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Opinião

Miguel Relvas

Reafirmar o Centro-Direita

O centro direita existe como proposta e posicionamento ideológico. Existe independentemente de CDS e PSD. Ou os partidos do centro direita conseguem reafirmar os seus valores ou arriscam que surja uma força regeneradora que poderá tanto ter origem em algo imprevisível e extremista como em propostas de sucesso já testadas e, por exemplo, visível a partir do Município do Porto

Houve um tempo em que os partidos políticos conseguiam marcar a marcha do tempo... Até aos inícios de 2000 facilmente encontrávamos no sistema, apresentação de propostas, construção de alternativas e, sobretudo, capacidade de alinhamento com as preocupações da sociedade em geral. Esse tempo tem vindo a desvanecer-se como que desfeito ou esmagado por uma transformação inexorável nas dinâmicas de um mundo em aceleração constante, desde logo visível nos modelos tecnológicos que pressionam e impactam os sociais, os políticos e os económicos.

Centramo-nos cada vez mais nas consequências, lamentamo-las e peroramos sobre elas sem cuidarmos de, em tempo, intervirmos nas causas e, com sentido de equilíbrio, tentarmos ainda ter alguma mão na direcção da máquina.

Apliquemos o principio da subsidiariedade e saibamos nós tomar a decisão onde ela deve ser tomada para que a mesma, multiplicada, possa ter efeitos concretos e progressivos. Olhemos os sinais à nossa volta e tomemos precaução antes que não tenhamos solução. O paradigma alterou-se: onde pensávamos encontrar globalização estamos a descobrir proteccionismo, onde construímos solidariedade estamos a lavrar egoísmos, onde solidificámos democracias estamos a descobrir extremismos.

Sou militantemente do centro direita. Encontro-me na defesa da iniciativa privada e no que isso significa de total transformação das dinâmicas vigentes no relacionamento Estado-cidadão, projecto a minha consciência social na concepção de um modelo participado, partilhado e sustentado por outros agentes que não e apenas o sector público e revejo-me num espaço de actuação que vai cada vez mais para além do desenho geográfico de uma União Europeia que se teima em fechar sobre si própria.

À nossa dimensão vejo os partidos do meu espaço político a viverem uma secura preocupante, nas ideias e propostas politicas, na capacidade de construírem uma alternativa, nas dinâmicas capazes de atraírem novos agentes e, sobretudo, na total incapacidade de perceberem o que os rodeia e o que isso deveria determinar a adequação do seu posicionamento actual. Um posicionamento e uma mensagem arcaica, gasta, sem força de atração e de tração.

O PSD tem vindo em progressivo decréscimo político, aproximando-se de uma irrelevância que só não está mais patente por um adquirido histórico que a cada momento do presente e do futuro vai contando menos.

A liderança social democrata não tem agenda para o país. A partir do minuto em que se predispôs a aliar-se ao PS, perdeu de forma imediata e inexorável o seu espaço de actuação, anulou a margem de se constituir como alternativa. O PSD morreu pela boca. Não vejo que inversão possível, quando, optando pela moeda má, matou a boa.

Prefere o partido gerir a sua própria sobrevivência, agarrado que está a uma formatação estrutural e conceptual completamente desadequada ao que se pretende deva ser hoje o posicionamento político de uma força partidária de matriz social democrata. O PSD perdeu ideal e afundou-se num tacticismo autodestrutivo, desde logo quando permite anular os seus essenciais, vendendo-se como instrumento coadjuvante de um PS a quem cantou hinos de vitória antecipada. Alimenta uma lógica do medo em relação aos partidos mais à esquerda mas não consegue fazer a reafirmação dos valores de centro-direita.

Se este não é um dos maiores erros políticos da história democrática portuguesa, anda certamente lá perto.

Não me interessam as sondagens nem os índices de popularidade a que cada momento as máquinas e nomenclaturas partidárias se agarram. A política só é momento para os populistas. Não sendo esta a identidade do meu partido, não posso aceitar esta taticismo cínico e potencialmente destrutivo de uma proposta política que tanto fez sentido em 1974, como o faz em 2018.

Idem com o CDS. Ainda mais estranho se considerarmos o espaço que o actual PSD lhe abre e a falta de capacidade para o ocupar. Não há intensidade política para os lados do Largo do Caldas. Há, isso sim, uma lógica de serviços mínimos, também ela hipócrita nos pressupostos e altamente preocupante na falta de visão e até nas motivações.

A gravidade deste posicionamento de PSD e CDS não é partidário. A gravidade deste posicionamento é democrático.

Com este quadro ao centro direita, bem pode o PS divertir-se com malabarismos teóricos sobre uma eventual política de alianças, tratando os seus pares como se de instrumentos ao serviço dos seus interesses se tratassem. Mas é precisamente isto que acontece a quem perde identidade. Passa a ser objecto moldável às vontades dos outros. Sejam esses tais outros, um PS gelidamente calculista na dinâmica partidária e oportunisticamente pragmático na acção governativa, ou mesmo uma conjugação de factores propícios a que apareçam “soluções” popularmente mais atractivas, desde logo porque alinhadas com um pulsar social que quer PSD, quer CDS não conseguem captar e muito menos fazer daí a decorrência para um programa político.

Os partidos do centro direita optaram por se marcar mutuamente sem cuidarem de olhar para fora e interpretar os movimentos da sociedade. Marcam-se uns aos ouros, virados sobre si próprios e os interesses de manutenção de uma espaço que consideram seu por direito.

Sejamos claros. O centro direita existe como proposta e posicionamento ideológico. Existe independentemente de CDS e PSD. Ou melhor, se estes não sabem interpretar os essenciais deste espaço, outros o saberão. E o ponto é se esse espaço é passível de ser dinamizado por aqueles que sempre o ocuparam, desde logo, numa perspectiva de coragem renovadora, ou se, não a tendo, outros o farão na base de instrumentos mais eficazes porque populisticamente mais atractivos.

Não quero, não aceito que por inação do meu partido o espaço que ocupa fique à mercê de propostas politicas cuja motivação reside tão só e apenas na satisfação das momentâneas insatisfações das populações.

A verdade é que podemos estar no limiar de termos duas escolhas para uma solução. Ou os partidos do centro direita conseguem reafirmar os seus valores, tão actuais hoje como na sua origem fazendo uma renovação por dentro, ou arriscam a que ela seja feita por fora, a partir de uma força regeneradora nos protagonistas e nas propostas que poderá tanto ter origem em algo imprevisível e extremista como em propostas de sucesso já testado e, por exemplo, visível a partir do Município do Porto.

Actuei na política na base de um pressuposto para mim essencial, os partidos não se modelam às vontades do momento. Os partidos tem que ter a capacidade de compreender as tendências e, na base dos seus princípios constitutivos, adaptarem as suas propostas estratégicas atraindo as populações e orientando as dinâmicas sociais.

O PS joga com a geringonça como bem lhe apetece, permitindo-se ocupar um espaço tanto mais amplo quanto os vazios deixados à sua direita ou à sua esquerda. E custa-me ver como a geringonça foi capaz de criar a percepção de uma nova proposta política, ainda que falsa, mas nem por isso menos eficaz.

É inaceitável que os partidos do arco do centro direita respondam a isto com um tacitismo auto-mutilador e de consequências cuja gravidade é já bem visível.

Sejamos capazes de perceber que o rei vai nu e actuemos em conformidade sob pena de já nenhuma roupa lhe servir.