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Ricardo Marques Jornalista

Tempo de reis

3 de Janeiro de 2019

Sim, hoje é esse dia. Os miúdos regressam à escola, o trânsito vai estar outra vez infernal e todas as resoluções de Ano Novo, aquelas a que o champanhe emprestou credibilidade, respiram já com dificuldade, esmagadas pela realidade.


Custa-me ser eu a escrever isto, mas a verdade é que o Natal está mesmo a acabar e a única coisa que nos separa do fim é mesmo o Dia de Reis. Para descanso dos mais ansiosos, o terceiro mago chegou ontem à lusitana terra para completar o presépio.




Depois do Rei Costa (António), que nos brindou com uma doce mensagem cheia de incenso, e do Rei Marcelo (Rebelo de Sousa), com a sua mirra tão apropriada às dores de que padecem o país e o mundo, os portugueses aguardavam as palavras do outro, o do ouro, aquele a quem chamam o mago dos magos - a revista The Banker considerou o português o melhor da Europa.




Em entrevista à RTP, o rei Centeno (Mário) abeirou-se do país-menino e explicou, outra vez, que o cofre tem um fundo. Ou, dito de outra forma, declarou que, ao contrário dos peixes, o ouro não se multiplica e, como tal, não chega para tudo. “Temos todos de ser responsáveis e utilizar as verbas com rigor.”




Ainda assim, e mesmo distribuindo mais algumas moedas no próximo ano, não é certo que venha a ser maior o saco em cima da mesa na negociação com os professores - cujos representantes estarão hoje em São Bento, ao bater das doze badaladas. “É preciso garantir que no final do processo o Governo consiga fazer face a todas as responsabilidades que tem”, avisou o ministro das Finanças, disponível para conversar, mas sempre de olhos postos na estrelinha que brilha em Bruxelas. "Não podemos dar passos maiores do que a perna", sentenciou o viajante.




Como qualquer bom mago parece ter sempre algo de adivinho, Centeno foi convidado a pronunciar-se sobre o futuro. Quando lhe perguntaram se voltará a ser ministro das Finanças caso o PS vença as Legislativas, o rei Mário respondeu nim. “Há questões que se colocam no seu devido momento (…) Até outubro de 2019 desempenharei o meu cargo o melhor que sei.”




Esta é a arte maior dos magos. Em tudo o que dizem e fazem há sempre algo que escapa ao comum mortal. Sendo fácil perceber que as Legislativas estão marcadas para 6 de outubro, exatamente nove meses depois do Dia de Reis, que é no domingo, os mesmo nove meses que levou a viagem dos reis magos desde o Oriente até Belém, onde nasceu o menino, o mais assustador é ouvir a entrevista outra vez e tentar perceber aquilo que nos escapou.

OUTRAS NOTÍCIAS

Aqui chegados, é fácil concluir que há dois tipos de pessoas a ler estas linhas. Aquelas que acham que atirei completamente ao lado na escolha do assunto para abrir o Expresso Curto e as que acham que devia ter começado por escrever sobre o Benfica.




Talvez saísse uma coisa assim: Ruben Dias, primeiro, e Jardel, uns minutos depois, ambos na primeira parte, marcaram os dois golos com que o Benfica perdeu ontem, em Portimão. Jonas, o avançado que não conseguiu fazer na baliza adversária o mesmo que os seus colegas da defesa fizeram na respetiva, foi expulso na segunda parte depois de um pontapé certeiro na cabeça do guarda-redes do Portimonense.




Ou talvez me limitasse a recomendar a crónica do jogo na Tribuna.




Foi o terceiro auto-golo da época para os encarnados e todos apontados por centrais - o outro tinha sido marcado por Conte. Os mesmos centrais que, volta e meia, são expulsos. Por outro lado, é a primeira vez na história que a equipa algarvia derrota o Benfica. Mais impressionante é que o Portimonense o tenha conseguido sem, repito, marcar um único golo. Prevê-se, portanto, para hoje mais uma série de discussões sobre o futuro de Rui Vitória.




Porto e Sporting jogam hoje.




Dito isto, e sublinhando que se vai falar muito sobre o Benfica e o respetivo treinador e o futuro do segundo no primeiro, e ainda das cadeiras queimadas no Algarve, deixo-lhe aqui mais algumas notícias de que se pode socorrer no intervalo das conversas futebolísticas para encetar um diálogo com que está mesmo aí ao lado.




Impostos. Eis algo de que gostamos de falar na razão inversa de que gostamos de os pagar. A Ana Sofia Santos e a Sofia Miguel Rosa prepararam um guia para o Imposto Municipal sobre Imóveis, o grande IMI, que pode proporcionar umas boas conversas. O imposto desce em 50 municípios e quase duas dezenas de câmaras municipais optam por cobrar a taxa máxima. Siga por aqui, pela estrada do Expresso, rumo ao que vai pagar.




Já falámos dos miúdos e da escola e, por isso, vamos falar também dos professores. Outra vez. A Fenprof apelou ontem a que os docentes prossigam a greve às atividades fora do horário - ou seja, a tudo o que não esteja enquadrado nas 35 horas semanais.




Mais algumas greves a que convém estar atento.




Os trabalhadores das Rodoviárias do Tejo, Lis e Oeste estão em greve durante 48 horas pelo aumento do salário e pela unificação das regras de trabalho em todas as empresas do Grupo Barraqueiro. O dia vai ser estranho no terminal do Campo Grande, em Lisboa, com poucos passageiros e muitos motoristas à porta da sede da Barraqueiro. Às 11h00, chega o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos.




O Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística decretou uma greve ao trabalho nos portos nacionais entre 16 de janeiro e 1 de julho. Não é no campo, longe disso, mas parece que pode ser grande.




Em sentido contrário, o Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal, um dos dois que esteve na origem da grande greve às cirurgias das últimas semanas, desconvocou ontem a greve geral que estava anunciada para a próxima semana, de 8 a 11 de janeiro. Amanhã há uma reunião que pode ser decisiva.




No sábado, 5 de janeiro, estão à venda os bilhetes para o concerto de Bob Dylan no Coliseu do Porto. Será em maio o concerto único do Nobel da Literatura em Portugal. Se desejar banda sonora para o resto do Expresso Curto, clique aqui.




Vamos fazer como o Dylan, e começar a passar notícias como se fossem pedaços de cartão na mão de um músico a ser filmado para um vídeo nas traseiras de um hotel em Londres.




Santana Lopes e a nova causa da sua Aliança podia ser um filme, mas é apenas um vídeo no YouTube sobre as reformas dos emigrantes portugueses no Luxemburgo, como conta a Angela Silva.




Marcelo e Jair podia ser uma dupla sertaneja, ou um filme chamado “Encontro de irmãos”, mas é apenas o momento em que o Presidente português cumprimenta o seu recém-empossado homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, em Brasília. (Uma das primeiras medidas do novo presidente brasileiro foi um aumento do salário mínimo)




Seguimos para norte, rumo aos Estados Unidos da América, onde esta quinta-feira assume funções a nova Câmara dos Representantes. Nancy Pelosi, apontada como provável líder da bancada, já avisou Donald Trump de que não há dinheiro para construir o muro na fronteira com o México. Mas a administração insiste e o impasse persiste. Devido ao desentendimento, os serviços do Governo dos EUA estão parcialmente encerrados por falta de financiamento há quase duas semanas que e, conta a CNBC, a solução do problema parece não estar para breve.




Trump é assim. Dado a conflitos. Na frente externa, e em plena época de tréguas na guerra comercial com a China (alcançada há umas semanas na cimeira do G20), a Apple anunciou um abrandamento das vendas no mercado chinês e a consequente revisão em baixa dos lucros.




Entretanto, o “The New York Times” passou alguns dias a ler nas entrelinhas e arrisca antever uma possível candidatura de Joe Biden, o vice de Obama, à Casa Branca.




Mulher, com mais de 50 anos, procura amigas. Esta é a história de uma página de Internet que já tem mais de 800 membros em Los Angeles. Podia ser apenas a história de uma ideia que deu certo, mas é um retrato de uma certa América e da vida de muitas pessoas, não só lá, mas um pouco por todo o mundo. A solidão é uma ilha que cresce no meio de um imenso mar das pessoas ligadas.




Uma desgraça nunca vem só: na Indonésia, enquanto ainda se recupera do tsunami, um deslizamento de terras voltou a matar.




Na Dinamarca, um acidente de comboio matou seis pessoas.




Desabamento de um prédio na Rússia, numa cidade na zona dos Montes Urais, provocou mais de duas dezenas de vítimas mortais. O incidente ocorreu na segunda-feira e, três dias depois, com temperaturas negativas, as operações de busca prosseguem. As autoridades russas afastaram hoje a possibilidade de ter ocorrido um atentado no local.




A Operação de Fim de Ano da GNR terminou há poucas horas e com um balanço nada positivo: oito mortos. O assunto está na ordem do dia e as escolas de condução prometem escrever ao primeiro-ministro. Esta manhã, o jornal i escreve que, desde 2000, já morreram nas estradas portuguesas 16309 pessoas.




Aproveitamos a embalagem e espreitamos o que está nas bancas. O Correio da Manhã anuncia que “Ninguém quer 30 mil empregos”, o JN revela que o “Estado ignora a lei e abandona famílias de acolhimento” e o Público anuncia que o “Governo lança novo plano de obras públicas quando falta fazer 80% do anterior”. Por ser quinta-feira, temos a Visão (“Um mistério chamado Sophia”, sobre Sophia de Mello Breyner Andresen) e a Sábado (“Guerra das rendas”).




Afinal, quem manda na Iberia e na Vueling? Perante a possibilidade, cada vez mais real, de um BAB, ou ’Brexit à Bruta’, e não obstante tudo o que está a ser negociado em Londres e por essa Europa fora, as duas companhias espanholas estão a tentar provar que são controladas por mãos espanholas – do Corte Ingles, imagine-se – e não britânicas, algo que as impediria de voar a partir de março.




O primeiro trimestre do ano promete ser de alta tensão em França, segundo o Le Monde, com uma série de medidas legislativas previstas e que podem gerar contestação.




Imagine a palavra longe. Acrescente mais uns milhões de milhões de quilómetros ao conceito e carregue no botão. O resultado é isto - um ‘boneco de neve’ que é o objeto mais distante da Terra alguma vez fotografado. Chama-se Ultima Thule.




Em Lisboa, numa escala bem mais modesta mas nem por isso menos impressionante, a autarquia espera conseguir quase 40 milhões de euros graças ao novo valor da taxa turística, que este ano subiu para dois euros por noite até ao máximo de 14 euros. Já está a contar.




Na Holanda, deve ter havido muita gente que aproveitou o fim do ano para pedir como desejo um televisão nova. É que elas estão a dar à costa como algas no verão. Tudo porque um cargueiro perdeu uma série de contentores no Mar do Norte - três deles, com um químico perigoso, ainda não foram encontrados e estão à deriva no oceano.




Eis agora alguém que levou demasiado a sério os festejos de Ano Novo e que, aposto, fez uma imbatível série de resoluções muito muito sérias. A polícia espanhola prendeu em Ibiza um condutor de 31 anos que acusou positivo em todas as drogas detetáveis no teste.




Não acredita? Então nem vale a pena falarmos das vacas wi-fi. São animais totalmente tecnológicos que emitem informação em tempo real para o dono da manada. Como conta o Vitor Andrade, estão ligadas à base de dados do agricultor, que fica imediatamente a saber se estão satisfeitas ou agitadas, doentes ou robustas, se saltaram a cerca ou, simplesmente, se estão prontas para dar à luz.




E pensar que há gente que se impressiona com os reis magos, neste preciso dia em que a China consegue aterrar uma sonda no lado oculto da Lua




O QUE ANDO A LER

O livro já tem quatro anos, mas a edição portuguesa que tenho em mãos é fresquinha. Reparo agora que a expressão “tenho em mãos” talvez não seja a mais feliz, dado que na capa de “Como ser um conservador” está uma imagem da Vénus de Milo




De qualquer modo, é um daqueles casos em que já li muito sobre o livro que comecei a ler há pouco. Roger Scruton, o autor, dispensa grandes apresentações, apenas porque é um mais importantes filósofos da atualidade e uma voz presente em muitas das discussões em curso nos nosso dias. Pode le-lo aqui sobre o Brexit.




Quero destacar uma das frases que pode encontrar logo ao início, no prefácio, por uma razão simples, que já vou explicar - e não, não é por não ter tido tempo para ler mais nada. “O conservadorismo tem origem num sentimento que todo o indivíduo com maturidade pode partilhar sem demora: o sentimento de que as coisas virtuosas são facilmente destruídas, mas não facilmente criadas”, escreve Scruton. Uns dias antes, tinha ouvido na rádio alguém recordar um provérbio africano que diz quase a mesma coisa: “Faz mais barulho uma erva a cair do que uma floresta inteira a crescer”.




Ainda está a ouvir o Dylan?




Tenha um excelente dia, uma boa semana, um mês fantástico e um ano cheio de coisas boas.




Uma delas chega sábado, às bancas, e é uma espécie de edição especial. Pelo futuro do planeta, o saco de plástico já faz parte do passado. A partir de agora, o seu jornal passa a ser vendido com um saco em papel e o primeiro de todos, uma verdadeira obra de arte que pode passear pela rua ou emoldurar, é desenhado por Joana Vasconcelos.




Até lá, não se esqueça, tem mais duas edições do Expresso Diário e mil e uma notícias para ler no site do Expresso.




Tratamento real, pois claro.

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