Siga-nos

Perfil

Expresso

A aula mais mediática de sempre

20 de Setembro de 2018

“Estamos a ser hipnotizados aos poucos por técnicos que não podemos ver, por motivos que não conhecemos. Agora somos todos animais de laboratório”.

Esta frase, de Jaron Lanier, refere-se às redes sociais e está no seu novo livro, a que voltaremos no fim deste Curto. Citamo-la aqui por duas razões: para pensar na notícia de há poucas horas de que o Facebook está a criar uma “sala de guerra” (aqui explicada pelo New York Times) para combater a sua própria influência em eleições, mitigar o impacto da desinformação, das notícias falsas e de contas falsas (no mesmo dia em que sabemos, por exemplo no The Verge, que a Amazon está a ser investigada por suspeitas de usar dados de terceiros para propor produtos a clientes); e porque este tipo de manipulação contrasta com aquilo que ensinamos ou aprendemos nas universidades. E, hoje, há uma aula muito especial em Portugal.

Pouco passa das oito da manhã mas pode já saber o que vai ver nos telejornais das oito da noite: a última aula do professor Marcelo. A sala estará cheia – de alunos e de jornalistas – e desta vez os operadores de câmara não serão expulsos*. A audiência será grande e não é só por ser um Marcelo ser um ultramediático, num país em que ele próprio também moldou a mediatização. É por ser um hiper-professor, que marcou gerações de alunos pela sua excentricidade, mas sobretudo pela sua vocação de pedagogo.

Se quer conhecer *esta e outras histórias do professor Marcelo, leia este texto do Vítor Matos, que noutras manhãs aqui lhe escreve. O editor de política do Expresso é não só um jornalista de duas mãos cheias, é autor da grande biografia de Marcelo Rebelo de Sousa que o próprio preferirá que não seja muito lida, porque mostra mais faces deste poliédrico homem do que aquelas que ele quererá que sejam conhecidas. Mas nesta face, a de professor catedrático, não há controvérsia: Marcelo está Presidente mas é professor.

“Rebelo de Sousa dá a sua última aula esta quinta-feira na faculdade onde entrou em 1966 como aluno. Começou a dar aulas em 1972. E dedicou uma vida àquela universidade: ensinar foi a sua vocação, mais que a política. Fez uma oral ‘gloriosa’ a Ana Gomes. Teve Durão Barroso a vigiá-lo. Pagou obras do seu bolso. Roubou um valor na nota do irmão, só por ser irmão. Avaliou a futura namorada. Nunca deu um 19 numa licenciatura, apesar de ter sido essa a sua média.” E histórias, muitas histórias, de um homem que hoje quererá inspirar mais do que impressionar. Assim seja. Assim o quererão ouvir. E isso será umas das notícias do dia.

OUTRAS NOTÍCIAS
A poucos dias de sabermos a decisão final sobre o próximo mandato do PGR, Carlos César, presidente do grupo parlamentar
socialista, defende que um mandato prolongado e único “permite dar maior liberdade a quem exerce o cargo”. Já sobre a possibilidade de Joana Marques Vidal ser reconduzida, Rui Rio responde: “Não, claro que não ficaria surpreendido


A Farfetch, fundada em Portugal, vai estrear-se esta semana na bolsa de Nova Iorque. Segundo o Eco, “há muitos interessados” e o intervalo de preços de venda das ações subiu.

Os professores vão marcar uma nova greve para a primeira semana de outubro. Em causa está ainda a contagem do tempo de serviço nas carreiras. Os enfermeiros estão hoje a amanhã de greve nacional, para pressionar o Governo nas carreiras de enfermagem, conta a Renascença.

O Governo autorizou o concurso para a construção do novo centro pediátrico no Hospital de S. João, no Porto.

A manifestação de ontem de taxistas contra a Uber reuniu 1300 profissionais do setor, mas no final não houve reações que mostrem medidas a favor das suas reivindicações. O PS não vai pedir fiscalização ao Constitucional da “Lei Uber”.

Os portugueses pagam mesmo muitos impostos? A resposta está no 2:59 desta semana.

O governo vai eliminar o imposto de produção elétrica para baixar a fatura da eletricidade. O governo… de Espanha. Ler no El Pais.

Ainda em Espanha, tem sido notícia diária a polémica de políticos suspeitos de terem plagiado partes das suas teses académicas. Agora, é o livro de Pedro Sánchez y Carlos Ocaña que é denunciado por copiar parágrafos de uma conferência de um diplomata (também no El Pais).

Tique-taque para fechar o acordo entre o Reino Unido e a União Europeia para o Brexit. Os termos estão ainda longe de estarem fechado, mas a primeira-ministra Theresa May diz que o Brexit não será adiado se não existir acordo (no The Guardian). António Costa vincou ontem que uma separação desordenada seria “muito má” para a UE e para Londres.

O acordo de desnuclearização entre Coreia do Norte e a Coreia do Sul, assinado na terça feira no meio de uma cimeira de três dias entre os dois países, está a ser visto nos Estados Unidos como sendo “extremamente vago”, o que pode ser uma má notícia (no Vox). Os norte-americanos estão dispostos a retomar “imediatamente” as negociações com a Coreia do Norte.

Na Venezuela, foram detidos 14 gerentes de duas redes de supermercados de portugueses, acusados de terem responsabilidades na falta de abastecimento de alguns produtos básicos nas suas lojas. A oposição questiona as detenções, acusando Maduro pela escassez de bens.

A Colômbia continua a quebrar recordes de produção de cocaína, revela um relatório das Nações Unidas, noticiado no The Guardian.

O Sporting joga hoje contra Qarabag, em Alvalade, no jogo de estreia na fase de grupos da Liga Europa (que pode ver às 20h na SIC e acompanhar na Tribuna Expresso). O analista de futebol Tiago Teixeira faz a análise tática no Expresso Diário.

Ontem, o Benfica perdeu em casa com o Bayern, por 2-0. Renato Sanches marcou e foi aplaudido na Luz. Já Cristiano Ronaldo foi expulso no jogo da Juventus contra o Valência e saiu a chorar: a expulsão é, no mínimo, duvidosa.

Foram divulgados novos emails do Benfica, que hoje estão na primeira página do Correio da Manhã e Jornal de Notícias. Segundo o CM, o Benfica terá tido acesso a documentos de árbitros. E também há indícios de “fruta” (prostitutas) neste caso.

A Folha de São Paulo lista “As 15 melhores praias de nudismo pelo mundo”. Três são em Portugal: a Praia da Adiça (também conhecida como praia da NATO), na Fonte da Telha, Almada; e a Praia do Meco, Sesimbra; e a Praia dos Alteirinhos, na Zambujeira do Mar.


FRASES
“[Marcelo] deve usar a popularidade para exigir as grandes reformas”. Pedro Santana Lopes, no nascimento formal da Aliança.

A guerra comercial pode ser uma oportunidade para a Europa”, diz Carlos Moedas.

“Quem não estiver atento ao que se passa não está a perceber nada”, afirma Augusto Santos Silva, em Luanda, sobre as relações entre Portugal e Angola.

"Ele não é fácil. Já todos o sabemos". Joseph Daul, presidente do Partido Popular Europeu, sobre Viktor Orbán.


O QUE EU ANDO A LER
“Vemo-nos hoje ligados a vastos repositórios de conhecimento e no entanto não aprendemos a pensar. Na verdade, o oposto é verdade: o que era suposto iluminar o mundo está na prática a enegrecê-lo”. A frase, sobre os efeitos colaterais da sobre-exposição às redes sociais, é de Jaron Lanier, no seu livro novo “Dez argumentos para apagar imediatamente as suas contas nas redes sociais” (tradução livre a partir da New Yorker).

Dediquemo-nos à iluminação e ao conhecimento, recomendando formatos longos de jornais estrangeiros. “What it’s like at the ground zero of climate change” é um trabalho na CNN, em que o fotógrafo Lucas Jackson, da Reuters, mostra imagens de um glaciar a “partir-se”, assim mostrando efeitos das alterações climáticas em tempo real. Porque “a perda de gelo na Gronelândia saltou dramaticamente nos últimos 20 anos.”

Também a partir dos Estados Unidos pode ler, na The Atlantic, o trabalho “American Weirdness: Observations From an Expat”, sobre a estranheza americana vista por uma jornalista que trabalha em Paris.

E, no Financial Times, o trabalho “How the biggest private equity firms became the new banks” é um capítulo sobre o mundo financeiro em que vivemos, dez anos depois da falência do Lehman Brothers, em que se desvela o poder dos fundos de capital privado enquanto “bancos”, que canalizam grandes investimentos com níveis muito menores de regulação.

Mas se o que procura é livros, então o sítio certo hoje é a Feira do Livro do Porto, que decorre até domingo. Não só para ler e comprar, mas para assistir e participar na programação, intensa e diversificada. Hoje, por exemplo, pode ouvir Ana Luísa Amaral sobre “A ideia de América na poesia americana” ou participar na sessão das Quintas de Leitura, dedicada ao tema “É proibido proibir”.

E é permitido permitir. Ler e pensar. Para ficar do lado de fora do mundo hipnotizado descrito na frase inicial do livro de Jaron Lanier. Tenha um excelente dia.

Partilhe esta edição