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Expresso

Elisabete Miranda Jornalista

A vida confinada a 7 metros quadrados

8 de Janeiro de 2019

Armando Vara, ex-ministro de António Guterres e antigo administrador da CGD e do BCP, está há praticamente um mês à espera de receber ordens para se apresentar ma prisão, porque, soube-se esta segunda-feira ao fim do dia, a justiça anda aos papéis. Após uma longa via-sacra, o processo já chegou ao Tribunal de Aveiro, a quem compete emitir o mandado de detenção, mas a juiza titular do processo fez agora saber que o dossie lhe foi incompletamente remetido pela Relação do Porto.

De incidente em incidente, Armando Vara, condenado em 2014 a cinco anos de prisão efetiva, por três crimes de tráfico de influência por ter recebido 25 mil euros do sucateiro Manuel Godinho para favorecer as suas empresas, vai gozando mais uns dias de liberdade.


Quando o mandado finalmente sair, a cela que o espera em Évora é mais ou menos do tamanho da que, em Tóquio, tem servido de chão a Carlos Ghosn, o carismático gestor da Nissan-Renault que esta terça-feira (era madrugada na Europa) fez a sua primeira aparição pública em quase dois meses, para se defender perante um coletivo de juízes.

Numa audiência acompanhada por mais de 1100 pessoas na sala e rodeada de um grande aparato mediático, que incluiu helicópteros de reportagem nos céus de Tóquio, Carlos Ghosn apareceu de chinelos de plástico, algemado e com uma corda à volta da cintura, para alegadamente impedir a sua fuga, contam os media internacionais.


Confinado a uma cela de 7 metros quadrados, privado de comunicação com o exterior e reduzido a três tigelas de arroz por dia, terá já emagrecido uns dez quilos. Nos escassos minutos que lhe estavam reservados, garantiu aos juizes que foi “erradamente acusado e injustamente detido” por suspeitas de apropriação de fundos e fraude fiscal, pode ler-se no Financial Times.

Entretanto, cá fora, à medida que o tempo passa, adensam-se as teorias de conspiração. Ghosn foi “tramado” por um denunciante interno, alto quadro da Nissan, que o investigou durante vários meses. Se o fez por iniciativa própria ou a pedido da administração, se o móbil foi a defesa da integridade empresarial, ou lutas de poder intestinas, como os seus defensores invocam, ainda está por aclarar.


De uma maneira ou de outra, o super-gestor que durante décadas foi glorificado um pouco por todo o mundo, falhou. Ou falhou ao deixar-se dominar pela sua ganância pessoal, ou, caso seja inocente, falhou ao não antecipar a trama que estava a ser urdida contra si.

OUTRAS NOTÍCIAS

- Após uma “negociação intensa, demorada e por vezes com alguns queixumes públicos”, como lhe contámos aqui no Expresso no fim-de-semana, esta terça-feira a ANA e o Estado assinam um acordo que permite ir avançando com obras de expansão do aeroporto de Lisboa e preparar a adaptação da base aérea do Montijo. O acordo prevê um investimento global de 1,3 mil milhões de euros, 650 milhões dos quais estão reservados ao Humberto Delgado. O Negócios, que teve acesso aos seus termos, diz que depois das obras o atual aeroporto ficará com uma área de 476 mil m2 (mais 32%), apto a receber os maiores aviões do mundo. A isto somam-se 40 balcões de check-in, 22 posições de estacionamento para aviões, mais capacidade de processamento de raio-x e a ampliação do sistema de bagagens.


A associação ambientalista zero critica o Governo por não esperar pelo estudo de impacte ambiental e diz que, deste modo, Pedro Marques está a pressionar as entidades, induzindo-as para um resultado único. O Governo responde que a única pressão que existe é a do tempo, face a um aeroporto a rebentar pelas costuras.


- Big Show Cristina. Cristina Ferreira estreou o seu programa na SIC e conseguiu arrancar um telefonema em direto a Marcelo Rebelo de Sousa e lágrimas a Luis Filipe Vieira. O presente inesperado do presidente da República gerou ciúmes e reações opostas. No Público, a investigadora Felisbela Lopes, professora de jornalismo na Universidade do Minho, diz que o gesto de Marcelo não pode ser comparado com casos passados, porque ocorre num contexto de guerra de audiências. Já António Costa Pinto contrapõe que se “estamos habituados aos Presidentes nas feiras, nas inaugurações, nos ranchos folclóricos – porque é que não havemos de estar habituados aos Presidentes nos media?” Na SIC, Manuela Moura Guedes estranha a contradição entre o discurso do Presidente da República contra o populismo e o seu exemplo quotidiano. Goste-se ou não, o estilo do Presidente “tem consequências quase irrelevantes” porque “não belisca minimamente a função presidencial”, resume Aarons de Carvalho, também no Público.


- O Governo de António Costa, que desde o início da legislatura prometeu mas ainda não adotou medidas convincentes de conciliação entre a vida familiar e a professional, apresentou há um mês um plano considerado tímido. Uma das medidas, o alargamento da licença obrigatória do pai dos atuais 15 para os 20 dias, vem contudo com uma contrapartida: um corte na licença facultativa. Como nos enquadra a Catarina Almeida Pereira no Negócios, a esmagadora maioria dos pais que tiram a obrigatória também aproveitam a facultativa, o Governo está a dar com uma mão e a tirar com a outra.


- Portugal, um paraíso fiscal para futebolistas. Os clubes portugueses andam às compras e nalguns casos, têm um poderoso aliado: o regime especial que o Governo criou para atrair todos quantos sairam do país até à crise, que não coloca restrições em termos de rendimento ou profissões abrangidas. Segundo os jornais desportivos, Pepe, que está de regresso ao Dragão é um candidato a este super-desconto fiscal. José Mourinho, se viesse para o Benfica, satisfazendo o desejo de Luis Filipe Vieira, também o seria.


- O número de vítmas roubo de dados pessoais na internet soma e segue. Esta segunda-feira ficámos a saber que a PLMJ, uma das maiores sociedades de advogados, envolvida nos mais importantes casos sob investigação, foi atacada. Algumas informações sobre os processos da EDP, BES, PT e do 'super-espião' Jorge Silva Carvalho foram tornados públicos. Baixos níveis de segurança aliados a um crescente número de informações disponíveis no espaço digital levam os especialistas a alertar que a questão já nao é se vamos ser atacados mas a de saber quando.


- “Não pagamos, não pagamos”. Duas décadas depois de os estudantes do ensino superior terem saído às ruas em protesto contra as propinas, parece gerar-se uma vaga de fundo para a sua progressiva extinção. Esta segunda-feira o ministro Manuel Heitor, considerou-a um passo decisivo para um Ensino Superior “menos elitista, massificado e mais aberto a todos" e tem a seu lado Marcelo Rebelo de Sousa. Os reitores alertam contra medidas avulsas e quem saber quem paga a conta, tal como o ex-ministro Nuno Crato.


- Na Faculdade de Ciências de Lisboa, debatem-se as vantagens e desvantagens da mudança de hora, que a Comissão Europeia quer harmonizar e à qual Portugal resiste. Enquanto parece haver bons argumentos económicos e de segurança para que Portugal mantenha o regime atual, há especialistas a sustentar que mudar de hora duas vezes por ano pode ser bastante nocivo para a saúde.


- Por falar em sono, e se lhe pagassem para dormir no emprego? É o que está a acontecer no Japão, onde segundo uma reportagem do The Guardian, um número crescente de empresas está a criar espaços para sestas no local de trabalho – e a incluir as horas de sono como uma obrigação laboral. Outras estão a impor um horário máximo de permanência no local de trabalho, tudo porque japoneses trabalham muito e dormem pouco (45 minutos abaixo da media internacional o que está a conduzir a pertubações psicologicas e a problemas sociais). Ter um emprego com boas condições, do qual se gosta, é também importante para a saúde dos filhos, sustenta um estudo da Harvard Business School.


- Do outro lado do Pacífico, nos EUA, o fecho parcial dos serviços do Governo federal entrou na terceira semana e arrisca ser o mais longo da história do país. Donald Trump aceita trocar o cimento por aço, mas não cede na construção do muro com o Mexico e deverá falar esta terça-feira à noite ao país, para tentar convencer os norte-americanos. Entretanto, o braço-de-ferro está a afetar mais de 800 mil funcionários públicos: cerca de metade está em licença sem vencimento, e a outra a trabalhar sem receber. Entre os serviços afetados estão trabalhadores que fazem segurança nos aeroportos, de parques nacionais e museus, pessoal do FBI, DEA, guarda costeira, serviços costeiros e segurança interna. No IRS (assim se chama a autoridade tributária nos Estados Unidos) muitos departamentos pararam. O New York Times faz um apanhado sobre o impacto do shutdown, ao dia 17.


- À procura de um acordo que permita sair do impasse está também Theresa May, no Reino Unido, que esta quarta-feira retoma a discussão da proposta de Brexit no Parlamento. Os cenários são estreitos (pode ler alguns aqui), e esta segunda-feira, Margot James, ministra da cultura, já veio admitir o que, segundo o The Telegraph, ainda ninguém no Governo tinha verbalizado: é provável que se tenha de invocar o artigo 50º e pedir o adiamento do processo por 2 anos. Um estudo entretanto divulgad pela EY concluiu que, até 29 de março, os serviços financeiros planeiam transferir um total de ativos na ordem dos 890 mil milhões de euros para a Europa.


- Na Índia tem início uma greve nacional de dois dias, convocada por 10 sindicatos, contra as políticas do governo de Narendra Modi. O protesto deverá contar com uma adesão massiva de trabalhadores de todos os setores de atividade.



MANCHETES

Correio da Manhã: Mil dias à espera por consulta de cardiologia

Público: Taxas no aeroporto do Montijo vão ficar 80% mas baratas

Jornal de Notícias: Desperdício de água agrava-se em metade dos concelhos do país

I: Como as TV exploram as emoções para aumentar as audiências

Diário de Notícias: Tancos: perigo de terrorismo foi falado desde a primeira reunião

Jornal de Negócios: Lisboa vai poder receber maior avião do mundo



FRASES

“Os mercado financeiros acordaram finalmente para o fato de que Donald Trump é o presidente dos EUA. (...) agora que veem o perigo, o risco de uma crise financeira e recessão global é maior”. Nouriel Roubini, Jornal de Negócios


“A leitura do acórdão de forma alguma isenta Miguel Macedo das suas responsabilidades políticas – bem pelo contrário” João Miguel Tavares, Público


“Os cidadãos esperam equidade e mobilidade socioeconómica e sociocultural e quem o esquecer perderá a batalha dos anos 20. cuidado com a excitação liberal” Paulo Rangel, Público


“O mundo do jornalismo está cheio de manipulação. O mundo sem jornalismo é apenas manipulação”. Daniel Oliveira, Expresso



O QUE ANDO A LER

O livro já fez verter muita tinta, mas só agora pelo natal, através de mão amiga, recebi e comecei a ler “a violência e a história da desigualdade – da idade da pedra ao século XXI”, de Walter Scheidel. Historiador, com investigação no domínio da história social e económica, Scheidel concluiu que ao longo de milénios de civilização o fosso entre ricos e pobres só diminuiu em quatro circunstâncias: após grandes conflitos armados, após revoluções transformadoras, com a falência dos Estados e com pandemias mortíferas.


Nuns casos o nivelamento fez-se por baixo, como terá acontecido por exemplo com o fim do Império Romano, com a erosão das suas elites. Noutros fez-se por cima, como terá acontecido por exemplo no caso da peste negra, em que a mortandade reduziu drasticamente a mão-de-obra disponível fazendo elevar os salários. E noutros casos, através de uma conjugação de fatores, como aconteceu nas duas grandes guerras mundiais do século XX, altura em que a expansão salarial e uma forte intervenção do Estado ditaram uma maior redistribuição dos recursos do topo da pirâmide para baixo. Em todos eles contudo, o preço da desigualdade foi alto, sendo indissociável de episódios de violência, destruição e grande sofrimento humano.


No passado mais recente, desde meados da década de 1980, os níveis de desigualdade voltaram a aumentar e
Scheidel não vê que haja volta a dar, já que as receitas clássicas que a sociais-democracias têm hoje em dia ao seu dispor, como os impostos progressivos, a expansão da educação e dos serviços públicos, a limitação dos monopólios não acontecem nem vão acontecer em níveis de intensidade suficientes para travar a acumulação de capital e a crescente polarização de riqueza e rendimentos.


Soluções milagrosas e respostas instantâneas não as dá. Depois de nos conduzir pelo seu bem documentado pessimismo, o livro deixa-nos com uma humorada recomendação: “Todos os que prezam uma maior igualdade económica deviam lembrar-se que, salvo raras exceções, a mesma ocorreu sempre com sofrimento. Devemos ter cuidado com o que desejamos”.


Eu termino este Expresso Curto a desejar-lhe um bom dia, e a lembrar-lhe que pode manter-se ligado ao mundo no Expresso online e no Expresso Economia, no Tribuna, no Blitz e no Vida Extra.

Às 18H00 fazemos-lhe uma súmula do que de mais importante de passou no dia no Expresso Diário.

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