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Expresso

Nunca nos falhaste, João

Alberto Frias

“Até ao último dia da tua vida, talvez para a morte perceber que cometia um grave erro em levar-te, soubeste merecer o teu lugar neste mundo”: Daniel Oliveira escreve sobre João Semedo, que morreu esta terça-feira

Estávamos à porta do restaurante depois de um dia em que milhares de pessoas fizeram fila para se despedirem do Miguel Portas. Recordámos, num grupo de amigos, as suas intermináveis histórias. Já não me lembro se foste tu ou eu quem disse que se a política tende a mostrar o pior de cada um, quem passa por ela com decência tem mesmo de ser especial.

Anos mais tarde, subíamos juntos a rua, no meio da multidão que inundou a aldeia de Podentes, para nos despedirmos do Paulo Varela Gomes. Tu falavas com entusiasmo da luta começada pelo direito a morrer com dignidade. Não do teu direito, mas do nosso. E da energia que a vida te dava para mais esta batalha. E ouvia, estarrecido, por não teres sido tomado pelo desânimo. A coragem que suspeito que me irá faltar comove-me até às entranhas. Numa entrevista recente, disseste que nunca desejaste morrer mas sempre achaste que a morte te apanharia feliz. O Paulo escreveu que morrer é mais difícil do que parece. Por isso não sei não como a morte te apanhou. Mas sei que não te apanhou desistente.

Entre uma e outra despedida foste coordenador do Bloco, estivemos em lados diferentes dentro do partido, eu saí e a doença obrigou-te a abandonar a primeira linha do combate partidário. Mesmo assim, depois deste nosso encontro ainda tentaste cumprir a missão de ser o candidato do BE pelo Porto, porque nunca abandonaste o disciplinado sentido de dever para com o partido que décadas de militância e clandestinidade comunista te deram. Sem a camaradagem partidária do passado, os nossos caminhos cruzaram-se várias vezes nas lutas pelas quais deste a pouca voz que te sobrava e a enorme energia que mantinhas. Não foi por engano, falta de determinação ou por seres inofensivo que conquistaste sempre o respeito de todos. Foi por saberes juntar muitos às nossas causas. Por saberes que a luta não é cega e tem ouvidos bem grandes. Não segue em linha reta para chegar ao seu destino.

Até ao último dia da tua vida, talvez para a morte perceber que cometia um grave erro em levar-te, soubeste merecer o teu lugar neste mundo. Mesmo doente, mesmo envolvido na tua batalha pessoal, estiveste, só no último ano, na linha da frente por uma nova Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde (com António Arnaut) e no combate por uma morte digna. Estiveste no centro do centro dos nossos direitos. Nunca nos falhaste, João. Respiraste a luta até ao teu último suspiro. Porque a luta nunca acaba, a tua durou sempre. Sempre decente, sempre combatente. Outros, antes de serem levados da vida com a felicidade que conseguirem ter, pegarão nela a partir daqui.