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Antigoni Kyrousi

Uma tragédia grega moderna. Por Antigoni Kyrousi

“The things I’ve seen today don’t have a name, some memories a word cannot explain… The things I’ve seen today, I’d seen before, likely in that way they’ll be back once more.” Madeleine Peyroux

A tragédia em Mati constitui um caso de estudo, o qual revela muitas das patologias do Estado Grego: falta de prevenção, de organização, de sistemas de emergência funcionais e a ausência de assunção de responsabilidade por parte dos altos cargos da administração pública.

Nenhum dos sistemas de prevenção e emergência, de alta tecnologia que foram comprados e estavam ao dispor do Estado foi usado. As populações não foram devidamente avisadas do perigo imediato. Nem pela polícia, nem pelos bombeiros e nem por SMS à população na zona afetada, como era previsto. Nem houve tentativa de evacuação. Quem estava a dormir a sesta, nunca mais acordou e quem estava acordado, entrou em pânico. É aí que o Estado tem que exercer o seu papel de apoio ao povo. Mas nesta tragédia o Estado grego nunca apareceu.

Os bombeiros não conseguiam ajudar porque as condições eram adversas: vento extremamente forte que chegou a ultrapassar os 100 quilómteros por hora e não deixava os helicópteros largar água, proximidade do lugar do início do fogo com a cidade de Mati (cerca de cinco quilómetros), a construção da própria cidade no meio de um bosque de pinheiros e as pequenas ruas labirínticas da cidade que os carros dos bombeiros dificilmente conseguiam atravessar.

A polícia tentou, mas segundo testemunhas, o seu rádio estava com cortes, não havia uma ordem geral e eram dadas indicações rodoviárias contraditórias. Em Mati, houve quem morresse dentro do próprio carro ao tentar fugir. Provavelmente alguém lhes indicou que estavam mais seguras ali, ao pé do mar, ou foi-lhes dito que por ali conseguiriam escapar do fogo.

Pânico e caos

Há pessoas que tentaram fugir no momento errado, quando os carros da polícia decidiram cortar a circulação na entrada principal da cidade porque o fogo a atravessava uns quilómetros mais em frente mas sem dar vias de saída alternativas às pessoas que tentavam fugir daquele inferno. As imagens dos carros queimados, um atrás do outro no meio da cidade de Mati, são provas claras do pânico e da falta de organização que dominou aqueles momentos.

As pessoas que conseguiram arranjar refúgio nas pequenas praias da região, tiveram que entrar no mar e nadar para a parte mais profunda, visto que o fumo, as árvores e pedaços de casas em fogo caíam sobre eles. E isto tudo a acontecer numa escuridão total, sem eletricidade. Muita gente lutou durante horas no mar contra ondas muito altas, devido aos ventos fortes. É por isso que para além de vítimas queimadas, houve também vítimas afogadas. E é também por isso que ainda há pessoas desaparecidas.

O exército enviou o corpo de fuzileiros mas as águas eram pouco profundas, impedindo a chegada às praias. Os barcos da marinha também não conseguiram prestar o auxílio necessário pela mesma razão. Foram os barcos dos pescadores e de pessoas que estavam ali perto que salvaram quem estava no mar. Houve também pessoas resgatadas a mais de três milhas da costa por um navio. Por uma coincidência inesperada, alguém saiu para fumar no convés e ouviu os gritos das pessoas no mar a pedir ajuda.

Mas uma manifestação do caos que caracteriza o funcionamento das instituições estatais é o facto de ainda não se saber qual é o número oficial de desaparecidos. Há quem diga que são cerca de 20, mas podem ser muitos mais, segundo outros.

A culpa é do vento?

A justificação das autoridades responsáveis é que a lista está a ser atualizada continuamente e que ainda existem várias listas feitas por diversos organismos para interpretar. Mas quatro dias após a tragédia, uma possível explicação para não se saber ainda o número exato é não querer aumentar o número das 87 vítimas, esperando porventura o Governo que quando acabe essa contagem trágica, os media internacionais já não estarão interessados no assunto.

Todos os partidos gregos da oposição respeitaram os três dias de luto nacional que o Governo declarou. Declarações dos três ministros responsáveis (da Proteção Civil, do Exército e da Marinha) feitas aos meios de comunicação social, bem como às pessoas afetadas atribuíram a culpa ao vento excessivamente forte, produto das alterações climáticas, ao caos urbanístico causado pela construção ilegal de algumas das casas em Mati e aos indícios que o fogo pode ter sido provocado por atos criminosos. Mas quem vai pedir desculpa às vítimas, se nenhum responsável tem culpa? O vento?

Durante as quase duas horas da conferência de imprensa dada pelos altos responsáveis na quinta-feira à noite, foi repetido que tudo foi feito da melhor maneira possível e que se tal acontecesse de novo, fariam tudo de maneira igual. Acrescentaram que foram evitados danos maiores, porque tudo acabou em poucas horas e que não tiveram tempo nem para avisar ou evacuar a população de Mati.

O ministro da Proteção civil disse que ofereceu a sua demissão ao primeiro-ministro não porque tenha cometido erros, antes por razões de consciência, mas que esta não tinha sido aceite. Após a conferência, o público ficou sem respostas às perguntas e ainda com mais dúvidas. Porque é que, por volta das 23h00 de segunda-feira o ministro da Protecção Civil informou ante as câmaras televisivas ao primeiro-ministro recém-aterrado da viagem à Bósnia Herzegovina que tudo estava sob controlo, mas nunca falou de vítimas? E se tudo isto tivesse acontecido num domingo, quando metade da população de Atenas vai mergulhar no mar deste lado da Ática?

Tragédia sem ponto final

A única esperança surgiu da onda de solidariedade que o povo mostrou desde o primeiro momento. Milhares de pessoas doaram sangue, ofereceram comida, roupas e as próprias casas para acolher os que ficaram sem ela. Um país que funciona unicamente à base do voluntariado, torna mais evidente a incapacidade do Governo e dos mecanismos de resposta do Estado.

A admissão oficial do Governo é que somos todos indefesos perante os incêndios. Temos que assumir que vivemos desprotegidos, em casas para as quais pagamos dos impostos mais altos dentro na União Europeia (quatro vezes mais que a média europeia) e em cidades expostas a fenómenos climáticos cada vez mais extremos.

Os governantes não querem assumir a culpa, mas também não podem atirá-la para as vítimas desta tragédia. Elas já pagaram com a vida e esse é o preço mais alto.

O povo grego já passou pela parte da catástrofe desta tragédia moderna. Agora atravessa a fase da arrogância (híbris) por parte dos responsáveis. Falta a punição ou a assunção da culpa. Sem ela, não vai nunca chegar à catarse que constitui por regra o ponto final de todas as tragédias.