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“A vantagem dos car****s pesa sobre muitas imaginações”

Se Serralves decide fazer uma grande retrospetiva do fotógrafo, então tem de exibir as suas obsessões, incluindo as fotografias explícitas, sexuais, sadomasoquistas, as masturbações, sodomizações. Ou se expõe Mapplethorpe ou não se expõe Mapplethorpe

Advertência: entre neste texto como se num espaço expositivo com conteúdo eventualmente chocante e explícito. Siga por sua conta e risco.


A frase do título deste texto é explícita, os asteriscos são nossos e isso não é irrelevante (já lá vamos). É o princípio de um poema e quem não o conhece ficará surpreendido por saber que quem o escreveu foi o maior, mais citado (e talvez lido), mais exportado e possivelmente mais amado dos poetas portugueses. “A alma humana é porca como um ânus / E a vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações”, escreveu Álvaro de Campos, o engenheiro naval heterónimo de Fernando Pessoa.

O que pesa sobre muitas imaginações é, por exemplo, o “pénis ereto ladeado por uma pistola” fotografado por Robert Mapplethorpe, que pode ser visto hoje em Serralves, no Porto, numa exposição que levou à demissão do diretor do museu, João Ribas. A história da demissão está ainda mal contada, com versões contraditórias que tanto fazem de Ribas um homem corajoso e livre como um miúdo imaturo e birrento; e fazem da presidente Ana Pinho tanto uma censora autoritária como uma autoridade difamada. Será preciso descobrir como tudo aconteceu antes de dizer quem tem razão, mas já se percebeu que ninguém ficará bem numa história que escancarou nos jornais o que já antes era uma má relação pessoal, que assim causará um custo reputacional numa instituição que foi, é e será maior que os dois circunstantes: Serralves. A reputação de que não sabe definir, ao início, a sua linha expositiva, nem respeitar depois a autonomia de um diretor artístico; de que não dá explicações mesmo tendo, como diz António Filipe Pimentel, obrigação moral e ética de as dar à sua comunidade e aos contribuintes que a subsidiam. Nas primeiras 24 horas, desmentiu ter feito censura e ainda nada mais disse. Já Ribas, se foi apenas calculista, arrisca passar de herói de uma noite a esquecido todos os dias.

JOSÉ COELHO

Há já um tema que deve ser discutido. É o da sua imaginação. Citar Pessoa neste texto não serve para chocar nem sequer apenas para fazer uma ligação com Mapplethorpe, que fotografou também o que essa frase significa. Mesmo entre os artistas benditos há criações pouco divulgadas entre os que as achariam malditas. Leonard Cohen, outro exemplo, morreu amado por milhões que se deitam nos lençóis do seu romantismo, mais do que os que conhecem os seus livros então criticados pelas taras sexuais, os seus poemas sobre sexo oral ou até as letras de músicas como a de “Chelsea Hotel”, onde o cantor se lembra de Janis Joplin, tão corajosa e tão querida, “giving me head on the unmade bed”.

Mapplethorpe não entra sequer nesta categoria – com perdão pela armadilha da categorização: se Serralves decide fazer uma grande retrospetiva do fotógrafo, que morreu em 1989, então tem de exibir as suas obsessões, incluindo as fotografias explícitas, sexuais, sadomasoquistas, as masturbações, sodomias. Ou se expõe Mapplethorpe ou não se expõe Mapplethorpe.

O que está em causa (e em dúvida) na exposição é se a administração mandou excluir fotografias que haviam sido selecionadas pelo diretor artístico (o que a administração desmente) e se a administração lhe impôs vedar uma sala a menores de 18 anos (o que parece demonstrado). Nem é preciso discutir que um artista tem é liberdade total, como argumenta Julião Sarmento, mas que um curador, como diz Delfim Sardo, trabalha num exercício de mediação entre o artista e o público: “Cabe às instituições decidir mostrá-lo, no sentido da liberdade e com contexto. Deve informar, mas não ser paternalista. A opção do que quer ver é uma escolha que no limite é sempre do público. Esta é a fronteira permanente e o exercício que se deve fazer." Neste momento, na exposição Pós-Pop, na Gulbenkian, está exposto o "Relicário" de Clara Menéres, que se abre para um falo em resina sintética. Há um aviso à entrada da sala, todas as idades entram. Os avisos fazem sentido à entrada. Um compartimento proibido não.

Há quem choque, há quem se choque, a arte é um território expressivo que admite tudo, incluindo a provocação e a sedução, o beijo e o vómito, a moral e a amoralidade, a criação e a destruição, porque tudo é mesmo tudo, e os museus não são lugares de entretenimento nem da conveniência de uma linguagem política, são lugares de opções expositivas da arte para o público. Ao mesmo tempo em que Serralves inaugurava a exposição de Mapplethorpe, a programação da Feira do Livro do Porto organizava debates sobre o Maio de 68 e afixava cartazes “é proibido proibir”. Paradoxalmente, o que seria uma demonstração de ousadia pode cristalizar-se como um indício de conservadorismo de Serralves. Não é o primeiro museu em que isto acontece: é a Maldição Mapplethorpe. “Sex is again the unmentionable word”, disse David Bowie décadas antes de morrer.

Mas porquê tanto choque com o sexo e tão pouca ralação com a violência e com conteúdos políticos?, pergunta Delfim Sardo. Se entrar nestes dias no Núcleo de Arte da Oliva, em São João da Madeira, pode virar à esquerda e ver a exposição “Intersticial: Diálogos no Espaço entre Acontecimentos”, com obras da Coleção Norlinda e José Lima, ou pode virar à direita para ver a exposição “Histórias de Violência”, que mostra uma convocatória destruidora que nos inquieta. Antes dos 18 anos já os miúdos veem toda a pornografia sem restrições no telemóvel e matam à toa e à bruta nos jogos online.


Voltamos pois à fotografia de Mapplethorpe: aquele “pénis ereto ladeado por uma pistola”, escreve o jornalista Valdemar Cruz, sugere “uma ideia de espelho” que constrói “uma metáfora dos múltiplos poderes associados ao que pode ser visto como duas máquinas de violência”. Não, não é pornografia. Quem quer vai, quem não quer não vai. E se aqui usámos asteriscos no título foi porque os jornais não são do território criativo da arte, têm códigos de conduta sobre questões editoriais como esta – e porque ainda não tínhamos avisado ao que vinha. Se aqui chegou, leu porque quis e não leu quem não quis. Censurar pode ser um ato social e não ser um ato de cultura. Aquele pénis ereto não é um porno pénis ereto, é arte. E chocante, chocante é ver juízes escrever que uma mulher violada inconsciente participou numa “sedução mútua”. Também há arte chocante contra essa violência. Quase um século depois de Pessoa o ter escrito, “a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas”.