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Expresso

Rui Gustavo Jornalista de Sociedade

Levante-se a toupeira

3 de Dezembro de 2018

Não estou a brincar: “Toupeira” é uma das candidatas a palavra do ano de 2018. Não por causa do simpático mamífero que vive escondido à frente de todos nós, mas devido ao processo e-toupeira, a incrível história de um funcionário judicial que é acusado pelo Ministério Púbico de passar informação em segredo de justiça ao assessor jurídico do Benfica a troco de camisolas autografadas, refeições no camarote, um lugar no anel VIP do Estádio da Luz e selfies com os craques do clube de que é adepto desde menino.

Hoje, às 14h30, começa o debate instrutório deste caso no Tribunal Central de Instrução Criminal, por onde passam os processos mais complexos e graves da nossa justiça.

José Augusto Silva, a alegada toupeira; Júlio Loureiro, o ajudante e elo de ligação com Paulo Gonçalves, o corruptor e a Benfica SAD, também acusada de corrupção, vão tentar convencer a juíza Ana Peres (a mesma do processo Casa Pia, que argumentou com a ressonância da verdade para condenar os arguidos) de que a acusação do MP não tem indícios suficientes para levar os arguidos a julgamento e muito menos a uma condenação. Os funcionários judicias alegam que não passaram qualquer informação em segredo de justiça, o Benfica diz que não pediu nem recebeu nada. Paulo Gonçalves diz que se limitou a receber informação ao dispor de qualquer um.

O que era dantes um jargão jurídico só acessível a iniciados do Direito, já nem precisa de tradução: a fase de instrução de um processo é como um pré-julgamento em que os arguidos tentam demonstrar a um juiz de instrução que a acusação do Ministério Público não vingará no julgamento a sério, por isso mais vale nem sequer realiza-lo.

Apesar do lado insólito – na tese do MP um funcionário judicial arriscou o emprego e a liberdade por bilhetes para o futebol - o caso é sério porque demonstrou uma debilidade grave no sistema judicial, incapaz de se proteger do inimigo dentro de portas, que terá usado a password adormecida de uma magistrada para entrar no sistema Citius. E está a ser levado a sério pelos protagonistas, isto é, pelos acusados. A prova é que o Benfica contratou um trio de pontas de lança do Direito Penal – Saragoça da Matta, João Medeiros e Rui Patrício – para destruir a acusação e evitar o julgamento. Substituem no campo o veterano João Correia, advogado do clube nos outros processos em que o Benfica está envolvido: e-mails, Mala Ciao e, no caso de Luís Filipe Vieira, Operação Lex, que envolve também o juiz benfiquista Rui Rangel.

A acusação em relação à Benfica SAD é aparentemente mais frágil – o MP diz que o presidente Luís Filipe Vieira autorizou as ofertas, mas não conseguiu indícios suficientes para o acusar - e se o Benfica conseguir evitar ir a julgamento neste processo será um sinal importante para os que se seguem. A estatística, tão importante para o deporto, diz que só uma pequena percentagem dos casos – 20 por cento - que vão para pronúncia acabam com uma decisão favorável aos acusados. Desta vez, o Benfica não é favorito num desafio.

OUTRAS NOTÍCIAS

Em francês, Toupeira diz-se Taupe e francamente não sei se tem o mesmo duplo significado que em português ou inglês (mole, figura de um dos melhores livros de John LeCarré), mas depois de mais um dia com o país a ferro e fogo por causa do protesto dos Gilet Jaune (coletes amarelos, esta sei) o presidente Emmanuel Macron acusou elementos da extrema-direita e extrema-esquerda de se terem infiltrado no movimento de protesto que começou há três semanas com a manifestação pacífica de pessoas comuns revoltadas com o aumento dos impostos e descambou em motins que esta semana resultaram num morto, o terceiro desde que os protestos começaram. Há centenas de feridos e detidos, carros e lojas destruídas, e, simbolicamente, o Arco do Triunfo foi grafitado com mensagens contra o Governo que hoje se reúne com os partidos da oposição e com representantes dos coletes amarelos. Os verdadeiros, não as toupeiras.

O Governo francês já esteve reunido ontem e chegou a ponderar decretar o estado de emergência. Para o próximo sábado está prevista nova manifestação em Paris e noutras cidades francesas. O país onde não se fazem reformas, mas sim revoluções. Macron saiu à rua, visitou os locais dos confrontos, cumprimentou os agentes das forças de segurança e foi vaiado pelos populares. O preço do combustível não desceu.

Depois de decretar ou conseguir 90 dias de tréguas na guerra comercial com os Estados Unidos, Xi Jinpig, presidente da República Popular da China (ainda há cinco RP, eram 19 há poucos anos, sem contar com as socialistas), chega amanhã a Lisboa para visitar “um pais amigo” e “um parceiro de confiança na Europa”. António Caeiro, o jornalista português que melhor conhece o antigo império do meio explica na Revista do Expresso desta semana como é Portugal visto da China, o país mais populoso do mundo.

Algumas pérolas:

“Dizia-se que os portugueses eram apreciadores de carne de criança”. E nós a pensarmos que eram os comunistas.

“Portugal é um xiao guo jia (um pequeno país) ouvi essa expressão muitas vezes num tom paternalista”

“Portugal em chinês, diz-se Pu Tao Ya. É uma tradução sonora”

Xi Jinping, que é presidente desde 2013 e, segundo Caeiro, já é mais citado do que Mao Tse Tung vai ser recebido pela fina nata da nossa República: o Presidente Marcelo, o primeiro-ministro António Costa, e Ferro Rodrigues, presidente da AR. Vem acompanhado de empresários e vai assinar 19 acordos bilaterais com Portugal.

A visita vai ficar por Lisboa, demora dois dias e duvido que passe pelo bairro da Encarnação, onde foi colocada uma peculiar estátua de João Ferreira do Amaral, Governador de Macau entre 1846 e 1849. A figura, grande demais para o pedestal onde foi instalada, mostra o militar a defender-se com um chicote de atacantes invisíveis. Na realidade, o enérgico Governador impôs a sua vontade no território e conseguiu por o povo contra si quando mandou remover sepulturas para construir uma estrada. Sabia que tinha a cabeça a prémio, mas mesmo assim decidiu sair sem escolta, armado apenas com um chicote e acompanhado pelo ajudante de campo. Junto à Porta do Cerco foi assassinado por populares que o decapitaram e deceparam um braço. A cabeça só seria devolvida depois de negociações entre os mandarins e os portugueses. A estátua do ditador para uns e herói para outros foi erigida em 1940. Já esteve num pedestal de vários metros de altura, no centro de Macau, mas quando o território passou para a administração chinesa, os novos donos exigiram que fosse retirada. Esteve vários anos encaixotada até ser resgatada na Encarnação. Agora é só história.

Hoje é dia das pessoas com deficiência, ou dos deficientes. Eduardo Jorge, tetraplégico, auto-enjaulou-se em frente à Assembleia da República para protestar contra as condições de vida que as pessoas como ele têm de enfrentar. No seu caso específico, deixou de ter uma assistente que o ajudava no dia-a-dia porque quando arranjou trabalho o Governo deixou de pagar à empregada. O salário não dá para tudo e Eduardo teve de se mudar para um lar. Aqui, foi a ação do estado que se mostrou deficiente. Não estou a tentar ter piada. O protesto acabou ontem à noite depois de Marcelo Rebelo de Sousa visitar o manifestante e prometer-lhe que vai ajudar na luta para passar o Modelo de Apoio à Vida Independente à prática. Por enquanto é só um papel.

Artur Jorge, antigo treinador do FC Porto (onde teve muito sucesso) e do Benfica (onde não teve sucesso nenhum, mas nem os adeptos mais fanáticos o acusaram de ser um agente duplo) vai vender hoje parte da coleção de arte que juntou ao longo dos últimos 40 anos. Não é uma história dramática de doença súbita ou pobreza inesperada, mas apenas a necessidade de vender para comprar mais. O leilão é na Sociedade Nacional de Belas Artes e quem puder tem a oportunidade de levar para casa obras de Arpad Szenes, Amadeo Souza-Cardoso, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Júlio Pomar, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Rui Chafes, Jorge Vieira e João Cutileiro. As obras dos artistas estrangeiros vão a leilão em Paris.

O Sporting defronta hoje o Rio ave no Estádio dos Arcos, em Vila do Conde. Os vilacondenses não podem contar com Gelson Dala, jovem talento emprestado pelo Sporting. As regras que impedem os emprestados de jogar contra a casa mãe pretendem afastar qualquer suspeita da existência de toupeiras dos grandes nos clubes pequenos. Será o primeiro desafio a sério do novo treinador do Sporting, Marcel Keizer.

No fim de semana, os primeiros classificados ganharam os seus jogos: o Benfica goleou o Feirense por 4-0 e Rui Vitória transformou os assobios em aplausos, o Braga ganhou tranquilamente ao Moreirense e o FC porto foi salvo pelo suplente Hernâni que marcou o golo da vitória aos 95 minutos. O treinador Sérgio Conceição foi outra vez expulso, desta vez por ter exagerado nos festejos do golo. O clube queixa-se de “perseguição”.

A FIFA entrega hoje a Bola de Ouro para o melhor jogador do mundo deste ano. Um agente infiltrado deixou escapar a informação de que o troféu deverá ser entregue a Luca Modric, o craque croata que venceu a Liga dos Campeões e levou a seleção à final do mundial. Em dez anos, é a primeira vez que o troféu não é entregue a Ronaldo ou Messi. E é justo.

A Inspeção Geral da Administração Interna vai investigar as agressões a formandos da GNR durante um treino conhecido pelo Red Man. Um agente duplo faz de mau e obriga os recrutas a defenderem-se com um bastão. Vários recrutas foram internados com narizes partidos, dedos fraturados e lesões oculares. Num dos casos, as lesões são irreversíveis. O caso foi divulgado pelo JN e há um vídeo no youtube que demonstra a brutalidade do treino. Em 2013, dois recrutas da PSP foram feridos num treino semelhante. Um chefe e um subcomissário foram suspensos pela PSP e condenados a 17 meses de prisão com pena suspensa.

O Papa Francisco vem a Portugal em 2022. O Jornal de Notícias diz que o “anúncio da vinda do Papa gera mal-estar na igreja e na presidência” porque a revelação devia ter sido feita pelo líder da igreja católica.

O sumo pontífice foi entrevistado para o livro “A Força da Vocação”, de Fernando Prado e segundo várias agências internacionais é citado a dizer que está “preocupado” com a homossexualidade na igreja, onde não “há lugar para esse tipo de afeição”. O religioso argentino considera “um erro” argumentar que ter gays nos conventos “não é assim tão grave”.

Outras manchetes

No Público, o destaque vai para uma notícia sobre Educação: “Professores em risco de não terem progressão nas carreiras em 2019”. O jornal explica que o Governo vai aprovar esta semana um diploma que reconhece dois anos e nove meses de tempo de serviço, ao contrário dos nove anos, quatro meses e dois dias exigidos pelos professores. E avisa, ou ameaça: se o presidente vetar ou o Parlamento chumbar, apenas está obrigado a negociar sem qualquer prazo.

O Correio da Manhã destaca uma frase de Jorge Jesus, antigo treinador do Sporting: “Bruno de Carvalho mentiu em tribunal”. O técnico diz que o ex-presidente do sporting a mudar a hora do treino no dia em que 50 adeptos atacaram a Academia de Alcochete.

O I segue o caso das vacinas aprovadas pelos deputados sem o parecer dos especialistas e diz que as “Famílias gastaram este ano 20 milhões com vacinas da meningite B e rotavírus”, duas das novas vacinas do plano nacional. O jornal diz a inclusão das novas vacinas vai custar mais 44 milhões de euros por ano.

No DN, a manchete vai para os motins de Paris e a imagem principal para uma família cuja vida mudou para melhor depois do nascimento de Bernardo “que não vê e quase não fala ou anda”.

No Observador, às 8h10, a manchete é feita com uma entrevista a Maya Wang, da Human Rights Watch: “Na China todos sabem que estão sempre sobre vigia”.

No Jornal Económico a visita do presidente chinês é antecipada: “EDP e rendas de energia marcam visita do presidente chinês a Portugal”

Frases

“Viver não é só respirar”

Eduardo Jorge, tetraplégico em protesto em frente à Assembleia da República.

“As pessoas estão fartas das mesmas caras”

Pedro Santana Lopes, ex-presidente das câmaras de Lisboa e Figueira da Foz, do Sporting e ex-líder de um breve Governo na apresentação de Paulo Sande,, assessor de Marcelo Rebelo de Sousa e candidato do seu novo partido Aliança às eleições europeias.

“Não somos favoritos”

Fernando Santos, selecionador nacional, no sorteio para o próximo Europeu em que Portugal vai defender o título conquistado há dois anos em França.

“Até parece que a homossexualidade está na moda”

Papa Francisco, citado no livro “A Força da Vocação”

“A comunidade portuguesa está bem”

António Costa, sobre os motins de Paris.

O que eu ando a ver

The Sinner

Derek Simonds

O tema desta série da Netflix já tinha sido fixado por Fernando Pessoa no “Livro do Dessossego”: “Todos temos por temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer”. Bill Pulman é Harry Ambrose, um velho detetive da polícia que ainda se inquieta com os crimes cometidos por pessoas comuns. Talvez porque ele próprio não seja assim tão santo como possa parecer. Na primeira temporada, uma mãe de família mata um homem sem aparente razão; e na segunda, uma criança de 11 anos torna-se suspeita de um duplo homicídio. Mais do que quem matou, a trama centra-se no porquê? Não é uma série de mistério policial, mas uma viagem ao lado negro de cada um de nós. Pode não parecer, mas até é uma visita divertida. Pulman, um ator com papéis secundários em muitos filmes e blockbusters e o protagonista do devaneio Lynchiano “Estrada Perdida” é brilhante no papel do ambíguo Ambrose. E só por si uma razão para que siga o meu conselho. Veja.

O que ando a ouvir

“Murder Ballads”

Nick Cave

A única vantagem de morar a trinta quilómetros do trabalho e apanhar transito com alguma frequência é poder ouvir um álbum do principio ao fim, como no tempo em que havia vinis e cassetes. A fita da minha “Muder Ballads” enrolou-se no autorrádio de um Jetta que já não está entre nós e só agora comprei o CD. Tal como os protagonistas destas canções de Nick Cave, também eu merecia a pena de morte, eu sei, mas às vezes é bom ficar um par de anos sem ouvir um álbum na íntegra e redescobri-lo depois. Esta talvez seja a obra prima do cantor australiano (o homem que melhor soube envelhecer [envelheceu?] no universo rock) e já me tinha esquecido que “Death is no the end”. Mas oiça-o antes que ela chegue.

Para este curto é de facto o fim.

Hoje é dia da Morna. Oiça uma. Cesária ou Ildo Lobo, por exemplo.

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