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Expresso

Uma faísca basta para atear um fogo

6 de Dezembro de 2018

Na terça feira à noite, um motim no Estabelecimento Prisional de Lisboa durou hora e meia, com incêndio de caixotes e colchões, o que levou ao uso de holofotes e de tiros de balas de borracha para o chão. Quarta de manhã, reclusos da prisão de Custóias recusaram entrar nas celas, obrigando os guardas prisionais a utilizar balas de borracha. À noite, em Matosinhos, quase 200 reclusos do Estabelecimento Prisional masculino de Santa Cruz do Bispo, recusaram-se a jantar. No Estabelecimento Prisional da Covilhã, os reclusos pediram esclarecimentos à direção “para saber por que não se podia telefonar às famílias”.

Em cada caso há protestos específicos, por exemplo quanto à falta de condições, mas em causa estão sobretudo limitações nas visitas de familiares, que decorrem de plenários do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional e da marcação de uma nova greve dos guardas prisionais, que se inicia hoje e durará de 13 dias, depois de outra que durou quatro dias até esta terça. O Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional reivindica retomar negociações com a ministra da Justiça para a revisão do seu estatuto, o que implica remunerações, novas categorias e subsídios de turno, alteração de horários de trabalho, descongelamento das carreiras e novas admissões.

Só este ano, o Estabelecimento Prisional de Lisboa contabilizou já 312 dias de greve, 299 dos quais às horas extra, segundo o “Público”.


Os protestos decorreram “sem um arranhão”, em Lisboa como nos demais estabelecimentos. O Governo já garantiu que haverá visitas nas prisões, apesar da greve dos guardas prisionais, que a ministra da Justiça – já chamada ao Parlamento - critica pela época em que ocorre, de Natal, assim prejudicando os reclusos. “Do ponto de vista humano” esta altura não é a ideal para os guardas prisionais cumprirem períodos de greve, diz. “Presos não podem ser submetidos a uma espécie de morte civil”, alertou Paulo Pimenta, presidente da Ordem dos Advogados do Porto.

Não é a única tensão do governo com classes profissionais da função pública. Nas últimas semanas temos assistidos a greves de enfermeiros e de juízes (o que ontem adiou mais de 200 julgamentos e diligências), protestos de bombeiros sapadores, e claro à frente com os professores, cujos sindicatos ontem se reuniram com o Ministério da Educação, num encontro que classificaram de absurdo e anedótico, por nada de novo trazer. “Querem guerra, guerra terão”, afirmou Mário Nogueira, ouvido na TSF.

Um fogo pode descontrolar-se se não for apagado no seu início. Que o diga o governo francês, que começou por fazer frente ao protesto dos “coletes amarelos” e acabou a recuar em toda a linha, deixando cair o imposto sobre os combustíveis que esteve na origem do protesto...

OUTRAS NOTÍCIAS
“Se continuarmos assim, o Porto de Setúbal deixará de ser viável”, avisa Ana Paula Vitorino, ministra do Mar, em entrevista à Renascença e ao Público, estimando que no final desta semana “as rotas que costumam utilizar o Porto de Setúbal se reduzam 70%”. Em causa está a greve dos estivadores. “Julgo que a solução está muito mais perto do que se possa pensar”, diz a ministra, “tem que ser um acordo que acabe com a precariedade completamente desregulada no Porto de Setúbal.”

A carga fiscal em Portugal está a crescer desde 1990. Em 26 anos, os impostos em Portugal passaram de 26,5% do PIB em 1990, para 34,3% em 2016, segundo um relatório sobre a convergência das taxas e das estruturas dos impostos nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O IVA foi o imposto onde se deu o maior crescimento, seguido do IRS.

A gestão de Tomás Correia no Montepio violou, em 2014, os limites de investimentos especulativos apostando em derivados da PT, e concedeu créditos a clientes de risco. Estas apostas falhadas representam hoje um "buraco" de quase 600 milhões de euros nas contas do banco, avança o “Público”, que acrescenta que Tomás Correia foi avisado sobre riscos de empréstimos e operações especulativas, tendo os alertas sido ignorados.

A notícia é publicada na véspera das eleições da associação mutualista, dona do banco Montepio, que decorrem esta sexta feira, em moldes explicados pela Renascença. A maioria dos associados do Montepio já votou, por carta, conta o Observador. Em pleno período eleitoral, o ministro Vieira da Silva foi apresentado como orador na apresentação de um livro sobre banca solidária ao lado do candidato Tomás Correia, atual presidente e candidato. O Ministério acabou por garantir que o governante não estaria. A organização da conferência disse ter-se tratado de uma “precipitação”.

A legítima impaciência dos portugueses aumenta a ritmo imparável de dia para dia”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se à lentidão da justiça nos casos de corrupção, citado pela Renascença. “É essencial que seja normal que quem exerça cargos públicos não saia deles mais rico do que entrou, nem saia para lugares que se prestem a ser pagamento de favores anteriores, nem se rodeie de parentes e próximos”.

Maria das Mercês Borges, deputada social-democrata que votou por Feliciano Barreiras Duarte no Orçamento do Estado para 2019, diz que já carregou no botão “por vários outros colegas”…

Rui Vilar foi eleito presidente do Conselho de Fundadores de Serralves, substituindo Luis Braga da Cruz, que saiu apresentando razões pessoais. A eleição decorreu ontem, na primeira reunião do órgão depois da polémica entre a administração e o diretor artístico de Serralves. Sobre esse assunto, nada: ou de nada falaram ou do que falaram nada se soube.

As casas para turistas ocupam 41% do centro histórico de Lisboa, noticia o Negócios. Em entrevista no mesmo jornal, o vereador Manuel Salgado revela que a Câmara Municipal se opôs a 27 pedidos de alojamentos locais no último mês.

As emissões mundiais de CO2 continuam a crescer, mais 2,7% este ano, para o maior valor de sempre na história da humanidade, diz o El Pais: 37,1 gigatoneladas de dióxido de carbono. A China representa 28% deste valor.

Em 2020, os transportes públicos no Luxemburgo vão ser todos de utilização gratuita. Este será o primeiro país do mundo onde isto acontecerá, numa medida do executivo de Xavier Bettel, agora reeleito, que adotou, no seu manifesto eleitoral, uma posição “ecológica”.

O administrador financeiro da empresa tecnológica chinesa Huawei foi preso no Canadá por suspeitas de violação de sanções dos Estados Unidos. Meng Wanzhou poderá ser extraditado para os EUA, depois de uma sessão em tribunal marcada para amanhã. As bolsas reagiram em queda, por receios de crescendo do mal-estar entre a China e os Estados Unidos. Notícia no The Guardian.

Emails internos revelados esta quarta feira pelo Parlamento britânico, e analisados no The Guardian, mostram o pensamento de Mark Zuckerberg sobre o seu negócio, demonstrando o seu foco em ter o máximo de dados possíveis sobre utilizadores para ganhar dinheiro. Por exemplo, o desenvolvimento de aplicações que usem dados do Facebook mas não lhe devolvam podem “ser boas para o mundo, mas não são boas para nós”. “Nós”, isto é, eles, o Facebook. Os documentos internos mostram também que a rede social chegou a acordo com algumas empresas para negociar acesso à informação dos seus utilizadores.

As redes sociais têm estado cada vez mais sob escrutínio, não só legal mas também pela manipulação de utilizadores, com efeitos eleitorais. A União Europeia está a preparar-se para a “guerra de desinformação” que, entendem os responsáveis pela segurança europeia, pode vir a prejudicar as eleições europeias do próximo ano. Contra a potencial influência do Kremlin, as “fake news”, a desinformação, os perfis falsos nas redes sociais, os 'trolls', os 'bots', foi agora apresentado um pacote de medidas.

Mas há quem goste de usar as redes para “fake news” ou para falsos desmentidos. Rui Rio, que tem uma nova conta de Twitter, ontem publicou um tweet para desmentir ter feito uma afirmação sua citada em vários jornais, no que foi secundado pouco depois pelo vice-presidente do PSD Salvador Malheiro, que referindo-se ao Expresso escreveu “esta notícia é falsa!”. Não, não era, como explica uma nota de direção do Expresso. Rui Rio disse mesmo “Podemos perder à primeira, à segunda, à terceira, à quarta, à quinta... mas vem um dia em que perceberão”. As citações estão em vários órgãos de comunicação social. Por uma razão simples: os jornalistas ouviram-nas.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, procedeu a um gigantesco movimento de concentração da comunicação social favorável ao Governo, apesar dos receios quanto a consequências negativas para o pluralismo mediático. Quase 500 órgãos de comunicação social foram concentrados numa fundação dirigida por Gabor Liszkay, um velho aliado de Orban.

Uma nova teoria poderá explicar os 95% de matéria invisível do universo. Cientistas da Universidade de Oxford podem ter resolvido um dos maiores mistérios da física moderna, propondo uma tese sobre a unificação da 'matéria negra' e da 'energia negra' num novo fenómeno, um fluido caracterizado por ter "massa negativa".


FRASES
“Acredito profundamente que vou ser eleito”. Paulo Sande, candidato da Aliança, no Negócios.

“Noticiaria o caso dos emails do Benfica sem nenhuma reserva”, José Eduardo Moniz, na Sábado


“Ficámos todos a saber que os coletes amarelos que nos obrigam a ter no carro podem servir para algo mais do que brilhar no escuro”, Rafael Barbosa, referindo-se às manifestações de protesto em França, no Jornal de Notícias.


O QUE EU ANDO A LER
Nos jornais: “Já é uma exceção: legado de Merkel é desenhado pela imigração e pela austeridade”. Uma análise feita pelo New York Times a 13 anos de liderança da chanceler alemã, nas vésperas da reunião da CDU que apontará o seu sucessor na liderança do partido. Merkel, que marcou na sua agenda sair de cena em 2021, tem um mandato com muitos resultados contraditórios, incluindo o de ter devolvido aos alemães a liderança da Europa mas não os ter preparado para o que isso significa, escreve o jornal.

Nos livros, “Uma História Antiga”, de Jonathan Littell, um romance de um homem que corre por um corredor ladeado por portas, que vai abrindo para entrar em “compartimentos” que são eles próprios histórias, histórias em que se confronta com o medo, com o desejo, consigo próprio. O livro fica a léguas do seu famoso “As Benevolentes”, vai escrevendo a crítica. Com muita razão.

Para quem gosta de ouvir podcasts, ficam as escolhas da New Yorker para os dez melhores do ano, numa lista liderada pelo “In the Dark”. Relembro-lhe que no Expresso pode ouvir agora todas as semanas em podcast os programas Expresso da Meia-Noite, Eixo do Mal e Quadratura do Círculo, que se juntam aos nossos habituais episódios da Comissão Política, A Beleza das Pequenas Coisas, Palavra de Autor e PBX.

Tenha um excelente dia. Por aqui, estamos a preparar o Expresso Diário de hoje e o semanário de sábado.

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