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Vítor Matos Editor de política

O tigre e a corça, uma fábula chinesa

4 de Dezembro de 2018

Bom dia!

E nada melhor para começar esta manhã do que um velho conto moral: uma fábula milenar chinesa conta a breve história de um tigre que tentava caçar uma corça, mas acabou morto porque a presa teve o instinto de se atirar por um precipício de modo que não morresse apenas ela mas os dois. Quanto mais velhas as fábulas, claro, mais exageradas, até porque o tigre que visita hoje a corça já ferrou o dente quando esta estava no fundo do precipício e parece seguro por não haver mais por onde cair. Foi nos anos em que Portugal caiu no abismo financeiro, depois do resgate, que a China entrou em força em setores estratégicos nacionais, como a EDP, a REN, a banca, os seguros ou os hospitais. Não se trata de dizer que a corça deve arrastar o predador para a desgraça, mas devemos estar atentos quando vendemos partes da nossa soberania económica a uma potência gigante que dificilmente podemos chamar de "aliada", no velho sentido da palavra.

Na verdade, o mundo está em mudança tão acelerada que, pelos novos padrões, já nem não fazemos bem ideia do que é isso dos "aliados" . O tigre medirá assim os riscos, mas neste caso deve ser a corça a avaliar os seus instintos. A visita que o sr. Xi Jinping inicia hoje a Lisboa terá resultados que vão aprofundar a relação. O presidente da República Popular da China é um dos homens mais poderosos do mundo, a trabalhar assumidamente para tornar o seu país na grande potência global até 2050. A Cristina Peres conta no Expresso Diário, o que andou o líder chinês a fazer nos seus périplos mundiais mais recentes - como a participação na reunião do G-20 este fim-de-semana na Argentina de onde saíram umas tréguas comerciais com os Estados Unidos.

Estamos assim tão vulneráveis como a corça? A China tem mesmo um plano para dominar a Europa do Sul? Sim, escreve no site da revista The National Interest o especialista Philippe Le Corre (membro do Carnegie Endowment for International Peace, e autor do recente relatório China’s Rise as a Geoeconomic Influencer). "Os investimentos da China em indústrias estrategicamente sensíveis ficaram em grande medida sem o devido escrutínio", escreve o autor para se referir a casos com o de Portugal, Itália e Grécia - sendo que a opinião pública dos últimos países começa a aceitar como boas estas relações privilegiadas em detrimento da União Europeia.

No seu relatório sobre a influência da China na Europa e em Portugal, Le Corre cita conversas com dois executivos portugueses, que falam sob anonimato. Um deles diz que "não estamos preparados para sacrificar a nossa democracia e os nossos valores". Não estamos já a fazê-lo? Vale por isso a pena ler esta entrevista de Maya Wang, da Human Rights Watch, ao Observador, que diz que a repressão "disparou" com a presidência do senhor Xi Jinping. Outro executivo português fala com Le Corre como se a corça pudesse, de facto, arrastar o tigre para o precipício: "Se alguma coisa correr mal, podemos sempre nacionalizar os ativos chineses". Really? Temos mesmo força para isso? Com que consequências?

Constantino Xavier, investigador da Brookings India, em Nova Deli, lança mais alertas e perguntas sobre os riscos do aprofundamento das parcerias com a China num artigo para o Expresso: "Quer Portugal ser visto como mais uma Hungria ou Grécia, crescentemente reféns do poderio chinês?"

O "perigo" da entrada da China em setores como o da energia, parece ter merecido a atenção dos serviços secretos portugueses. É o que significa esta discreta frase que consta do Relatório de Segurança Interna de 2017. Ainda não havia a OPA da China Three Gorges, o gigante estatal chinês, sobre a EDP, e no relatório de 2018 este tipo de referências desapareceu: "No campo da segurança económica, o reforço e conquista de posições de controlo de empresas de setores estratégicos da economia portuguesa por parte de entidades estatais estrangeiras poderá comportar riscos para a economia nacional, caso a orientação estratégica dessas empresas não corresponda aos interesses do Estado português e dos agentes económicos portugueses."

No fim da visita que começa hoje e acaba amanhã - com encontros com Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e reuniões bilaterais setoriais -, serão assinados múltiplos acordos, nas áreas da ciência, da cultura e da educação, mas o memorando mais importante será sobre a cooperação portuguesa na nova Rota da Seda - cuja tradução literal é a Iniciativa Cintura e Rota -, a que países europeus de leste já aderiram (Portugal não vai tão longe), e que tem um objetivo para já chamado: Sines e o novo terminal de contentores.

Em março deste ano, Augusto Santos Silva dava conta disso mesmo num discurso durante uma conferência no ISEG sobre o financiamento da nova Rota da Seda. Nessa ocasião, o ministro dos Negócios Estrangeiros louvou os investimentos chineses em Portugal e lançou de forma subtil a hipótese de co-financiamento da linha de caminho-de-ferro para Sines a Espanha, ou melhor, Sines à Europa. Primeiro, Augusto Santos Silva fez o diagnóstico: "O porto de águas profundas de Sines, e a sua futura ligação ferroviária a Espanha, podem e vão providenciar uma interseção entre terra e a rotas marítimas da Iniciativa Cintura e Rota, cujo potencial é inquestionável". A seguir acrescentou uma solução que ajudaria a resolver o problema que se tem colocado quando Portugal precisa de fazer uma grande obra, a falta de dinheiro: "Para se assegurar a coerência e a interoperabilidade entre as infraestruturas europeias e asiáticas, estas devem ser planeadas e financiadas conjuntamente". Teremos uma via férrea co-financiada por chineses se ganharem a concessão em Sines?

Ao Expresso, o MNE disse este fim de semana que "o tempo em que havia ativos à venda acabou. Agora, a relação económica bilateral só pode progredir se passarmos a um novo patamar”. Possivelmente, estará a falar de investimento reprodutivo. Para já, será lançado um projeto cooperativo no âmbito da ciência, com a criação do Starlab, um laboratório conjunto para desenvolver tecnologia e até fabricar pequenos satélites.

O Bloco de Esquerda, no entanto, recusa participar em cerimónias ao lado de Xi Jinping, alegando que a China continua a desrespeitar os direitos humanos.

O Público faz aqui uma longa análise do que está em causa com esta visita do Presidente chinês a Lisboa, onde académicos também apontam para os riscos de uma maior dependência portuguesa da China. Observador explica o que esperam os chineses dos milhões que entraram em Portugal. Quais são as contrapartidas? É um debate adiado, diz um investigador ao jornal.

Se quiser mais informação sobre as relações económicas entre Portugal e a China, pode ler vários artigos publicados no Expresso este fim de semana. Sabia que só a Finlândia nos passa à frente em investimento chinês? Ou que, segundo Peter Williamson, professor de gestão em Cambridge, Reino Unido, os "portugueses são pragmáticos como os chineses”? Ou que a China já controla 8,8% da bolsa portuguesa? Se quiser investir por lá, fixe estas 10 dicas.

Para fechar o dossiê, parece que o médico chinês que disse ter criado os primeiros bebés geneticamente modificados está desaparecido.

Outras notícias


O fim da hegemonia. A Bola de Ouro da France Football de 2018 foi atribuída a Luka Modric, internacional croata que joga no Real Madrid. É a primeira vez na história do prémio que um jogador croata vence o galardão e há precisamente uma década que o vencedor não se chamava Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi. O último, em 2007, tinha sido Kaká.

Uma nova hegemonia. "O Sporting de Keizer é um Sporting transfigurado", escreve a Lídia Paralta Gomes na crónica do Sporting ao Rio Ave. "Quer a bola e pressiona para a ter e quando a tem trata-a bem, a um, dois toques, com intensidade. E ao terceiro jogo, no mais difícil teste, a ideia de jogo do holandês, que quer a equipa a recuperar a bola em apenas cinco segundos, passou com distinção: vitória por 3-1 frente a um bom Rio Ave". No fim do jogo, Fábio Coentrão, capitão do Rio Ave, confessou o seu sportinguismo: "Quero que o Sporting ganhe".

Liga das Nações. Já estão definidas as meias-finais da Liga das Nações, que irão ser disputadas em solo português, no verão de 2019: Portugal-Suíça e Holanda-Inglaterra. Fernando Santos avisou que Portugal já perdeu com os suíços.

Caso e-toupeira. O debate instrutório começou esta segunda-feira e o Ministério Público quer levar todos os arguidos a julgamento. O procurador alega que “Luís Filipe Vieira e restante administração nunca criaram entraves a Paulo Gonçalves”, que a SAD “violou os deveres de vigilância” e que “poucos casos de corrupção têm prova tão forte e cristalina como este”.

O futuro do euro. "Há acordo para fortalecer o euro", anunciou Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, numa conferência de imprensa hoje bem pela manhã. Depois de uma reunião de 16 horas que começou às duas da tarde de ontem, o ministro das Finanças português, assegurou que conseguiu o apoio de todos: "Foi um bom momento para marcar os 20 anos do euro", afirmou, citado pelo Negócios.

Auto estrada cortada. A 23 está cortada ao trânsito no sentido Abrantes-Torres Novas devido a um incêndio num camião que transportava fardos de palha, avançou uma fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Santarém citada pela TSF.

Montepio. A poucos dias das eleições, as pressões sobre os associados do Montepio têm aumentado. Há mensagens misteriosas em que é pedido aos votantes que não “liguem às notícias que têm surgido na televisão e nos jornais”, avança a SIC numa investigação em que teve acesso a documentos. Numa tentativa de suspender as eleições, deu entrada em tribunal uma providência cautelar que acabou por ser rejeitada.

Arrendamento. O Jornal de Negócios avança que o PSD vai apresentar uma proposta para os contratos de arrendamento celebrados por períodos de dez ou mais anos terem terão uma taxa de IRS de apenas 14%. Os dez projectos-lei do PSD sobre o tema serão discutidos em plenário no próximo dia 13 de Dezembro. O tema já tinha sido levantado tanto pelo CDS como pelo PS.

Emigrantes qualificados. Muitos dos que deixaram Portugal por falta de oportunidades de trabalho ou à procura de melhores condições salariais e de progressão profissional, agora querem voltar: 78% dos portugueses a trabalhar no estrangeiro ponderam um regresso ao país e 43% poderão mesmo fazê-lo nos próximos dois anos, diz o Guia do Mercado Laboral, o estudo global anual de tendências de emprego e recrutamento realizado pela consultora Hays.

Marcelo. Na véspera de receber o Presidente da China, o Presidente da República apontou Portugal como “um dos muito poucos” países na Europa que “conseguem compreender plenamente” os Estados Unidos e “que são realmente transatlânticos”. Estava no lançamento do livro do anterior embaixador americano em Lisboa. Hoje terá uma reunião com Xi Jiping.

Sócrates. O ex-primeiro-ministro não gostou de ser questionado sobre o empréstimo da casa do primo. No seu espaço de comentário “A Procuradora”, Manuela Moura Guedes disse na SIC que o antigo primeiro-ministro não deve ficar incomodado nem dizer que estão a entrar na sua vida privada de cada vez que a comunicação social o aborda, nem quando faz perguntas relacionadas com processos em que está envolvido. Pode ver o vídeo aqui.

Bombeiros profissionais em greve. Os bombeiros sapadores manifestaram-se ontem e concentraram-se na Praça do Comércio, onde derrubaram as grades que estavam colocadas no local, e foram travados junto à porta do Ministério da Administração Interna, onde estava uma delegação a entregar uma moção com as reivindicações. Anunciaram uma greve entre 19 de dezembro e 1 de janeiro em protesto contra as propostas do Governo que regulam o estatuto e o regime de aposentação.

Crianças desaparecidas. O Público noticia que desapareceram cinco jovens romenos que estavam sob responsabilidade do Estado português. As três raparigas e os dois rapazes – agora com idades entre os 12 e os 18 anos – desapareceram entretanto do lar de acolhimento. Nem sabe se estão em território nacional.

Reino Unido. Theresa May soma dificuldades e agora enfrenta uma moção de “desrespeito pelo Parlamento” por não revelar documentos sobre impacto do Brexit.

Em França, no rescaldo de um fim-de-semana marcado pela escalada da violência dos coletes amarelos Macron anda à procura de uma impossível unidade nacional. O texto é do Daniel Ribeiro, correspondente do Expresso em Paris. O Presidente tenta ganhar tempo e o país está inquieto e inseguro. A classe política está completamente dividida. Esta manhã, ficámos a saber que o Governo francês recuou e vai suspender aumento dos preços dos combustíveis que motivou a revolta.

O Daniel Oliveira escreve no Expresso Diário que "a tentativa de circunscrever a contestação dos coletes amarelos a um movimento de extrema-direita não é inocente. Macron quer manter todos os democratas como reféns: ou ele ou Le Pen. Tudo o que este homem tem deixado, à esquerda, à direita, no campo democrático e até na agenda ambiental, são quilómetros de terra queimada".

Caso Khashoggi. Novas revelações sobre o homicídio do jornalista voltam a focar-se o envolvimento do príncipe herdeiro saudita no caso. Jamal Khashoggi percebeu que alguma coisa não estava bem e pediu a Deus que os ajudasse - a si e ao ativista turco Omar Abdulaziz com quem vinha trocando mensagens no Whatsapp a criticar o príncipe saudita. “Que Deus nos ajude”, implorou então Khashoggi, depois de ter percebido as mensagens tinham sido intercetadas.


As manchetes do dia

Público: "Estado perdeu o rasto a cinco jovens à sua guarda"

Jornal de Notícias: "Metade das instituições de solidariedade social com graves prejuízos"

i: "Presidente chinês paga 2 milhões para ter Ritz por sua conta"

Diário de Notícias: "Testemunha no e-Toupeira é autor de site do partido de André Ventura"

Correio da Manhã: "Novas reformas perdem 26% do salário"

Negócios: "PSD mais perto do PS nas alterações às rendas"

O que ando a ler

Ando a ler aquilo que mete medo, ou seja, o "Medo" de Bob Woodward (D. Quixote), o jornalista veterano do Washington Post que deve estar aterrado porque nos 40 anos que passaram sobre a queda de Richard Nixon, para a qual ele contribuiu como repórter de investigação, e a ascensão de Donald Trump, tudo mudou. Para pior. Nixon seria um príncipe da renascença ao pé de Trump, e o que levou o primeiro a sair da presidência, jamais deitaria abaixo o segundo. Os tempos mudam tanto, que George W. Bush sobre cuja presidência e guerra no Iraque Woodward tanto escreveu - quatro livros - parece agora um intelectual comparado com o sucessor.

O livro, que o Expresso revelou aqui com a pré-publicação de um capítulo, arranca com uma história notável sobre os bastidores desta Casa Branca: a inacreditável forma de como colaboradores presidenciais protegem o país do seu presidente, retirando-lhe documentos essenciais de cima da mesa, de forma que se esqueça, e assim não arranje sarilhos ainda maiores para a nação. A abrir o prólogo, um assessor surripia uma folha que a ter sido assinada por Trump teria posto fim ao Acordo de Comércio Livre Coreia do Sul-EUA e colocaria em risco a segurança nacional. É traição ao serviço da pátria.

Cada vez mais depurado e seco na escrita, Woodward replica o tipo de jornalismo de cruzamento e mais cruzamento de fontes, para nos dar uma narrativa limpa, como se tivesse vivido as situações que descreve. Diálogos completos sobre momentos sensíveis, detalhes sobre reuniões, e abrangência em relação ao que os visados foram partilhando com os seus próximos. Os livros sobre W. Bush já tinham sido assim. Este acentua ainda mais o estilo.

A narrativa é eloquente, embora menos surpreendente do que seria de supor, tendo em conta tudo o que temos visto ao longo destes anos. O presidente americano escolhe colaboradores com base em intuições primárias, despede-os com os mesmos critérios, faz declarações que põem os aliados com os cabelos em pé, para depois se desdizer e perder toda a credibilidade, se é que ainda a tinha. Por exemplo, sobre a Nato.

O general Mattis, que viria a ser secretário da Defesa de Trump, descreveu-o como um "bom ouviste" - opinião não consensual -, desde que não se tocasse num dos seus calcanhares de Aquiles: "A imigração e a imprensa são os dois principais". Steve Bannon achou-o tão mal preparado que, antes de aceitar a direção da campanha, pensou que ia perder por muitos. Mas Trump é uma calculadora de improbabilidades. As descrições sobre a lendária impreparação do presidente deixam a alegada falta de conhecimentos de Bush Jr. a milhas. Os factos acerca da interferência russa são de arrepiar, e ainda mais a tentativa de interferir na investigação. A atenção exacerbada do Presidente aos media tira-lhe tempo para governar. É tudo um pavor.

Na verdade, vamos lendo o livro (ainda estou a meio) e pensamos se tudo aquilo é possível ou provável. Não devia ser. Um país daqueles (ou um país qualquer) nas mãos de gente assim é imprevisível. Trump, de facto, tinha razão na frase que Woodward usa como epígrafe e que lhe dá o título: "O verdadeiro poder é - nem sequer quero usar a palavra - medo", disse Donald. Ao menos nisso foi profundo e verdadeiro. O medo que a democracia deve ter dos seus inimigos.

Com esta nota de esperança na humanidade, despeço-me deste Curto. Tenha um dia agradável e uma boa semana!

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