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Expresso

Portugal não é a Grécia? A doença que vive, a cura que mata

Portugal e Grécia são cruzados pelo mesmo paralelo norte. Hoje, são cruzados também pelo mesmo paralelo morte. A tragédia dos incêndios hoje lá como há um ano cá - como no próximo ano onde? É hora de chorar pelos gregos e de lembrar os portugueses, mas nesta hora já pensamos na próxima, em que abriremos os olhos para ver e as bocas para falar.

Uma tragédia é uma tragédia e pede urgência, uma morte é uma morte e invoca luto. Há uma linha de respeito e dignidade humana a desenhar por cada uma delas - e cada uma isoladamente. Mas será inevitável estabelecer o paralelo. Aliás, já o foi. Mal soubemos ao raiar da manhã das labaredas mortais num outro litoral lembrámo-nos do nosso drama interior.

Talvez isso nos condoa, talvez nos convoque, mas abrimos as notícias, lemos os factos, vemos as imagens na Grécia e ele está lá, está lá o paralelo.

Mais cedo do que mais tarde levaremos este paralelo a outras análises, que desta vez nos farão pensar não só num país, não só em dois países, mas numa União Europeia, mas num planeta global. Lá chegaremos, depois de apagarem as chamas, de contarem os mortos, de vermos gente cair da ravina do desespero para o choro da tristeza, de vermos eclodir a revolta íntima de um outro povo, o grego, mas não do povo que seria o nosso, o europeu, se fôssemos uma união de facto fundada e não uma União em factos afundada, as crises das dívidas soberanas, as crises com refugiados, as crises com o Brexit, Rússia, Trump, a NATO, o populismo fulgente, o nacionalismo repugnante...

Quando lá chegarmos, a esse paralelo, encontraremos sobre a linha imaginária que vemos no mapa três traços reais que muitos não querem confundíveis: dois países com Estados fracos, pequena corrupção e incompetência administrativa; dois países sob austeridade duradoura; um planeta em aquecimento.

O aquecimento global não é um mito ambientalista nem uma invenção de cientistas radicais, é um acontecimento que estamos a viver, numa lenta autodestruição tenuamente combatida em tratados e acordos como os de Quioto e os de Paris, sucessivamente boicotados por interesses políticos e económicos, se é que eles são dissociáveis. Só a pressão social levará as forças políticas céticas ou cínicas a legislar e a impor. Mesmo isso será pouco. Sobretudo se a própria sociedade se alhear, da política e de si própria. Mas cedo as reportagens e os estudos académicos juntarão as imagens de Portugal 2017 e da Grécia 2018 para mostrar que “isto está a acontecer”. Está a acontecer até na Europa, este continente rico e “civilizado”.

Está a acontecer no sul quente e seco. Está a acontecer onde os Estados são falhos, governados à vista desarmada e tomados por administrações públicas lideradas por incompetentes promovidos por cunhas e cartões partidários, incluindo nas suas proteções civis. Portugal e Grécia são casos diferentes mas ambos estão há anos tomados por governos com total incapacidade estratégica de longo prazo (o que nos incêndios se vê na floresta e no ordenamento do território), por comportamentos sociais desvinculados e por uma sujeição orçamental a que chamamos austeridade: impostos muito elevados para pagar despesa pública e corte de meios e serviços públicos por exaustão (o que nos incêndios se vê na falta de recursos de combate).

Esta combinação de incompetência na estratégia e na ação, de falta de planeamento e de falta de meios, leva perfidamente à resignação inaceitável: a da fatalidade. Como se morrêssemos nos incêndios porque a natureza está assim e vida é isto.

Finalmente, o terceiro traço, o de que Portugal e Grécia são países da União Europeia resgatados por uma austeridade então necessária mas disparatada na profundidade com que se espetou a faca na ferida, pelo experimentalismo económico e pela raiva vingativa de políticos e países do Norte. Quiseram fazer uma purga. Criaram um purgatório. O que Portugal passou é uma fracção do que desabou sobre a Grécia, tanto que somos “um sucesso” na lapela e eles saltam em três resgates. Mas se a União Europeia pensar que a falta de meios de um Estado para funções tão irredutíveis como as de proteger o seu povo são vírgulas orçamentais, então não entenderá nunca a sua própria decomposição nem poderá combatê-la. Nós somos portugueses, eles são gregos, outros são alemães, finlandeses, italianos, franceses, mas não somos europeus exceto quando falamos de dinheiro e do que nos aparta.

“Portugal não é a Grécia”, repetíamos desesperados em 2010 e 2011, com medo “dos mercados”. É verdade, não éramos. Mas hoje, neste preciso dia, somos. Somos países que ardem, onde se morre nas chamas em casa e a fugir delas nos carros. Somos países a fingir estratégias nacionais e irrelevantes na Europa, que nos quer para postal. Lá chegaremos, a esse debate, sem procurar culpas nem encontrar desculpas, esperando que nessa hora se entenda que isto não são casos nem acasos. É um planeta mais quente, é uma União Europeia mais fria, são Estados fracos e enfraquecidos pelos seus próprios sistemas políticos, administrativos e orçamentais. É a morte a sul, onde o sol faz mais brasa do que o bronze da pele dos turistas. Lá chegaremos, às análises frias mais ou menos inconsequentes, depois do combate de hoje, do luto de amanhã, sim, lá chegaremos depois disto a que chegámos. As mortes de hoje têm paralelo.