Siga-nos

Perfil

Expresso

Ricardo Marques Jornalista

Aqui há guê

7 de Dezembro de 2018

Se alguém lhe disser que o país está parado e que há greves por todo o lado, mostre-lhe este Expresso Curto. Aqui estamos, quem escreve e quem lê, a provar que, ao melhor jeito de um slogan para gritar na rua, apesar da greve a vida segue.


Por outro lado, e bem vistas as coisas, esse alguém é capaz de ter razão. Hoje é o Dia G.




O Guê, ou gê para os amigos, é uma espécie de primo consoante do meio, que nada tem a ver com os fabulosos irmãos vogais. O guê é guloso, gabarolas e gosta de gelatina gelada, de gatos gigantes e o seu museu preferido é o Guggenheim. E o que ele adora mesmo é uma grande e grandiosa e gloriosa greve. De preferência geral. Mas se for das boas, como ele gosta de gritar, “genial”.




Portanto, prepare-se. De todas as greves marcadas para hoje, a paralisação nacional dos comboios promete ser a mais complicada. Vários autarcas mostraram-se ontem preocupados como caos anunciado pela ausência de serviços mínimos da CP.




Um dos efeitos colaterais de ter centenas de comboios parados é que a ausência de movimento alastra rapidamente às estradas e, por isso, conte com bastante transito.




Se o aviso chega tarde, reflita na ironia de estar preso numa fila de vários quilómetros a ler sobre a ironia de estar preso numa fila de vários quilómetros a ler sobre a i… Perante a eternidade, qualquer hora e meia é um segundo.




Daqui a pouco mais de uma hora, às dez da manhã, termina a vigília que o Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional realizou durante toda a noite junto ao Palácio de Belém. A greve dos guardas, contudo, prossegue até dia 6 de janeiro, apesar de a ministra da Justiça considerar que a altura “não é ideal”. Ontem, o presidente do sindicato assegurou que as visitas de familiares no próximo fim de semana estão asseguradas.




Se tem uma cirurgia marcada e precisa de ir de comboio, suba dois parágrafos. Se tem outra forma de chegar ao hospital, confirme antes de sair. Nas duas últimas semanas, segundo o sindicato dos enfermeiros, foram adiadas 5000 cirurgias. E em Santa Maria o bloco de cirurgia pediátrico está completamente parado. A greve dos enfermeiros dura até dia 31.




Se tem assuntos a resolver nos juízos locais cíveis de todo o país, ou nos tribunais administrativos de Leiria e Loulé, e precisa de ir de comboio, suba um parágrafo e depois mais dois. Se tem outra forma de chegar ao tribunal, confirme antes de sair. A greve de juizes decorre em 21 dias intercalados até outubro de 2019. Azar dos azares, a de dezembro calha hoje - e a julgar pela amostra o dia promete ser complicado.




“Ah, sim, e isso… Só que eu moro em Lisboa e não preciso de carro”. Pois. Mas os funcionários judiciais estão greve durante 24 horas na Comarca Lisboa. E, como as marés que vão e voltam, em janeiro há mais.




Em entrevista ao Público e à Rádio Renascença, a ministra do Mar admitiu ontem que:


  1. a viabilidade do Porto de Setúbal pode estar em risco;
  2. “a solução está muito mais perto do que se possa pensar"


A greve dos estivadores prossegue hoje, deixando mais uns milhares de carros parados - ainda que sem gente lá dentro. Como fumo sem fogo.




E a 19 começa a greve dos bombeiros profissionais.




Grave? Não. Greve.

OUTRAS NOTÍCIAS

Segue-se a habitual lista rápida de outros temas e assuntos de que provavelmente vai ouvir falar durante as próximas horas. A coisa não está famosa.



A Grécia está a ferro e fogo. Manifestantes entraram em confrontos com a policia, e Atenas e noutras cidades, no dia em que passaram dez anos da morte de um jovem de 15 anos, baleado pela policia.



A França está como a Grécia. Durante todo o dia de ontem, os estudantes do secundário ocuparam os liceus e levaram para a rua manifestações violentas. Como se fosse um ensaio para o que pode vir aí amanhã com o anunciado protesto dos coletes amarelos, que parecem pouco impressionados com todas as medidas que o Governo já reverteu e com as que prometeu reverter. A policia prepara-se para o pior, escreve o “Le Figaro”.



As bolsas mundiais estão, ao mesmo tempo, gregas e francesas, por culpa dos americanos, dos canadianos e dos chineses e do preço do petróleo. Começamos pelo fundo, do poço, para registar o desentendimento do OPEP que está a abalar o mercado dos barris e do crude. A conta deve chegar dentro de semanas a um posto de combustíveis perto de si.



Mais complexa, se possível, é a história que envolve a Huawei, o gigante chinês de telemóveis que eventualmente fabricou o equipamento em que está a ler este Expresso Curto. Soube-se ontem que as autoridades canadianas - a pedido dos Estados Unidos da América e sem que seja ainda conhecida qualquer acusação - detiveram em Vancouver uma cidadã chinesa chamada Meng Wanzhou.



A senhora Meng é não só a CFO da Huawei. É, antes de mais, a filha do fundador da empresa. A Huawei garante que a sua diretora financeira foi presa quando fazia a ligação entre dois voos e que desconhece as razões para a prisão. As autoridades canadianas e americanas nada adiantaram, mas, de acordo com o The Wall Street Journal, há uma investigação em curso em Nova Iorque, desde abril, a uma possível violação da empresa chinesa ao embargo decretado pelos EUA ao Irão.



O mundo fica mais pequeno ainda porque a detenção ocorreu no sábado, quase à mesma hora em que, em Buenos Aires, na Cimeira do G20, os presidentes dos EUA e da China chegaram a um acordo para 90 dias de tréguas na guerra comercial em curso. Complicado? Bom, não fica mais simples se acrescentarmos que vários países estão a afastar a Huawei do grande salto em frente para a rede 5G (cá está ele outra vez). Australianos, neozelandeses e britânicos admitem que há um sério risco de espionagem por parte de Pequim.





Não admira que os algoritmos responsáveis pelas operações financeiras globais fiquem desorientados.



À boleia da China, aproveito a oportunidade para lembrar que depois de Xi Jinping, e de João Lourenço antes dele, a próxima grande visita a Portugal deverá ser a do Pai Natal. Calha na noite de 24 para 25 de dezembro, quando todos nós 'estivermos numa' de que é muito mais importante dar do que receber.



Um pouco como acontece na Assembleia da República. Se virmos com atenção o que se tem passado nas últimas semanas, constatamos que há deputados para quem o Parlamento é como uma chaminé na noite de consoada: ninguém os vê, mas eles estiveram lá. Outros, recebem o que parece ser um subsídio de trenó, e ainda têm ajuda para pagar a ração das renas. Mas depois, sem qualquer espírito natalício, zangam-se como duendes à bulha por um brinquedo na fábrica do Pai Natal. Duendes com seguro de saúde, claro.



Neste artigo publicado no Expresso Diário de ontem - dia em que uma deputada do PSD se demitiu dos cargos no Grupo Parlamentar - o Ricardo Costa deixou estas quatro perguntas aos 230 deputados: “Acham que o populismo nasce do quê? Só brota de profundas tensões migratórias ou de enormes escândalos de corrupção? Só medra em situações de extrema insegurança física e desemprego extremo? Ou que só aparece de surpresa perante movimentos separatistas e leis que agitam o passado de guerras civis e ditaduras?” A resposta é não. Não.



Mas ainda bem que alguém pergunta. O populismo dá-se bem em terrenos onde as pessoas já perderam a vontade de plantar perguntas. De perguntar.



Por exemplo, hoje vão multiplicar-se as questões sobre as relações entre a EDP e o ex-ministro Manuel Pinho. Para ficar a par de tudo o que se vai discutir, nada como tirar uns momentos para ver esta peça da SIC. E uma primeira reação. O enredo é este: “O Ministério Público está na posse de e-mails com alegadas provas de que a EDP manipulou o ex-ministro Manuel Pinho no caso dos chamados CMEC e da extensão do domínio público hídrico”.



Dos CMEC à CEMG vai um guê. Hoje é dia de eleições para a administração da Associação Mutualista, o principal acionista da Caixa Económica Montepio Geral (CEMG). Um assunto que vai dominar a atualidade, num banco que anda há meses nas notícias - e nem sempre pelas melhores razões. Eis uma forma de perceber o que está em causa. E um vislumbre do que aí vem.



Vamos a um outro vislumbre rápido?



  • É dia de Timor-Leste e celebra-se na ilha que, diz a lenda, nasceu de um enorme crocodilo o Feriado do Dia dos Heróis Nacionais. Foi a 7 de dezembro de 1975 ocorreu a invasão e ocupação indonésia de Timor, com a operação “Komodo”



  • Um grupo de paleontólogos portugueses encontrou em Tentúgal um fóssil de uma espécie de crocodilo que viveu há 95 milhões de anos. É o mais antigo do mundo



  • Há reunião da Comissão Permanente de Concertação Social para discutir o aumento do salário mínimo



  • Começa em Lisboa o Congresso do Partido Socialista Europeu



  • Está marcada para as 14h30 a leitura do acórdão do Processo Operação Fizz, que tem como arguidos o ex-procurador Orlando Figueira, o empresário Armindo Pires e o advogado Paulo Blanco, todos acusados, em co-autoria, de corrupção, branqueamento de capitais e falsificação de documentos



  • É apresentado em Bragança um estudo sobre as motivações dos jovens médicos para se fixarem no interior do país



  • James Comey, ex-diretor do FBI, depõe na Comissão Judicial da Câmara dos Representantes, em Washington



O Porto e o Portimonense abrem a jornada deste fim de semana do campeonato de futebol.



Na Alemanha, a CDU eleger vai eleger o sucessor da Angela Merkel. É o fim de uma era, como se escreve no Expresso.



E na Praça de São Pedro, no Vaticano, é o primeiro dia do presépio e da árvore de Natal.



O QUE ANDO A LER

Antes de recomendar o livro que comecei a ler esta semana, cortesia da editora, quero partilhar consigo o momento de ligeiro pânico que vivi ontem ao ver o vídeo de uma menina mal-comportada que o pai obrigou a caminhar até à escola.



Assustei-me a sério e fiquei a pensar: será o mesmo miúdo que vi há uns meses a correr à beira da estrada enquanto o pai filmava tudo do carro? Mas a pobre criatura ainda não chegou? Felizmente estava enganado. O castigo é o mesmo. A criança é que era outra.



Agora, ouça aqui as 65 melhores músicas do ano para o “The New York Times” e conheça no Vida Extra os nomeados para os Globos de Ouro de 2019.



Bom, vamos então às despedidas. Se gosta de filosofia, este livro é bom. Se gosta de novelas gráficas, também. Steven e Ben Nadler são os autores deste genial pequeno tratado sobre a origem do pensamento moderno. O subtítulo é “Os assombrosos (e perigosos) primórdios da filosofia moderna”. O título é “Hereges!”.



Assim mesmo, com um ponto de exclamação e com um enorme guê ali no meio.



Há diário às seis e edição em papel na banca amanhã.



Tenha uma grande sexta-feira e um grande fim-de-semana.

Partilhe esta edição