste capitalismo de betão. De uma vez por todas, as construtoras civis têm de sair do centro da nossa economia. Esta longa noite socialista tem de acabar. Portugal não merece ser o Alabama socialista da confederação europeia.

Eurocentrismo

Não tem a sofisticação discreta de "The Two Faces of Liberalism", mas "A Morte da Utopia" (Guerra & Paz) confirma John Gray como um dos grandes críticos do eurocentrismo. Mesmo perante a emergência das novas potências, o velho Ocidente continua a pensar que é a vanguarda indiscutível do progresso e do próprio sentido da História. Neste obsessivo sonho eurocêntrico, os outros povos podem participar na civilização universal do futuro, desde que abdiquem das suas ideias e abracem as ideias ocidentais. Entre outras coisas, "A Morte da Utopia" contesta, e bem, esta pretensão eurocêntrica. Não existe uma única via para o 'progresso'. Não existe uma única 'modernidade'. Ante este novo mundo pluralista, a pergunta é inevitável: conseguirá a elite ocidental raciocinar sem o seu Prozac (a ideia de 'progresso' para toda a 'Humanidade')?

Henrique.raposo79@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010