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Miguel Cadete Diretor-Adjunto

Para acabar de vez com Serralves e outras histórias

27 de Setembro de 2018

Ontem ficou provado que a censura em Serralves era, afinal, uma farsa. Porque simplesmente não existiu no que respeita à exposição de Robert Mapplethorpe. Hoje, isto já se pode dizer com alguma segurança. Não tanto porque a acusação tenha sido sucessivamente refutada por Pacheco Pereira (“Eu não queria que uma pseudodiscussão sobre censura, que não existe, tenha um efeito negativo”), Isabel Pires de Lima (“a escolha das obras foi inteira e exclusivamente da responsabilidade do João Ribas”) ou Ana Pinho (“Em Serralves não há, nunca houve, sob a nossa responsabilidade, censura”), todos eles administradores da Fundação de Serralves e, portanto, parte interessada.

Mas porque a esse respeito talvez valha a pena ouvir Michael Ward Stout, o presidente da Fundação Mapplethorpe (“Não sei porque é que o João retirou as fotografias, não faz sentido nenhum”) ou Suzanne Cotter, a anterior diretora do Museu que deu início à produção desta no Porto (que não se revê nas acusações de ingerência feitas à presidente da fundação). Nunca nenhum dos envolvidos diretamente na controversa exposição falou em censura. Na verdade, nem mesmo João Ribas, o diretor de saída, utilizou alguma vez essa palavra quando o “Público” anunciou na passada sexta-feira a sua demissão. E no seu comunicado de ontem, cinco dias após a demissão, o próprio referiu “ingerências, pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística”. Aqui não se assistiu a uma tentativa de proibição, como sucedeu, por exemplo, na altura da estreia de “Je Vous Salue, Marie”, o filme de Jean-Luc Godard cuja estreia em Lisboa foi boicotada numa iniciativa do então presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, em 1985. O episódio é relembrado e relatado com graça e garbo por Manuel S Fonseca, colaborador do Expresso, no seu triste e recentemente finado blogue Escrever É Triste (Avé-Maria cheia de graça).

Censura não é exatamente “ingerência”. Mas é a assunção de que esta polémica assenta, afinal, num lamentável erro de gestão. Ao contrário do que julgaram os inúmeros cavaleiros da Liberdade surgidos nos últimos dias, este foi apenas um lastimável (e evitável, diria) conflito entre administração e direção, incapazes de se entenderem dentro de portas. Na verdade, apesar de Ribas ter tomado posse no início do ano, era há muito notório a falta de sintonia com a administração de Serralves.

Os primeiros sinais foram dados quando dos rumores iniciais sobre uma exposição de Joana Vasconcelos em Serralves. A esse respeito, vale bem a pena ler a longa entrevista que a própria deu à Revista do Expresso em maio (Joana Vasconcelos: a artista voraz – conteúdo fechado), acompanhada de uma nota na última página do primeiro caderno do Expresso em que a administração de Serralves demonstrava o seu apoio a esse acontecimento, aliás calendarizado para o próximo ano, depois da exposição sair do Guggenheim de Bilbao. Dizia Joana Vasconcelos, vencedora: “não tenho medo do excesso, nem da escala, nem da cor. E essa é uma estética que não acolhe o discurso de uma certa crítica”, após retumbantes êxitos de bilheteira no Palácio da Ajuda e em Versalhes. Por seu lado, João Ribas procurava esconder o seu desconforto com a pré-anunciada antologia da artista portuguesa, em julho, em entrevista ao “Público”: “Porque é que não divulgam se vão ou não receber a artista (Joana Vasconcelos)? Parece que há desconforto… - Eu não tenho esse desconforto. Este museu tem de ser aberto a todas as expressões culturais…).

Estava criada uma cisão, por ventura inexistente nos grandes museus, entre uma lógica de bilheteira e uma outra de determinada credibilidade artística. (O Expresso sabe que essa mesma divisão poderia ter afetado a exposição do realizador Pedro Costa, marcada para este próximo mês de outubro em Serralves, e salva in extremis nestes últimos dias.)

O conflito entre administração e a direção artística terá tomado outras proporções, como Isabel Pires de Lima, administradora executiva, deixou cair em entrevista ao Expresso, nomeadamente no que se refere à programação – que estaria atrasada – do próximo ano (“Ele está a preparar o próximo ano. A programação ainda não foi apresentada à administração. Está atrasado.”). É nesta mesma entrevista que Isabel Pires de Lima acusa Ribas de “deslealdade”, devido à entrevista que concedeu ao “Público” em que o diretor dava conta de uma exposição de Mapplethorpe sem qualquer restrição, ao contrário do que se verificou (“nesta exposição não há salas escondidas”, o que era contrariado por outras exposições, quase sempre controversas do fotógrafo norte-americano. No Grand Palais de Paris existiam restrições).

Talvez esta seja uma controvérsia já muito estafada e é certamente absurda: acusações de parte a parte depois de João Ribas ter vencido um concurso público internacional para diretor de Serralves há cerca de nove meses. É bom lembrar que seria nomeado por esta administração em janeiro. Hoje, é possível que um e outro sejam bem arrependidos das escolhas que fizeram. A ausência de confiança, partilha de um projecto comum, solidariedade e de um módico de cumplicidadecomo salientou João Fernandes, ex-director de Serralves e atualmente diretor-adjunto do Museu Rainha Sofia em Madrid - provocaram danos impensáveis numa instituição que nos últimos dias exibiu notavelmente e em simultâneo, parte relevante da coleção Sonnabend, Anish Kapoor e Robert Mapplethorpe.

Nunca se esperou que seriam os principais responsáveis de Serralves a borrar a pintura.


OUTRAS NOTÍCIAS

Morreu Helena Almeida.
Também expôs em Serralves, mas sem alarido e com ganho para todos. Os seus pares consideravam-na a artista portuguesa com maior reputação no estrangeiro, o que aliás era comprovado pelo valor a que as suas peças eram transacionadas no mercado. Celso Martins escreveu sobre uma das figuras mais notáveis do século XX português, filha de um escultor associado ao Estado Novo, Leopoldo de Almeida, cuja obra deixou uma lição: “elegância, leveza e visceralidade nunca foram inimigas entre si”.

O leitor que já está farto de assuntos que roçam a arte – e com alguma razão – deve dirigir-se de imediato para a narração e comentário do debate quinzenal que ontem aconteceu na Assembleia da República. A controvérsia em torno da deslocalização do Infarmed permitiu ao editor de política do Expresso escrever o seguinte após momentos de crispação do primeiro-ministro com o título “Costa não é um autocrata – repita cinco vezes”:

““Se isto fosse uma autocracia do António Costa, o Infarmed já estava no Porto.” Esta é de altíssima qualidade, para comprovar a humildade democrática de um líder que tem a certeza de ter razão, mas admite as limitações do seu poder. Gostávamos, assim, de fazer o seguinte exercício: se isto fosse uma autocracia do António Costa, que decisões tinham sido tomadas nestes últimos três anos? Era só para percebermos o que estamos a perder, quais são os constrangimentos que lhe coloca a “geringonça”, as leis e etc., porque o Porto sabe que a democracia lhe fez perder o Infarmed.”

(O Expresso Diário e o site do Expresso – bem como outros do grupo Impresa – sofreram ontem graves anomalias técnicas que se encontram sanadas. As nossas desculpas ainda que o problema seja de todo alheio à redação)

Caso de Tancos pode estar à beira de ser deslindado. O principal suspeito do armamento militar é um ex-fuzileiro, como conta Micael Pereira no Expresso Diário.

No entanto estão também envolvidas chefias da Polícia Judiciária Militar e da GNR. Um intricado enredo é agora resolvido e marca sem sombra de dúvida o final do mandato de Joana Marques Vidal à frente da Procuradoria Geral da República. Contou com a colaboração (leia-se pressão) do Presidente, do Ministro da Defesa (leia-se confusão) e do líder da oposição (leia-se Rui Rio) que nos últimos dias disse que já sabia disto tudo.

A tramóia está prestes a ser solucionada pouco mais de um ano depois de se ter descoberto o desaparecimento do equipamento bélico e um ano depois do seu ainda mais misterioso reaparecimento. João Vieira Pereira considera, provavelmente com justiça, que este é um filme rodado na Chamusca que cruza o talento de gente como os irmãos Coen e os Monthy Python.

Morte de triatleta conduziu a duas detenções. O desaparecimento de Luís Grilo, quando teria saído de bicicleta para um treino, que viria a reaparecer já cadáver a 130 km de casa, no distrito de Portalegre, já tem suspeitos. Segundo o “Correio da Manhã”, Rosa Grilo, a viúva, terá sido a mandante do crime, tendo contado alegadamente com a cumplicidade de um homem. Ambos foram detidos.

O último episódio do 2:59 é sobre violência sexual. Carolina Reis apresenta os tenebrosos números deste mundo, em vídeo: O único crime violento que aumentou em Portugal foi a violação. Em mais de metade das queixas de violação existe um relacionamento entre a vítima e agressor. O “Público”, a propósito, escreve hoje na manchete “Só 37% dos condenados por crimes sexuais cumprem pena de prisão”.

Quase metade dos candidatos ao ensino superior não conseguiram vaga. Em rigor, 9452 alunos foram colocados na segunda fase, foi há pouco divulgado pela Direção Geral do Ensino Superior. O total de estudantes que entraram nas universidades e institutos politécnicos é inferior em mil, face a 2017.

No Brasil, as eleições são quase tão animadas quanto as noites da Chamusca. A ex-mulher de Jair Bolsonaro, o candidato ultrarreacionário que lidera as sondagens da primeira volta, acusa-o de violência. É a manchete de ontem da insuspeita “Folha de São Paulo”: Ana Cristina Valle afirmou que temia ser morta e que a sua cabeça valia 50 mil reais.

Pensões a subir em Espanha. A maioria dos deputados aprovou uma lei que indexa as pensões à inflação real. A nova maioria revoga assim a lei aprovada pelo PP, em 2013 quando era maioritário, que permitia apenas uma subida de 0,25%. No “El País” confessa-se porém a incapacidade de fixar já uma fórmula concreta.

FRASES

“A não recondução da PGR é a decisão mais estranha do mandato da geringonça”. Cavaco Silva, ex-Presidente da República, em declarações aos jornalistas

“Temos 120 milhões para requalificar o Turismo”. Manuel Caldeira Cabral, ministro da Economia, ao “Diário de Notícias”

“Benfica – FC Porto à porta fechada? Não acredito no Pai Natal”. Pinto da Costa ao “Jornal de Notícias”

“Não fui mercenário”. Rúben Ribeiro, um dos futebolistas que rescindiu o contrato com o Sporting unilateralmente, em entrevista ao “Record”



O QUE ANDO A LER

Já aqui falei de um livro intitulado “Bread Is Gold” (Phaidon), assinado por Massimo Bottura e amigos. Massimo Bottura é um dos mais consagrados cozinheiros da atualidade. Ainda há poucas semanas a sua Osteria Francescana, em Modena, no norte de Itália recebeu o prémio de melhor restaurante do mundo na lista dos “50 Melhores”. Mas não é da Osteria de Massimo (a que nunca fui) nem das receitas que fazem parte do livro (mas não só) que agora vale a pena falar. “Bread Is Gold” é apenas mais uma peça de um projeto maior de Bottura dedicado à solidariedade. A ideia é simples: Massimo recorre à sua rede de contactos – os amigos - para colocar os mais conceituados chefes do mundo a cozinhar para os sem abrigo. Respeitando essa intenção, abriu um Refeitório em Milão e, mais recentemente, outro em Paris. Outros se seguirão, espera-se que em Lisboa.

Sei que nem toda a gente concorda comigo, mas alimentar o estômago pode ser um mester tão nobre quanto o de alimentar a alma. Não sou dedicado a chefs de fine dining (nem posso) mas acredito que as grandes civilizações se constroem assim, com arte e gastronomia.

“Bread is Gold” fala disso mesmo mas sem esta arrogância, associando “leveza, elegância e visceralidade” para provar que não podem – não devem? – ser inimigas entre si.

Também já falei aqui de Nick Cave. E algures escrevi que os seus espectáculos não são momentos de comunicação mas sim de comunhão com a plateia. Sinto-me por isso na obrigação de divulgar os Red Hand Files. Estes Red Hand Files são o desenvolvimento, por ventura natural, de debates que Nick Cave encetou durante a digressão deste ano que o trouxe ao Porto e que o colocavam a responder, ao vivo e a cores, às perguntas colocadas pelos presentes. Agora passou a fazê-lo por escrito.

Não admira por isso que neste segundo episódio, ilustrado com uma fotografia sua captada na Invicta, dê notícias (está presentemente num estúdio da Califórnia a gravar um novo disco com Warren Ellis), faça humor (“we have two family dogs. A gentle moony dog with sad eyes and cancer called Otis and a psychotic little dachshund called Nosferatu, whose one great enterprise in life is to bite me”) e mergulhe, como de costume nas profundezas da alma (“the natural world in my songs is less about the destruction of the environment and more concerned with the biblical notion of paradise, within which I can set my human dramas of suffering and transcendence”).

Seja como for, parece-me um sinal de sinceridade e solidariedade que é importante reter.

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