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Expresso

Oh Joana, pensar que estivemos tão perto

21 de Setembro de 2018

É simbólico que a tirada mais atrevida na questão Joana Marques Vidal tenha acontecido numa universidade; numa Universidade de Verão, é certo, e ainda por cima na Universidade de Verão do PSD, o que dá outro contexto, mas foi nesse espaço que Paulo Rangel lançou um soundbite arrojado: “fake Constitution”.

Para o eurodeputado, era “clarinho, cristalino” que, lendo a Constituição, “ela [Joana Marques Vidal] podia ser reconduzida”. Depois, juntaram-se José Silvano, secretário-geral do PSD, Assunção Cristas, presidente do CDS/PP – esta com direito a uma metáfora futebolística que me é querida, por razões óbvias -, na defesa da continuidade de Marques Vidal.

E porque o mandato da PGR termina a 12 de outubro, o espaço mediático foi rapidamente reocupado pelas interpretações à revisão constitucional de 97, pelas pressões políticas e pelos alarmismos: o que seria dos processos se Marques Vidal saísse agora, a Justiça tem de ser isenta, e por aí fora. E, a dada altura, chegou a ser noticiado que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa tinham acordada a continuidade de Marques Vidal.

Não foi assim.

Na noite de quinta-feira, já depois da flash mob “A Última Aula de Marcelo” ter terminado, o Presidente da República nomeou Lucília Gago para Procuradora-Geral da República. Porque o PR sempre “defendeu a limitação dos mandatos” em nome da “vitalidade da democracia”; e porque Lucília Gago “garante [...] a continuidade da linha de salvaguarda do Estado de direito democrático”.

[Nota: Joana Marques Vidal escolheu Lucília Gago para liderar o DIAP, em 2016].

Segundo o “Público”, a opção Lucília Gago já fora acertada oficiosamente entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa “há mais de uma semana”, mas mantida em segredo até ontem.

Logo a seguir ao anúncio, feito mais ou menos a meio do jogo do Sporting, vieram as reações:
O PS “saúda”, naturalmente, “a nomeação de Lucília Gago”.
O PCP recusa “pessoalizar” a questão, porque o que interessa, naturalmente, é o coletivo.
O CDS-PP espera mais do mesmo e o Bloco de Esquerda não comenta.

E ainda houve Pedro Passos Coelho, que escreveu uma carta a Joana Marques Vidal no “Observador”, culpando António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa pela saída. “Sobra claro que a vontade de a substituir resulta de outros motivos que ficaram escondidos”, lançou. Descomplicando: o antigo PM acha que o atual PM fez uma escolha política, justificando a decisão “na falácia da defesa de um mandato único”.

Curiosamente, o PSD – até à hora em que escrevo – não tinha reagido à notícia, pelo que ficámos apenas com a estranha e ambígua declaração de Rui Rio sobre este assunto. Eram 18h30, quando líder do maior partido da oposição compareceu numa conferência de imprensa a dizer o seguinte: por um lado, que compreendia se Joana Marques Vidal fosse reconduzida e apoiaria o Governo na questão; por outro, se Joana Marques Vidal não continuasse, que viesse alguém “fora do Ministério Público” para gerar um consenso nacional.

OUTRAS NOTÍCIAS
É consensual: Rio perdeu nos dois lados, e pode ter ainda perdido num terceiro. Noite dentro, o líder da distrital de Lisboa do PSD garantiu ao Expresso não ter recebido a carta enviada pelo vice-presidente Salvador Malheiro a exigir um “apoio inequívoco” a Rui Rio. “Mesmo que tivessem enviado, não teria assinado antes de reunir a minha comissão política. É uma coisa básica ao nível das instituições”. Se não é um levantamento de rancho, pelo menos parece.

Outros há que parecem ganhar em todo o lado. Marcelo é um deles. Num dia especial, estiveram lá quase todos: os ministros, os ex-ministros, os deputados, os ex-deputados, os alunos em abraços ou dando recados com toscos cartazes, os ex-alunos mediáticos e os casuais, a tuna, claro, os jornalistas e os diretos atropelados, e os ex-presidentes, Cavaco exclusivé. Lá fora para ninguém perder pitada, um ecrã gigante, totem adequado para o homem com quem 330 mil portugueses já tiraram selfies (contas de agosto) e para quem uma empresa decidiu criar uma app para o caso. E depois lá chegou o professor de há 40 anos, presidente da República Portuguesa há dois, a um discurso de 20 ou 30 minutos (depende das fontes) de se jubilar. Marcelo falou da casa mater, da casa mãe, citou Sebastião da Gama e Mariano Gago Sebastião da Gama. E despediu-se.

Lá fora,
Os líderes europeus comprometeram uma espécie de flexibilização na questão das migrações, mas endureceram o discurso relativamente ao Brexit.

O candidato às eleições presidenciais brasileiras Jair Bolsonaro foi capa da Economist pelos piores motivos - “A última ameaça da América Latina”.

Michael Cohen, antigo advogado pessoal de Donald Trump que decidiu dar com a língua nos dentes, tem-se encontrado repetidamente com os investigadores de Robert Mueller. Definitivamente, o caso deixou de ser apenas sobre os affaires do presidente, e há uma casa russa para desarranjar. Se quiser saber o que se sabe sobre as ligações Trump-Putin, leia e veja este extraordinário trabalho interativo do NYT.

No desporto,
O Sporting venceu o Qarabag na primeira jornada da Liga Europa e a Tribuna Expresso traz-lhe tudo: a crónica está aqui, tal como estão a contracrónica e as reações do treinador e do jogador-capitão-fétiche. Também temos novas sobre o infatigável Bruno de Carvalho, como não poderia deixar de ser.

O caso dos e-mails prossegue no Benfica prossegue ao ritmo do despejo das contas de correio eletrónico dos encarnados. Os últimos são de Paulo Gonçalves, agora ex-assessor jurídico do clube, e levanta suspeitas sobre o seu comportamento. As manchetes do “Correio da Manhã” e do “Jornal de Notícias” trazem outras histórias, com nomes de código e claques pelo meio.

FRASES
A fronteira com o Saara não pode ser maior do que a nossa fronteira com o México
O geógrafo e também homem-do-betão Donald Trump sugeriu que a Espanha construísse um muro.

Não saímos daqui tão unidos como a família Von Trapp, mas creio que estamos no bom caminho
António Costa, a.k.a Clark Gable, à saída da reunião de Salzburgo.

O QUE ANDO A LER
Moses E. Herzog
é um tipo peculiar a quem tudo começou a correr mal e ao mesmo tempo numa determinada altura: deixou a profissão por amor a uma mulher que sorrateiramente lhe fica com a herança e o trai com o melhor amigo, e ainda o proíbe de ver a filha. Herzog, escritor prolixo, começa então a escrever cartas imaginárias para quase toda a gente com quem se cruzou na vida (as ex-mulheres, o psicanalista), mas também aos seus heróis e filósofos preferidos ou nem tanto assim (Nietzsche), mantendo monólogos escritos extraordinários, carregados de ironias, autocomiseração declarada e assumida, queixas ou relatos. E este é, resumidamente, “Herzog”, de Saul Bellow.

Recomendo, por outro lado, que assista e interaja - assistir e interagir são os verbos indispensáveis - ao trabalho Multimédia Expresso do João Santos Duarte e do Tiago Miranda. Se bem se recordam, eles foram os únicos a ter acesso ao famigerado curso dos Comandos em que dois rapazes perderam a vida durante um duríssimo treino; agora, o João e o Tiago estiveram na República Centro Africana com os miúdos que se fizeram homens numa missão arriscada num dos territórios mais perigosos do planeta. Chama-se “É isto que resta quando o mundo acaba” e começa dessa forma:
-É para matar?
- É para matar.

Resta-me alertá-lo para a subida da temperatura e convidá-lo a passar os olhos pelo site do Expresso, da Tribuna Expresso e da Blitz. Às 18h, não se esqueça, há Expresso Diário.

Bom fim de semana.

P.S.: Sim, o título foi surripiado a Marco Paulo.

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