Siga-nos

Perfil

Expresso

Opinião

Pedro Matos Soares (Investigador Principal em Física da Atmosfera)

Negacionismo climático à Portuguesa

Na passada semana teve lugar na Universidade do Porto um encontro auto-identificado como científico, em que fundamentalmente foi propalado que apesar do aquecimento global ser uma constatação observacional, para este pouco ou nada contribuem as crescentes emissões de gases de estufa de origem humana. Este negacionismo climático, que prefigura a atitude em que se nega o aquecimento global ou a contribuição humana para este, constitui-se não como uma refutação pura e dura das alterações climáticas, mas de um eufemístico exercício sem fundamento científico e meramente suportado pela vontade opinativa. As virtudes desta corrente para-científica foi intensamente defendida nos meios de comunicação pela principal promotora do encontro intitulado Basic Science of a Changing Climate: How Processes in the Sun, Atmosphere and Ocean Affect Weather and Climate, tais como a eminência científica dos oradores, o seu carácter plural e contra-corrente.

Na apresentação da sua conferência aos meios de comunicação, a Prof. Catedrática MA Araújo proferiu distintas declarações, apesar de plenas em vacuidade, tais como Não pode ser isso porque o CO2 é uma pequeníssima parte dos gases na atmosfera e a maior parte nem é produzido pelos humanos, não há maneira de ter essa influência que se diz (in DN, 2018-09-05) ou O que não nos parece verdade é que todas as causas da poluição e da deterioração ambiental tenham a ver com o CO2 que é um gás perfeitamente inofensivo, do qual depende a vida na Terra (in Público, 2018-09-04) ou ainda O mainstream não sabe nada (in Público, 2018-09-07) de alterações climáticas. A académica sustenta que o CO2 não pode ser o causador do aquecimento global, e isto com o esmagador argumento: simplesmente não pode, tal qual como ouvimos ainda defender que Terra não pode ser redonda - simplesmente porque não pode. A Professora MA Araújo furta-se ainda à inescapável realidade de que num registo de 800 000 anos, até à revolução industrial, as concentrações de CO2 na atmosfera nunca ultrapassaram os 280 pmm, e que hoje estamos acima dos 400 ppm. Escaparam-lhe também dois factos, é que o Homo sapiens data de há menos de 200 000 anos, e que não subsistem quaisquer dúvidas de que o recente aumento desproporcionado das concentrações de CO2 são devidas à actividade humana, nomeadamente à queima dos combustíveis fósseis e alterações do uso do solo. Acrescentou ainda que o próprio CO2 é essencial à vida, talvez esquecendo que este argumento se pode aplicar, por exemplo, ao oxigénio e que mesmo este em doses imoderadas pode ser altamente nefasto à vida. Por último, de uma forma ligeira a Professora MA Araújo apelidou depreciativamente de mainstream toda a comunidade científica que, desde o século XIX estuda as propriedades dos gases constituintes da atmosfera, e a influência humana no clima terrestre. Permitindo-se, deste modo, a paralelismos longínquos com a censura e perseguição a que, por exemplo, Galileu foi sujeito; e implicitamente oferecendo-se o honroso epíteto de saliente inter-pares ao defender também uma posição diferente, e contrária aos fundamentos científicos actuais. Ora este arrojo, salutar quando fundeado em verdadeira metodologia científica, só pode ser sustentado por um trabalho de eleição na área em discussão. Porém, esta discordância com o apelidado mainstream é suportada por uma montanha de nada; infelizmente, não me foi possível ler, porque não existe, qualquer trabalho científico que remotamente trate destes assuntos por parte desta académica. A Professora auto-intitulou-se ainda como uma acérrima defensora da pluralidade, apesar de não se coibir de referir que os que pensam de modo diferente não seriam bem-vindos na supracitada mesa redonda de propaganda negacionista. (Não me interessa ter cá alguém a dizer que a causa das alterações climáticas é o CO2: isso não é ciência é política.; in DN, 2018-09-05).

Apesar desta controvérsia não possuir um fundamento científico, e estar inquinada por interesses políticos e económicos, sinto-me obrigado a fazer alguns esclarecimentos, que podem ser úteis para a compreensão da ciência de base que afiança o nosso conhecimento sobre alterações climáticas. O progresso científico foi em grande medida baseado na intuição, génio e observação da natureza, simultânea- ou posteriormente escrutinado pelo método científico. Este obriga a uma demonstração teórica ou experimental das teorias postuladas ou resultados obtidos, e muito importante, à sua capacidade de reproductibilidade. Ao longo dos tempos foram avançadas teses e teorias para explicar determinados fenómenos que à época foram consideradas inaceitáveis pelo mainstream (que deve ser entendido como sociedade e algumas vezes uma elite científica) e que ulteriormente foram aceites como da mais fina e rigorosa ciência constituindo assim o actual mainstream científico; exemplos sobejamente conhecidos são os casos de Galileu, Newton ou Einstein.

A origem antropogénica das alterações climáticas é mais um exemplo disso mesmo. As primeiras bases científicas para o aquecimento global remontam ao século XVII e XVIII com os trabalhos radiativos de Marriotte e Saussure (Fleming 1999). As posteriores descobertas de Fourier e Tyndall, no século XIX, abordam já a evidência experimental de que a temperatura da Terra pode ser aumentada devido à absorção de radiação de grande comprimento de onda por parte dos gases de estufa, entre os quais o CO2 (Fourier, 1824; Tyndall 1861). Em 1896, Arrhenius (Prémio Nobel em 1903) realizou os primeiros cálculos sobre o aquecimento global antropogénico estimando que, se o CO2 na atmosfera duplicasse a temperatura global poderia sofrer um aumento de 4ºC (nesta altura este facto era visto como um benefício, mas lá iremos noutras missivas; Arrhenius 1896). Quando em 1938, o físico Callendar publicou o primeiro artigo científico (Callendar 1938) sistematizando a clara evidência observacional, e os respectivos fundamentos científicos, de que o homem estava a alterar o clima desta Terra através das emissões de CO2, foram muito poucos (os da dita sociedade e mainstream) que o secundaram. Quase um século depois, infelizmente para todos nós, a evidência observacional de que vivemos num período de aquecimento global é inexorável. Cumulativamente, nos últimos 50 anos, os modelos físico-matemáticos mais avançados do sistema Terra foram desenvolvidos, com base em equações físicas, químicas, etc, que almejam a representação das miríades de processos que determinam o clima. Estes modelos são integrados em supercomputadores e são absolutamente taxativos na responsabilidade das emissões de CO2 de origem humana para o aquecimento global observado (IPCC 2013). Por estas razões, sim este é agora o mainstream, tal como Galileu, Newton ou Einstein, mas não o era há bem pouco tempo; foi mais uma luta de décadas contra o preconceito, as opiniões facciosas e pouco fundamentadas.

Mais recentemente, a Professora Catedrática brindou-nos com o argumento final que os cientistas que defendem o papel do CO2 para o aquecimento global o fazem para defenderem os seus salários (in Expresso, 2018-09-07) tudo isto embalado numa afirmação gran-eloquente A mim pagam-me para divulgar as minhas ideias, para ser uma pessoa influente do ponto de vista científico e para fazer parte da construção de uma mentalidade um bocadinho mais científica (in Público, 2018-09-07). Sem qualquer animosidade relativamente à Professora MA Araújo, permitam-me referir que esta afirmação é de risco elevado; para constatar isso mesmo, basta consultar o curriculum vitae da Professora Catedrática, que revela um conjunto de trabalhos de relevância científica internacional nulos nesta área, e contradiz cabalmente a afirmação anterior.