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Expresso

Ricardo Costa Diretor de Informação da SIC

Terna é a noite

30 de Novembro de 2018

Todos sabemos o valor de uma noite de sono. Mas ontem ficámos a saber que pode mudar a vida de milhões de adeptos e salvar a cadeira de sonho de um só homem.

Rui Vitória já pode mandar tatuar no braço esquerdo a frase “nada como uma boa noite de sono”. E deixar para o braço direito a expressão “a noite é boa conselheira”. Ou trocar a camisola da Emirates pela do Valdispert.

A sabedoria popular tem mais frases à volta desta ideia e é natural que o treinador do Benfica já as saiba de cor. Foi salvo por uma noite sono e o país foi deitar-se a saber disso.

A conferência de imprensa de Luís Filipe Vieira foi pouco habitual, por várias razões. Porque vinha desmentir notícias que tinham sido verdadeiras, porque contrariava tudo o que o próprio tinha pensado e dito (aos seus colaboradores) na véspera e porque teve uma sinceridade verbal desconcertante.

Foi uma luz que me deu”. Sim, leu bem.

Esta frase está na capa dos jornais, com um tom quase místico. Vieira não teve uma aparição a meio da noite, mas viu uma luz e teve um feeling, isso mesmo, um feeling. Vai daí, dormiu pouco – eu, por muito menos, nem durmo – e às 7 da manhã já estava a dizer a colaboradores seus que Rui Vitória afinal não saía.

Há alguma explicação, além da noite, da luz e do feeling? Claro que sim e é extremamente simples: o Benfica dispõe hoje da melhor academia de futebol portuguesa e tem uma linha de produção de jovens talentos que pode garantir por muitos anos o equilíbrio financeiro do clube. E quem os põe a jogar na equipa principal em vez de os despachar ao 19 anos via Jorge Mendes para o Valência, Mónaco e outros destinos habituais? Rui Vitória.

Foi por isso que ele foi contratado há uns anos e foi por isso que agora ficou. Porque o projeto empresarial de Luís Filipe Vieira e Domingos Soares de Oliveira (de longe o melhor gestor que uma SAD já viu em Portugal) já não quer camionetas de sérvios e argentinos. Quer que seja a carreira do Seixal a fornecer a equipa principal da Luz e que daí só saiam jogadores a valerem fortunas.

Estão certos? Sim, mas têm um problema. É que as noites dos sócios e adeptos são passadas a pensar em golos e títulos. Nenhum sócio acorda a meio da noite a pensar no cashflow operacional ou nas contas consolidadas. Quer é ganhar. Pois bem, a almofada de Vieira não pensa como a dos adeptos.

Guardem os lenços brancos. Foi para o lado que ele dormiu melhor.

Vamos ao resto do Expresso Curto, que me fez dormir pouco e não me trouxe nem um raio de luz. Só um feeling de que ainda tenho muito que escrever. Vamos a isso.

Outras notícias
Até parece de propósito, mas vou ter que arrancar com uma notícia bizarra de futebol. O jogo entre os argentinos do River e os argentinos do Boca, que foi sucessivamente adiado por graves razões de segurança, vai jogar-se em Madrid no domingo, dia 9.


Porque é que esta notícia é bizarra? Porque uma cidade, Buenos Aires, e um país, Argentina, que não consegue organizar uma final de futebol, recebe este fim de semana a cimeira do G-20. Extraordinário.

Estejam atentos, não vai ser uma qualquer cimeira. Primeiro, já foi notícia porque Donald Trump cancelou o encontro a dois, programado com Vladimir Putin, por causa dos seus tiques de Romanov em águas do Mar Negro.

Putin vai ser olhado de lado na Cimeira mas está cheio de sorte porque há um convidado para quem só se olha de esguelha. Mohammed bin Salman, o príncipe saudita que é suspeito de ter ordenado o assassinato de um jornalista crítico na Turquia, chegou a Buenos Aires na quarta-feira.

Quem apertará a mão em público a MbS, o acrónimo porque é conhecido o líder de facto do Reino Saudita? Provavelmente todos, a selar o célebre jogo “eu vendo-vos o meu petróleo, vocês vendem-me as vossas armas”. Theresa May já disse que o vai confrontar, Erdogan garante que não esquece a afronta e Trump , claro, há de fazer das suas.

O ponto chave da Cimeira é o que ocorre no encontro entre o Presidente dos EUA e Xi Jinping. Em plena guerra comercial, com os dois países de armas desembainhadas, há sinais de que as tréguas podem estar a chegar. Mas é difícil antever algo de sólido, porque Trump só confia nos seus instintos e vem de umas eleições intercalares onde perdeu gás nos estados do Sul. E o medo do papão chinês é uma poderosa arma eleitoral em muitos estados americanos.

Vamos ver o que nos preparam os dois homens mais poderosos do mundo.

Já agora, Angela Merkel deve chegar atrasada porque o avião em que viajava teve problemas técnicos quando sobrevoava a Holanda e aterrou de emergência em Colónia.

Ainda na frente Trump, mais uma grande dor de cabeça para o presidente americano. Michael Cohen, o seu ex-advogado – e que durante dez anos foi o “fixer” de todos os problemas jurídicos de Trump – assumiu que tinha mentido no Congresso sobre as relações de Trump com a Rússia por causa da construção de um edifício em Moscovo, e tudo isto já durante a campanha eleitoral.

Fiz essas declarações para serem consistentes com as declarações políticas do Individuo 1 e por lealdade para com o Indivíduo 1”. Esta é uma das frases agora ditas perante um tribunal. O Indivíduo 1 é Donald Trump.

Por cá, o Correio da Manhã faz manchete com um ex-Indivíduo 1, agora a viver na Ericeira. E diz que a casa onde está José Sócrates foi comprada pelo seu célebre primo, José Paulo.

O Expresso já adiantou muita informação sobre o caso. E é mesmo assim: um dos dois alegados testas de ferro de José Sócrates no processo Operação Marquês, acusado de dois crimes de branqueamento de capitais, é o dono do apartamento na Ericeira para onde o ex-primeiro-ministro se mudou em novembro.

O empresário em Angola e primo direito do antigo líder do PS, José Paulo Bernardo Pinto de Sousa passou a ser o proprietário do imóvel na Ericeira a 16 de outubro de 2018, através de uma dação em pagamento, num formato que não implicou qualquer transferência de dinheiro.

O Público puxa para manchete um tema grave e que mostrou uma nova face do Parlamento: a dos deputados vacinadores. Ouviu vários ex-ministros e todos denunciam que sofreram pressões da indústria farmacêutica para introduzirem vacinas como obrigatórias. Mas o que agora aconteceu é novo. Talvez os deputados queiram passar a andar de bata…

O JN revela que o governo congelou a lei que previa ajudas e comparticipação nos tratamentos termais, atirando a solução lá mais para a frente.

Economistas propõem 35 medidas para que peritos e cidadãos consigam entender o Orçamento do Estado. É a manchete do site do Expresso hoje de manhã. É que estes Economistas do Institute of Public Policies/ISEG querem acabar com a alegada opacidade do Ministério das Finanças e aumentar a transparência, o rigor e a responsabilidade política pelo Orçamento do Estado. Boa sorte.

A China suspendeu as investigações do cientista que reclama ter criado bebés geneticamente manipulados. O vice-ministro da Ciência e Tecnologia de Pequim, Xu Nanping, condenou ontem a o trabalho da equipa de cientistas que revelou esta semana ter criado os primeiros bebés geneticamente manipulados. O incidente “violou as leis chinesas e as barreiras éticas”, disse: “É chocante e inaceitável”.

Está-se mesmo a ver que o cientista vai ter que ir a pé rumo à Mongólia para pensar na vida, mas ficámos todos s saber que a manipulação pode ser feita e que, mais tarde ou mais cedo, vai ser feita.

Frases (especial LFV – late fluent vintage)
Fui visitado por um feeling, uma luz".


"Esta foi uma decisão que foi muito amadurecida durante a noite”.

Dormi no Seixal e meditei bastante. Dormi muito pouco e a pessoa que primeiro soube da decisão foi o Tiago Pinto, as 7h30, que ficou perplexo"

O que eu ando a ler
Vou recomendar pela segunda vez um artigo da Revista brasileira Piauí. Nas últimas semanas, a atenção ao Brasil e a Bolsonaro diminui, o que é pena. Este artigo de Malu Gaspar, com o título “Hora de Acordar” é uma crítica poderosa e realista ao falhanço do jornalismo na cobertura do fenómeno Jair Bolsonaro, antes e agora.


É um texto muito importante e contra-corrente, que merece ser lido por todos e não apenas por jornalistas, polítcos ou académicos interessados por estes temas.

Malu Gaspar parte desta simples pergunta: “Será que nós, jornalistas, vamos continuar a repetir, no governo Bolsonaro, os mesmos erros cometidos na campanha eleitoral?

A repórter da Piauí diz que há muita autocrítica a ser feita pela imprensa quanto à cobertura das eleições, mas é frontalmente contra a ideia que responsabiliza a imprensa pela ascensão ou normalização de Bolsonaro. E explica bem pique os jornalistas e muitos críticos da imprensa “não estão entendendo nada”.

Deixo apenas o parágrafo final deste magnífico texto.

Há uma nova ordem política emergindo, por força das urnas, e o jornalismo não pode mais perder tempo se escandalizando com ele. Que a esquerda (brasileira) esteja perdida ou em crise de identidade é compreensível e natural. Mas o jornalismo profissional não tem (ou não deveria ter) nada a ver com isso”.

O trabalho diante de nós é gigantesco, e tem de começar com uma reflexão sobre os vacilos, os pré-julgamentos, os erros e a (auto)complacência que turvaram a nossa visão nos últimos tempos. Só assim poderemos aprender com o que aconteceu e não mais deixar a história desfilar na nossa frente como se fosse um vídeo bizarro do YouTube”.

Não me lembro de um texto tão bom sobre o jornalismo e ascensão de Trump ou a vitória do Brexit.

Boa sexta-feira. Já sabe, amanhã há Expresso nas bancas, mas até lá o mundo roda e há uma noite que nos pode trazer conselhos surpreendentes.

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