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Expresso

Vítor Matos Editor de política

"The Uncivil War". E propaganda purex

26 de Novembro de 2018

Bom dia!

Vamos sentir falta dos britânicos, é uma pena. Só mesmo os anglo-saxónicos para fazerem um filme sobre o que aconteceu antes de se conhecer o resultado do acontecido. A semana passada, o Sunday Times trazia uma entrevista com Dominique Raab, o ministro do Brexit que se demitiu em choque com Theresa May, a dizer que se Bruxelas não aceitasse um acordo "razoável" para o Reino Unido, os britânicos deviam mostrar que estavam disponíveis para virar as costas e "ir embora" em modo "hard Brexit". E oferecia a manchete ao jornal dizendo que o país não devia fechar o acordo sem garantir que não seria "subornado, "chantageado ou alvo de bullying" por parte de Bruxelas. Acontece que o acordo foi fechado ontem com os governos do continente unidos.

Uma semana depois (ontem) o mesmo jornal trazia um artigo sobre outro Dominique, um amigo do já citado Dominique: trata-se de Dominique Cummings, ex-diretor de campanha do Vote Leave. Na verdade, a história era sobre Benedict Cumberbatch, o ator que faz o papel de Dominique Cummings no filme The Uncivil War - que está a ser rodado pelo Channel 4 sobre os bastidores do referendo do Brexit que nos trouxe até aqui. Sucede que Cumberbatch - o mais moderno dos Sherlock Holmes -, tem discutido com os guionistas por entender que a sua personagem, responsável por uma campanha recheada de fake news, e co-responsável por uma das decisões mais gravosas para o povo do Reino Unido, estará caracterizada de forma demasiado ligeira e positiva e devia ser mais obscura, "darker", escreve o jornal.

Ora esta é mais uma discussão em cima de todas as outras discussões que os britânicos têm tido e, embora nos possa parecer um pouco ligeira, tendo em conta a seriedade do que está em causa, revela aquilo que está diante dos olhos de toda a gente: o Reino Unido continua profundamente dividido quanto a um tema que vai mudar não só a vida dos britânicos, mas a vida da Europa. Aquilo diz-nos respeito. Por isso ontem foi um dia tão importante: a aparente ficção da saída do Reino Unido da União Europeia tornou-se realidade de tal forma que os ficcionistas do Channel 4 a querem transformar já em realidade ficcionada. O que se vê num écrã de televisão ou de cinema tem muito mais força que a realidade. O título, The Uncivil War, cuja tradução direta para o português é impossível, é totalmente apropriado. Por isso, Cumberbatch quer que o guião seja reescrito. Afinal é o que hoje todos pedem. Nesta história, toda a gente quer (ou gostaria) de reescrever o guião do mundo: os brexiters que não estão contentes com o acordo do Brexit, os remainers que também renegam o acordo e preferiam ficar na Europa, alguns como os trabalhistas e Jeremy Corbyn até defendem um novo referendo por haver sinais de que a opinião pública já mudou, assim como muitos europeus e até as instituições da União Europeia.

Acontece que o mundo não se escreve assim. "Os 27 aprovaram, está aprovado", escreve aqui a Susana Frexes, correspondente do Expresso e da SIC em Bruxelas. "O Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia está fechado e o recado para o parlamento britânico é o de que não há margem para mais renegociações. Um discurso de pegar ou largar feito à medida dos deputados conservadores, unionistas e trabalhistas que continuam a contestar o tratado jurídico de divórcio e a ameaçar chumbá-lo na Câmara dos Comuns".

O guião da Europa é claro. As 585 páginas do acordo para a saída dos britânicos são para valer, ponto final. Reescrevê-las? Não, garantiu Jean-Claude Junker: "Aqueles que acham que ao rejeitarem o acordo vão conseguir um melhor, ficarão dececionados." António Costa secundou-o: "Fantasias" e "não há alternativa". Angela Merkel descreveu assim o texto que está a dividir os britânicos: "Criámos uma peça de arte diplomática".

Pode saber o que está previsto no acordo da polémica neste artigo do Miguel Prado onde se explica: "O que é afinal o Brexit? 10 pontos essenciais para compreender a declaração aprovada pela UE".

Agora a bola passa para o Parlamento britânico. Theresa May ainda não tem garantido que o acordo vai ser aprovado sequer pelos deputados do seu partido Conservador. Se chumbar, teremos mais uma crise: seja o hard Brexit, ou uma crise no Governo britânico.

TRÊS ANOS DE GOVERNO: PROPAGANDA PUREX

Há poucas fotografias do triunvirato da 'geringonça', mas esta é uma bela peça para eventualmente ser usada como arma de marketing político, embora talvez nem todos os protagonistas possam ver nela o mesmo sentido. António Costa a cumprimentar Catarina Martins, mãos nos ombros, ela com o cachecol de "campeões" ao pescoço, enquanto Jerónimo de Sousa olha embevecido, com a mesma faixa futebolística com as cores nacionais sobre o blaser. Futebol, união, felicidade, a Europa é nossa mas também campeões de outras coisas políticas, o sucesso da solução governativa, é a mensagem que lá está. A fotografia pode ser vista aqui, neste conjunto de 36 imagens, e é da autoria dos fotógrafos oficiais de São Bento (Clara Azevedo ou Paulo Vaz Henriques). O Expresso publica uma fotogaleria a preto e branco com bastidores destes três anos de Governo, onde além das fotos de gabinete com o primeiro-ministro a estudar dossiês, vêmo-lo a andar de avião, de bicicleta, de helicóptero, à boleia com Marcelo Rebelo de Sousa, ou junto da mãe ou com a mulher, ou a beber um copo com amigos ou de braços abertos, como se fosse voar. É o que Costa quer, em direção à maioria absoluta. Por isso hoje está declarada a abertura da época eleitoral.

Para comemorar a longevidade destes três anos de um Governo em que ao início poucos acreditavam, António Costa responde esta manhã a um painel de cidadãos em Braga, à semelhança do que fez no ano passado em Aveiro para dar uma ideia de abertura aos cidadãos e de que presta contas aos portugueses. Em simultâneo, em Lisboa, o Parlamento começa a votar o orçamento na especialidade. Na sexta-feira passada, assim que acabou a visita do presidente angolano João Lourenço a Portugal, o primeiro-ministro deu uma longa conferência de imprensa sem assunto pré-determinado onde os jornalistas que aparecessem podiam colocar as perguntas que entendessem. E hoje devemos ouvir Costa a repetir as mesmas respostas que deu na sexta-feira. A máquina da propaganda está em marcha. A campanha eleitoral já começou.

Se por um lado o primeiro-ministro revela uma enorme segurança - lembram-se do último primeiro-ministro que deu uma conferência de imprensa assim, livre e sem limites de perguntas nem de tempo? -, por outro prova que o discurso eleitoral está feito, preparado e blindado. Costa tem a conversa decorada, as garras afiadas e os adversários identificados. .

A campanha eleitoral está aí, mesmo que o Orçamento do Estado ainda não tenha sido aprovado. Enquanto todas estas iniciativas estavam em marcha, os socialistas realizavam as suas jornadas parlamentares em Portimão, no Algarve, durante o fim-de-semana. António Costa foi lá dizer aos parceiros de esquerda para não sentirem “a tentação de apresentar propostas para eleitor ver”. Na sexta-feira já criticara o Bloco de Esquerda por ter como objetivo "não o combate à direita, mas enfraquecer o resultado eleitoral do PS". Já se percebeu há meses qual é, para já, o alvo dos socialistas à sua esquerda.

Ao mesmo tempo, também no Algarve, Carlos César ensaiava o discurso da maioria absoluta: a direita “perdeu a cabeça” e a esquerda está “pouco preparada para a governação”, disse aos deputados no encerramento das jornadas parlamentares. Esta quinta-feira, dia 29, o Parlamento aprovará o Orçamento do Estado e António Costa fará o discurso de encerramento. A seguir, todos os partidos estão livres para começar a luta do novo ciclo. Todos em campanha até outubro de 2019.

OUTRAS NOTÍCIAS

António Costa continua a ser António Costa. Ana Sá Lopes assina o editorial no Público onde evidencia a falta de empatia do primeiro-ministro. "Foi por falta de empatia que Costa reagiu como reagiu aos incêndios do ano passado, foi por falta de empatia que quando abriu pela primeira vez a boca para falar da queda da estrada de Borba, depois de vários dias em silêncio, o que lhe ocorreu dizer foi que não havia 'evidência de responsabilidades do Estado'". Não é uma embirração de jornalistas. Há um padrão. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa - o sr. empatia - já o tinha notado ontem, com uma declaração meio jurídica, mas que tem tudo de política e até pessoal. O Presidente foi a Borba, o primeiro-ministro não foi, e se Costa acha que o Estado não tem responsabilidades, Marcelo acha que sim e explica-o, como noticiou ontem aqui a Ângela Silva: "O professor de Direito e o aluno. Marcelo e Costa em fricção sobre Borba".

Se o caso de Borba vai continuar a fazer correr tinta, também o dos estivadores do Porto de Setúbal, que reúnem pela primeira vez esta segunda-feira com o Governo. A ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, convidou este domingo 13 entidades para aquela que será a primeira reunião entre o Governo, a administração do Porto de Setúbal e os sindicatos para discutir a situação dos estivadores.

As votações do Orçamento do Estado na especialidade começam hoje. As principais incógnitas são as carreiras dos professores e o IVA das touradas - que vão continuar a dar que falar até porque o PS está a preparar um diploma para haver touradas sem sangue - mas também a possibilidade de a Autoridade Tributária passar a dispor de dados que estão apenas na posse do Banco de Portugal: se depender dos deputados do PS, a proposta do Bloco de Esquerda pode ser aprovada, para controlar os contribuintes que aderiram a três perdões fiscais que permitiram legalizar seis mil milhões de euros escondidos no estrangeiro e amnistiaram os crimes fiscais associados. Resta saber o que pensa António Costa.

Qual é a parte do não há dinheiro que ainda não perceberam? Todas somadas, as propostas da oposição valem €5,7 mil milhões, diz o Governo. Mas a margem para cedências não ultrapassa os €50 milhões.

Afinal, a Santa Casa da Misericórdia chegou a estar com um contrato preparado para entrar no Montepio, com uma primeira tranche de 170 milhões de euros para ficar com 9,18% do capital, avança o Jornal de Negócios. Em Dezembro de 2017, há apenas um ano, havia um esboço do contrato de compra de acções com data, preço, pormenores. Mas o negócio havia de cair pelo lado político.

Enquanto o Governo festeja os seus sucessos, há uma frente negra que continua a ser notícia. A CP continua sem soluções e agrava-se a crise na ferrovia. Todos os dias há comboios suprimidos e outros que somam atrasos porque o material está encostado nas oficinas. Medidas anunciadas tardam em concretizar-se e empresa não está preparada para enfrentar o pico de procura do Natal, escreve o Público.

Há políticos que rapidamente entregam todo o capital de que dispunham. Graça Fonseca, a ministra da Cultura, depois das declarações sobre as touradas e a civilização, manifestou alívio por não ler os jornais portugueses há quatro dias. Detalhe: é a ministra que tutela a comunicação social...

O Exército aceitou candidatos com nota negativa para o curso de sargentos dos quadros permanentes, noticia o Diário de Notícias. O curso iniciou-se há poucas semanas na Escola de Sargentos do Exército, que Marcelo Rebelo de Sousa visita esta segunda-feira.

Não é de hoje, mas de sexta-feira: se ainda não leu, veja este belíssimo texto do Bernardo Ferrão sobre a sua experiência pessoal e recente nos hospitais: "Como eu ganhei o Euromilhões no SNS."

O realizador italiano Bernardo Bertolucci morreu aos 77 anos de doença prolongada. Foi autor de filmes como O Último Tango em Paris, Os Sonhadores ou O Último Imperador que lhe valeo os óscares de melhor realizador e melhor argumento adaptado em 1987.

O Presidente da Ucrânia propôs a lei marcial depois da captura de navios pela Rússia. E com a escalada de tensão o Conselho de Segurança da ONU reúne hoje de emergência.

O México vai deportar 500 migrantes da caravana que está a caminho dos Estados Unidos da América, por terem tentado atravessar a fronteira "de forma violenta", disse o ministro do Interior mexicano.

As autoridades indianas estão a enfrentar dificuldades para recuperar o corpo de John Chau, o missionário norte-americano morto por uma tribo remota do Índico.

Na Nova Zelândia, 145 baleias deram à costa. As autoridades ainda estão a tentar salvar cerca de metade que estão vivas, mas é uma tarefa difícil e prepararam-se para eutanasiar os animais para lhes pôr fim ao sofrimento.

FRASES DO DIA

"Deputados deviam assumir com mais rigor a sua função", diz o constitucionalista Jorge Miranda ao Negócios.

"Uma coisa ótima de estar em Guadalajara há quatro dias é que não vejo jornais portugueses", afirmou a ministra da Cultura, Graça Fonseca.

"Rio terá de deixar a política se culpa no processo da escarpa ficar comprovada", avançou o ex-vereador Paulo Morais numa entrevista ao Jornal de Notícias.

"Não foram os problemas que desapareceram. Foram os moderados que desistiram de procurar soluções", escreve o social-democrata Miguel Pinto Luz no Público.

MANCHETES DO DIA

Público: "Governo não resolve crise na CP e supressão de comboios agrava-se"

JN: "Escolas só reaproveitam 10% dos manuais usados"

Correio da Manhã: "Berardo deixa buraco de 280 milhões na Caixa"

i: "Braga. Tribunal liberta núcleo duro de gangue violento"

Negócios: "Santa Casa teve contrato para pôr 170 milhões no Montepio"

O QUE ANDO A LER

Todos os anos vou como um peregrino ao Festival de BD da Amadora (que este ano foi entre 26 de outubro e 11 de novembro) para completar coleções, comprar novidades ou descobrir antiguidades, mas desta vez saí de lá mais surpreendido do que o costume com um livro: não levei só heróis habituais como o Corto Maltese, o Árabe do Futuro ou um Paul Auster no saco das compras, mas também monges de clausura visitados por um autor português com raizes no Alentejo que vive em Londres e tem dúvidas existenciais sobre Deus e a religião: Deserto/Nuvem (editora Chili com Carne) é uma novela gráfica original. Primeiro, porque é dois livros num só, que começam em cada uma da capas, ou melhor, em cada uma das contracapas: Deserto é sobre as visitas do autor, Francisco Sousa Lobo, ao Convento da Cartuxa, e a relação com os poucos e velhos monges com votos de silêncio que ainda lá vivem; Nuvem dá forma a 20 cartas de caráter sobretudo filosófico enviadas a um monge cartuxo; a ligá-los, uma planta desdobrável do convento dá ao livro uma textura de velho incunábulo, de lombada cosida à mão. É um belo objeto.

Mas não só. Sousa Lobo leva-nos em visita aos claustros, aos hábitos dos monges, à rotina e à perplexidade: seja-se religioso ou não, aquelas vidas suprimidas pelo silêncio naqueles espaços deixam-nos incrédulos. "Abdicam do humano em favor do etéreo?", questiona o desenhador (e arquiteto) numa das cartas. O próprio autor está em cima do muro entre os crentes e os não crentes, mas tenta compreender o ponto de vista dos enclausurados e exprime um assombro perante aquela resiliência e desistência da vida comum: "Há uma nuvem entre mim e os monges, uma admiração profunda deste lado", escreve. Francisco Sousa Lobo ganhou o prémio para o Melhor Álbum Português de BD em 2018. Percebe-se porquê. É merecido.

Mas nem só com novidades me deixei surpreender. A Cidade de Vidro (Asa), do escritor nova-iorquino Paul Auster - com desenhos de Paul Karasik e David Mazzucchelli - já foi editado em 2006, mas só o li agora. É a história de uma obsessão que leva a uma loucura, e que acaba como libertação. Um escritor de policiais torna-se num dos seus próprios personagens e aceita uma missão para investigar um caso estranhíssimo - inverosímil mas verdadeiro - que se torna a sua verdadeira vida. O próprio Paul Auster, autor do argumento, aparece a meio desta narrativa que não sei por que razão levei tantos anos a descobrir. É um pequeno grande livro (com destaque para o prefácio de Art Spiegelman, o célebre autor de Maus).

Riad Sattouf é o Árabe do Futuro (Teorema), um cartonista meio francês meio sírio que em 2014 editou o primeiro volume de uma novela gráfica onde conta a sua própria biografia - muito ao estilo precursor de Persépolis, a obra de Marjane Satrapi que já ficou famosa sobre a experiência de crescer no Irão dos ayatollas. Em Portugal, já vamos no terceiro volume do testemunho de vida desta uma criança de mãe francesa e pai sírio, que passa pela Líbia de Kadhafi e depois pela Síria de Bashar al-Assad, nos anos oitenta, com cruzamentos e viagens a Paris - onde se espanta com a civilização.

A viver hoje em Paris - o autor chegou a ser cartonista do Charlie Hebdo -, Riad Sattouf só começou a publicar a história depois da morte do seu pai, talvez a personagem mais forte dos livros: era um árabe moderno, ou era o que parecia no início desta série de novelas gráficas, mas quando regressou à sua aldeia Natal na Síria com a família, começou a mostrar-se dividido entre a tradição e a modernidade. As condições de vida eram uma tragédia mesmo para um professor universitário como o pai de Riad, mas eram sobretudo uma catástrofe para a sua mulher parisiense que nem um fogão conseguia ter, a não ser depois de obrigar o marido a comprar um aparelho em contrabando.

A realidade violenta nas escolas, a forma como as famílias funcionam - homens que assassinam as filhas solteiras que engravidam - a procura de um patrocinador no regime para subir na carreira, o ódio aos judeus como inimigos e demónios desde a infância, está tudo lá. Não é só uma biografia. É uma reportagem em três livros profundamente políticos.

Para terminar, uma edição de luxo de um clássico pela Arte de Autor, que já tinha colocado nos escaparates uma belíssima versão de A Balada do Mar Salgado: Corto Maltese a preto e branco, neste caso, o terceiro volume desta coleção, "Sempre um pouco mais longe", a tradução do italiano, de cinco histórias exóticas do aventureiro nos trópicos da América do Sul. Seja como for, Corto é sempre Corto.

Hoje fico por aqui. Espero que tenha uma boa segunda-feira e uma excelente semana.

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