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Expresso

Pedro Cordeiro Editor da Secção Internacional

Não é apenas mais um tijolo no muro*

10 de Janeiro de 2019

Bom dia! Donald Trump visita hoje a fronteira sul dos Estados Unidos da América, local onde prometeu construir um muro ou, melhor dito, completar e transformar em muro fortificado uma série de estruturas que começaram a ser erguidas há 25 anos (durante o mandato de Bill Clinton) para evitar a entrada de migrantes ilegais vindos do México. Sem que o atual Presidente tenha cumprido o seu sonho, já há 930 quilómetros de barreiras nos 3145 quilómetros dessa linha fronteiriça. Diz a Fox News que Trump pode declarar o estado de emergência para conseguir verbas para o que falta. The New York Times analisa essa hipótese.

É que o Presidente quer mesmo o “seu” muro. Tendo a oposição democrata conquistado uma maioria na Câmara dos Representantes, em novembro, e recusando-se esta a aprovar propostas orçamentais que contemplem verbas para o projeto, Trump não hesitou em encerrar parcialmente o Estado, naquilo que se conhece como shutdown (paralisação dos serviços públicos por falta de cabimentação). E ameaçou mesmo, há dias, prolongar essa situação por “meses ou anos” se não lhe fizerem a vontade.

A impaciência é notória. Ontem Trump abandonou uma reunião com os líderes do Partido Democrata na Câmara dos Representantes e no Senado, Nancy Pelosi (speaker da Câmara) e Chuck Schumer, tendo-lhes dito “adeus” e considerado (no Twitter, where else?) o encontro uma “perda de tempo”. Schumer, citado pela BBC, descreveu assim o ocorrido: “Ele [Trump] perguntou à speaker Pelosi: ‘Vão aceitar o meu muro?’. Ela disse que não. E ele simplesmente levantou-se e disse: ‘Então não temos nada que discutir’ e saiu, sem mais. Assistimos, uma vez mais, a uma birra por ele não ter conseguido o que queria”.

O shutdown dura desde 21 de dezembro e, esta semana, implicará que 800 mil funcionários públicos não recebam salário. “O Presidente parece insensível a isso. Talvez julgue que eles podem pedir dinheiro ao pai, mas não podem”, criticou Pelosi. “The Washington Post” pede responsabilidades aos senadores republicanos, que podem resolver o bloqueio, mas o “Huff Post explica que não se deve contar com eles, embora haja senadores republicanos críticos de Trump e uma clara maioria a favor de restaurar o funcionamento do Estado. “Se contrariarmos o Presidente, será o fim da sua presidência e do nosso partido”, explicava o senador Lindsey Graham à Fox News.

“Construir o muro e fazer o México pagá-lo” foi mantra repetido por Trump ao longo da campanha que o levou à Casa Branca, em 2016. O anterior e o presente chefe de Estado mexicanos rejeitaram desde cedo essa hipótese, o que há semanas levou o governante norte-americano a afirmar que o novo acordo comercial entre os Estados Unidos, o Canadá e o México (conhecido pela sigla inglesa UMSCA, que substituiu o anterior NAFTA) era tão benéfico para o seu país que já era como se o México tivesse pago o muro.

No ano passado o milionário também sugeriu que o muro pudesse ser coberto de painéis solares, de forma a pagar-se a si próprio. Também alegou que construir o muro pouparia dinheiro aos contribuintes norte-americanos, por reduzir despesas de vigilância e gastos sociais com imigrantes clandestinos. O que o Presidente não contempla é desistir da obra. Ninguém pode, em boa verdade, sentir-se surpreendido por Trump estar disposto a paralisar a administração pública: ele fez essa ameaça desde agosto de 2017.

Coisa diferente seria justificar a decisão. Avaliando um discurso proferido por Trump na terça-feira à noite, o primeiro do seu mandato emitido da Sala Oval da Casa Branca, “The New Yorker” considera que o chefe de Estado “debitou uma litania de tópicos, uns enganadores, outros contraditórios, alguns vácuos, outros por diversão. Não apresentou um único argumento para a decisão, no mês passado, de encerrar o Estado por causa do dinheiro para o muro fronteiriço. Schumer e Pelosi retorquiram ao Presidente que reconhecem a necessidade de reforçar a segurança na linha divisória com o México, mas acusando-o de “desinformação”. A revista desmente quer o Presidente quer os dirigentes da oposição, escrevendo que o que há na fronteira não é um problema de segurança, mas um drama humano protagonizado por pessoas que têm direito a pedir asilo aos Estados Unidos.

Trump chegou a garantir que os seus antecessores lhe tinham dito em privado que era bom que construísse o muro. Os quatro ex-Presidentes vivos (James Carter, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama) negaram que tal fosse verdade. A reação mais natural parece ser a do jornal “The Washington Post”, que exige o “fim desta telenovela” e soluções para a fronteira e para a angústia dos Dreamers, isto é, dos imigrantes levados para os Estados Unidos na infância, pelos seus pais, que gozavam de uma proteção contra a deportação, adotada por Obama, que Trump revogou. Conclusão da Bloomberg: Trump está a perder esta batalha.

Enquanto se espera a visita à fronteira, esta tarde, convirá não esquecer que há outros assuntos que toda esta saga atira para segundo plano, como a investigação às ligações russas da campanha presidencial de Trump. Ontem o “USA Today” informava que houve mais de 100 contactos entre a equipa do então candidato e o regime russo, ao passo que a ABC News avançava que Paul Manafort, que foi diretor de campanha de Trump, partilhara dados de estudos de opinião com agentes russos. O ex-homem de confiança do Presidente foi condenado por fraude fiscal, num processo, e aceitou, noutro, declarar-se culpado de conspiração para defraudar o país e manipulação de testemunhas. Deverá conhecer a sentença nos próximos meses.

Cá dentro

AUTOFAGIA NO PSD Agrava-se a luta interna no maior partido da oposição. Luís Montenegro pondera avançar para a liderança que é hoje de Rui Rio, cumprindo ameaças que os camaradas Filipe Santos Costa e Vítor Matos ontem relataram aqui no Expresso, mas fica-se com a sensação que já pondera há muito tempo, havendo mesmo quem questione porque não avançou quando Rio foi eleito, há menos de um ano. O antigo líder parlamentar trocou argumentos, nas últimas horas, com Manuela Ferreira Leite, antiga líder social-democrata que foi pouco abonatória em relação a um encontro das direitas que começa hoje e que a Ângela Silva antecipam no Expresso Diário. A iniciativa chama-se Movimento Europa e Liberdade e não quer ser vista como congresso dos críticos de Rio (também lá estão Assunção Cristas e Santana Lopes e até dois ex-ministros do PS), mas essa leitura tem sido incontornável. Os conspiradores aguardam, escreve o Observador.

MARCELO E AS PROPINAS A Ângela dá conta, ainda, das mudanças de posição do Presidente da República sobre as propinas universitárias. Marcelo Rebelo de Sousa era a favor, agora é contra, e alega ter aprendido com a experiência dos últimos 20 anos.

QUIETA, EU? Ana Gomes está de saída da bancada socialista no Parlamento Europeu, onde tampouco ficará Francisco Assis. Ao Diário de Notícias a diplomata promete continuar a sua luta contra a corrupção. Entretanto, o PS já terá escolhido cabeça-de-lista para Bruxelas, mas António Costa só o revelará a 16 de fevereiro, após sete convenções em que planeia participar, avança o Público.

SÃO JOÃO SEM ADMINISTRAÇÃO Ontem demitiu-se a administração do Hospital de São João, no Porto. Com o mandato terminado em dezembro último e sofrendo com as cativações orçamentais, os dirigentes saem com críticas à tutela. O hospital deu que falar, no ano passado, quando foram divulgadas imagens de crianças a receber tratamento oncológico em contentores, situação vigente desde 2011.

TVI ABSOLVIDA A Entidade Reguladora para a Comunicação Social ilibou o canal de Queluz de Baixo de qualquer crime por ter convidado o skinhead Mário Machado para o programa de Manuel Luís Goucha. Sobre este assunto revejo-me no texto de Adolfo Mesquita Nunes publicado no Negócios” e na intervenção de Daniel Oliveira na SIC. Sou dos que pensam que qualquer televisão pode convidar quem quiser, desde que seja honesta com o seu público sobre quem é o entrevistado. E também acho, for the matter, que um extremista é um extremista é um extremista, à esquerda ou à direita.

PARA QUE NÃO DIGAM QUE NÃO FALEI DE BOLA Na Tribuna, leiam esta reflexão do antigo árbitro Duarte Gomes sobre o futuro do futebol português.

Lá fora

NO, YOU MAY NOT Continua o infindável debate sobre o Brexit, cujos últimos desenvolvimentos yours truly tentou explicar ontem no Expresso Diário. Em suma, o Parlamento retomou a discussão sobre o acordo que Theresa May obteve com os 27 parceiros europeus para sair da UE. A primeira-ministra adiou por quatro semanas uma votação inicialmente marcada para 11 de dezembro, agora marcada para 15 de janeiro. O desfecho então previsto mantém-se: chumbo. Hoje o debate prossegue na Câmara dos Comuns e está previsto, fora de Westminster, um discurso importante do líder da oposição, Jeremy Corbyn. “The Guardian” antevê que volte a exigir eleições antecipadas, que julga poder vencer, mas ainda não será desta que apoiará um novo referendo. Ao contrário da maioria dos militantes do seu Partido Trabalhista, Corbyn não morre de amores pela UE.

QUEM ESTÁ AÍ? Um telescópio no Canadá detetou sinais de rádio vindos do espaço remoto, a uma distância de 1500 milhões de anos-luz, conta a BBC. É apenas a segunda vez na História que tal sucede.

MADURO PARA O PODER O Presidente da Venezuela toma posse hoje para o segundo mandato, em resultado de eleições realizadas em maio e que o mundo não reconheceu. Nicolás Maduro sucedeu a Hugo Chávez em 2013 e mergulhou o país numa crise sem precedentes (mas tudo pode piorar, explica a camarada Helena Bento no Expresso Diário). Portugal não se fará representar na cerimónia (longe vão os tempos da amizade protagonizada por José Sócrates ou Paulo Portas), onde tampouco estarão antigos aliados políticos de Caracas, como o Equador, ou países com quem a Venezuela tem laços históricos, como Espanha.

AND THE BAFTA GOES TO... Saiu ontem a lista de nomeações para os prémios cinematográficos britânicos, os BAFTA, de que se destaca, segundo a Sky News, o filme “The Favourite”, em que a atriz Olivia Colman (bem-sucedida nos Globos de Ouro, há dias) faz de rainha Ana. A última monarca da dinastia Stuart é pouco conhecida entre nós, mas foi durante o seu reinado que a Inglaterra e a Escócia se fundiram no Reino Unido. Colman representará outra rainha (a atual ocupante do trono, Isabel II), ao substitur Claire Foy na mui aguardada terceira temporada da série “The Crown”. Outros filmes bem posicionados para estes galardões, que serão distribuídos a 10 de fevereiro, duas semanas antes dos óscares, são “Bohemian Rhapsody, A Star Is Born, BlacKkKlansman e Green Book”.

ANDALUZIA À DIREITA Na sequência das eleições regionais de dezembro, a Andaluzia tem novo governo regional, o primeiro de sempre liderado pela direita. Partido Popular e Cidadãos aliam-se num executivo viabilizado pelo Vox, força política de extrema-direita cuja ascensão ditou o fim de 36 anos de poder socialista no sul de Espanha. El País conta o que as negociações implicaram.

ATO II Fala-se há dias de uma hipotética nova cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un. O líder da Coreia do Norte está entusiasmado, noticia a CBS. E quer resultados que agradem ao resto do mundo.

Manchetes de hoje

Jornal de Notícias Lisboa e Porto com mil milhões para novas linhas de metro

Público Ameaça de recessão na Alemanha aumenta riscos na zona euro

i Obras durante três anos e meio para dar nova vida ao metro de Lisboa

Correio da Manhã Golpe de Lima custa 50 milhões aos contribuintes

Diário de Notícias (digital) Concorrência de jogos “raspa” crescimento dos casinos

Visão 10 mandamentos para comer melhor

Sábado A herança de 17 milhões [de Mário Soares]

Negócios Exportações para Itália dispararam em 2018

A Bola Vieira vai falar com Mourinho

Record Plano Varandas [sobre o Sporting e o mercado de inverno]

O Jogo Militão blindado [no Porto] por 75 milhões de euros

O que vou ver

A exposição de Joaquín Sorolla no Museu Nacional de Arte Antiga, cujo diretor cessante, António Filipe Pimentel, merece aplauso pelo trabalho que fez nos últimos anos. Sou dileto de Sorolla, pintor espanhol da viragem do XIX para o XX, exímio no tratamento da luz e da água. Vão às Janelas Verdes até 31 de março (se tiverem crianças levem-nas, as minhas adoram a obra de Sorolla). Se gostarem, planeiem uma visita ao Museu Sorolla de Madrid, na casa onde o artista viveu.

O que vou ler

Um álbum qualquer de Tintim, querido camarada de profissão que fez ontem 90 anos. Tenho a coleção incompleta da obra de Hergé, que vou passando à prole com certo êxito.

O que vou ouvir

Mais uma vez, pelo menos, o disco “Caravanas ao Vivo”, de Chico Buarque, recentemente lançado em CD e DVD e nas plataformas digitais. Reproduz o recital de apresentação do seu último álbum, que (Buarque being Buarque) foi muito mais do que isso e constituiu um dos momentos mais felizes do meu 2018. Ainda lhe deixo como brinde a única canção entoada na passagem da digressão por Portugal que não está no álbum: Tanto Mar, inspirada no 25 de Abril e sempre comovente para quem hoje vos escreve, mas nunca como naquela coda a uma noite mágica de junho passado.

E despeço-me...

...com amizade, como diria o saudoso engenheiro Sousa Veloso. E com o lembrete de sempre: o Expresso sai ao sábado em papel, e até lá pode seguir toda a atualidade no nosso site e no Diário, bem como na SIC, Tribuna e Vida Extra. Bom resto de semana!

*com vénia aos Pink Floyd e a Roger Waters, recordando o excelente concerto de maio último em Lisboa

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