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Martim Silva Diretor-Executivo

Bolsonaro a um passo de ser Presidente do Brasil. E as democracias um passo mais perto do abismo

8 de Outubro de 2018

MAURO PIMENTEL / Getty

Bom dia,
.... Não, caro leitor. Desculpe-me, bem sei que merece, mas eu é que não consigo começar uma newsletter a dizer bom dia quando no Brasil um fascista acaba de vencer a primeira volta das eleições presidenciais e está a um pequeno passo de se tornar líder de um dos maiores países do mundo e o maior país de língua portuguesa.

Não, este não é definitivamente um bom dia. É, antes, um dia para refletirmos com muito cuidado e ponderação sobre o que está a acontecer num mundo em que as democracias liberais, tal como as conhecemos e tal como Fukuyama decretou que seriam o 'fim da História', não páram de sofrer revezes neste início de século XXI. Os exemplos sucedem-se. Da eleição de Trump nos EUA à vitória do Brexit no Reino Unido. Do crescimento dos movimentos e partidos nacionalistas, autoritários e até anti-democráticos na Europa ocidental. Do recrudescimento dos movimentos populistas, venham eles da esquerda ou da direita. Putin, Maduro, Farage, Le Pen, Orban, Bolsonaro. Os tempos estão perigosos.

Quem é democrata não pode estar contente hoje, segunda-feira, dia 8 de outubro de 2018. Mas quem é democrata não pode desistir de defender e de lutar por aquilo em que acredita. Por uma sociedade mais aberta, mais inclusiva, mais respeitadora dos direitos dos outros, mais respeitadora das minorias. Por uma sociedade com menos muros, com menos medos, com menos ódios.

Vamos ao que se passa no país e no mundo.


Na última noite, Jair Bolsonaro venceu por dezassete pontos de diferença a primeira volta das eleições presidenciais no Brasil e está a um pequeno passo de ser eleito Presidente (a segunda volta, com Haddad, o candidato do PT que substituiu o preso Lula, é no dia 28). O candidato de extrema-direita ganhou em 16 dos estados brasileiros e arrasou nas maiores economias, como São Paulo, Minas e Rio. Mas foi o Nordeste do país a levar Haddad a uma segunda volta. Vão disputar a vitória precisamente os dois candidatos com mais altas taxas de rejeição do eleitorado, por paradoxal que pareça.

49 275 358
Foram quarenta e nove milhões, duzentos e setenta e cinco mil, trezentos e cinquenta e oitos os votos em Bolsonaro


O seu discurso de vitória foi peculiar. Não fez nenhuma intervenção às massas nem deu qualquer conferência de imprensa. Preferiu colocar um vídeo de 14 minutos no Facebook.

Claro que um português facilmente pensa no exemplo das presidenciais de 86 em Portugal, em que um candidato que na primeira volta perdeu por mais de vinte pontos para o primeiro classificado, na segunda volta conseguiu ser eleito. Mas este exemplo é um caso raro na ciência política e os dados apontam todos nesta altura para a eleição de Bolsonaro no dia 28. Ainda assim, aqui ficam algumas pistas para o que Haddad terá de tentar fazer para evitar o que parece ser o inevitável curso da História.

Aqui lhe deixo um perfil de Bolsonaro, escrito pelo Expresso em agosto, mas que obviamente ainda vale a pena ler. E aqui o texto resumo da noite eleitoral no Brasil, escrito pela Ana França, que esteve na equipa do Expresso que acompanhou ao minuto tudo o que se passou. Aqui fica o texto da Folha de São Paulo sobre o que aconteceu nas eleições.

Deixo algumas das tiradas de Bolsonaro, para o caso de achar que estou a exagerar:

"O erro da ditadura foi torturar e não matar”

“O soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um cobarde”

“Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso”

“Seria incapaz de amar um filho homossexual”

“Não te estupro porque você não merece”

“Mulher deve ganhar salário menor porque engravida


“Nem para procriador o afrodescendente serve mais”

“Parlamentar não deve andar de ónibus”

Pode consultar algumas das melhores frases e pérolas do pensamento bolsonariano aqui, aqui ou aqui


Se as eleições presidenciais brasileiras se decidissem só com o voto dos imigrantes brasileiros em Portugal, então Bolsonaro já estava a esta hora no Palácio do Planalto.

No Público, o diretor, Manuel Carvalho, fala em "eleição do desespero".

No meio das eleições, e do drama que representam, ainda há espaço para curiosidades. Como a que nos diz que durante o ato eleitoral foram apreendidos 3645 quilos de droga.


RONALDO E A ACUSAÇÃO DE VIOLAÇÃO
O Expresso publicou este fim de semana na íntegra, e em português, o artigo da Der Spiegel que abriu a polémica em torno da acusação de violação contra Cristiano Ronaldo. Leia, leia, leia. Porque se anda por este mundo é importante que as suas opiniões sejam o mais fundamentadas possíveis. É evidente que a investigação jornalística da revista alemã não quer dizer que a verdade seja exatamente esta. Mas permite mostrar a solidez da acusação contra o futebolista português. Leia, informe-se e decida pela sua cabeça. AQUI

Já agora, e a propósito do muito que fui lendo sobre o tema nestes dias, não posso deixar de manifestar o mais vivo repúdio (e mesmo nojo) pela forma como anda por aí a alastrar uma espécie de peste. A peste da vírgula. Ou melhor, a peste da adversativa. Aquela que leva tantos e tantas em pleno século XXI a afirmar, sem pingo de vergonha, coisas como "eu não sei o que se passou, mas que ela se pôs a jeito..." ou "só os dois sabem o que aconteceu naquele quarto, mas ela foi lá ter de livre vontade..." ou "os tribunais decidem, mas mulher séria não se comporta assim..."

OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro,

O fogo na zona de Sintra/Cascais dominou boa parte do noticiário nas últimas 48 horas. O incêndio, entretanto dado como dominado, fez 21 feridos, 20 deles operacionais no combate às chamas.
Em Cascais, o presidente Carlos Carreiras já está a pensar na reflorestação da área ardida.
A PJ está a investigar o caso.

No caso de Tancos, o Jornal de Notícias afirma esta manhã em manchete que "Líder da PJ Militar empurra encenação para subalternos". Segundo o jornal, Luís Vieira, até há pouco líder da PJM, e que se encontra em prisão preventiva por causa da encenação na recuperação do material roubado dos paióis, já garantiu nada saber sobre a simulação da entrega de armadas. No interrogatório a que foi submetido, o ex-diretor disse que só tratava de papéis e que não estava a par do dia-a-dia das operações
(ai como eu gostava de ser diretor assim...)

Esta versão parece colidir com a do major Brazão, que afirmou ao ser interrogado ter ido precisamente com o líder da PJM ao Ministério da Defesa contar ao chefe de gabinete do ministro Azeredo Lopes o episódio do encobrimento, e entregar-lhe um memorando dando conta do sucedido.

O Correio da Manhã afirma hoje em manchete que "26 em guerra por herança milionária". Refere-se a uma das querelas mais antigas que correm em tribunais nacionais, prendendo-se com uma herança da família Champalimaud.

Já o Jornal de Negócios titula hoje que a "Greve nos portos aumenta custos para exportadores". A paralisação dos estivadores está a afastar grandes armadores dos portos de Lisboa e Setúbal, garante o jornal.

No Público, pode ler-se em manchete que "Vítimas de enfarte têm 30% mais risco de morte se forem tratadas no Sul". Um estudo mostra que risco de morte nos hospitais públicos de Lisboa, Alentejo e Algarve é muito maior do que no Norte do país.

Morreu a farmacêutica e investigadora Odette Ferreira, pioneira na investigação e luta contra a SIDA.

A propósito dos vinte anos do Nobel da Literatura para Saramago, que hoje se assinalam, António Costa homenageou ontem o escritor com uma visita à terra onde nasceu e outra à sede da fundação com o seu nome, em Lisboa.

Deixo aqui também o texto de Miguel Esteves Cardoso, lido no Público, e no qual a propósito dos incêndios se elogia os nossos políticos.

No seu comentário dominical na SIC, Marques Mendes falou de dois ministros, deixando um conselho a um e uma previsão para o outro. Disse que Azeredo Lopes deve sair do Governo e que Mário Centeno não deverá ser ministro das Finanças no próximo Executivo.


Lá fora,

Eis um caso bizarro e que levanta imensas dúvidas. O chinês que lidera a organização internacional de investigação criminal Interpol, que tem sede em Lion, França, desapareceu no final de setembro, na sequência de um voo entre Estocolmo e a China. agora ficou a saber-se que as autoridades chinesas o têm detido, por violações da lei não especificadas. O organismo chinês que confirmou a detenção tem como função vigiar o comportamento dos funcionários públicos chineses (Meng Hongwei também é vice ministro chinês da segurança pública) e pode manter um cidadão seis meses em local secreto e sem qualquer contacto com o exterior.


Nos EUA, o debate em torno da nomeação de Brett Kavanaugh para juiz do Supremo Tribunal (são apenas nove, e com mandato vitalício, daí a importância do lugar) começou por ser político e ideológico mas acabou numa discussão sobre o comportamento sexual do candidato. No fim, a maioria republicana votou e aprovou a nomeação, e Kavanaugh já foi empossado no lugar.

O Five Thirty Eight já olhou para os dados e para a forma de votar dos juízes e conclui que vamos assistir muito em breve a um endurecimento da forma de decidir do Supremo norte-americano.

No início deste Curto falava de países que assistem a recuos democráticos. A Roménia é um desses casos. E neste país do leste europeu, o governo social-democrata impulsionou este fim de semana um referendo para impedir constitucionalmente o casamento de pessoas do mesmo sexo. Mas a participação popular foi de 20%, abaixo do legalmente necessário para a consulta ser válida.

Este fim de semana morreram Scott Wilson, actor da série Walking Dead, e sobretudo a cantora lírica Monserrat Caballé.

Uma jornalista foi morta de forma brutal na Bulgária (a cada semana um jornalista é morto no planeta). O caso já originou uma vaga de indignação.

Um acidente rodoviário no estado de Nova Iorque, envolvendo uma limusine que levava convidados para um casamento, fez duas dezenas de mortos.


DESPORTO

Antes da pausa para mais jogos da seleção, este foi fim de semana de campeonato. O Benfica venceu o Porto em casa, por um a zero (golo do ex-patinho feio Seferovic), ultrapassou a equipa de Sérgio Conceição e ainda beneficiou do empate caseiro do Braga frente ao Rio Ave para se chegar ao topo da tabela.

Derrotado de forma clara foi o Sporting em Portimão. A equipa de Peseiro foi goleada pelo até aqui último classificado, mas ainda assim o treinador do Sporting não pareceu excessivamente preocupado ou aborrecido.

Ainda sobre o clássico de ontem na Luz, destaco três textos que pode ler na Tribuna: este do Diogo Pombo, este do Azar do Kralj e este do Portaa19.

Lá por fora, destaque para a derrota do Real Madrid, pondo em perigo o lugar de Lopetegui. E para a vitória a ferros do Manchester de Mourinho, que deixou o português a respirar melhor. E para o golo de Ronaldo, que ajudou a Juventus a conseguir a décima vitória consecutiva.

Ah, e John Terry anunciou o abandono dos relvados aos 37 anos.

VIDA EXTRA
Na última semana lançámos mais um site do planeta Expresso, que tem o nome deste subtítulo e pode ser visto AQUI. Eis alguns dos artigos que merecem mais que uma espreitadela.

-Os melhores programas para ver na Netflix.
-As imagens dos bastidores de “Walking Dead”, que regressa esta segunda-feira.
-Lopes-Graça digital chega em junho do ano que vem.
-O famoso mercado do peixe de Tóquio que fechou as portas.
-A Moda Lisboa está de volta.
-Fomos beber uns copos com um especialista em degustação… de água.

-O vídeo da destruição de 1,2 milhões de Banksy.
-Um psiquiatra explica o medo do medo.


O QUE ANDO A LER

As últimas semanas foram dedicadas a consumir páginas muito diferentes. Primeiro, "Fear - Trump in the White House", a mais recente investigação jornalística daquele que é provavelmente o mais famoso jornalista do planeta, o norte-americano Bob Woodward (o do Watergate, que nos últimos anos se tem dedicado a escrever livros sobre os bastidores das presidências americanas). Um relato arrepiante sobre o que se passa no coração da Casa Branca, que tem aos comandos, como o próprio se classifica, o “Hemingway dos 140 caracteres” (referência aos textos na rede social Twitter).

Agora, ando às voltas com "Praia de Manhattan", o mais recente romance de Jennifer Egan, que me foi fortemente recomendado pelo coordenador de livros do Expresso, José Mário Silva. Que no texto que escreveu no jornal diz: “O mais recente romance da escritora norte-americana fixa um extraordinário retrato de Nova Iorque durante a II Guerra Mundial”.

Finalmente, e antes de me despedir, deixo aqui este texto sobre as novas trotinetas elétricas que desde o fim de semana estão disponíveis pela cidade de Lisboa. É mais uma solução de mobilidade colocada à disposição dos munícipes. Eu já usei, ainda que para efeitos meramente recreativos, e gostei.

Boa segunda-feira

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