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Martim Silva Diretor-Executivo

Costa diz que Monchique é a excepção que confirma que está tudo bem. Verdade ou insensibilidade brutal?

9 de Agosto de 2018

Tiago Miranda

Bom dia,
Uma das missões, pelo menos da forma que a entendo, de quem faz este Expresso Curto é procurar transmitir ao leitor aquilo que de mais importante e significativo se vai passando em Portugal e no Mundo. Segue-se uma outra regra básica: ir lendo com atenção todos os Expressos Curtos de forma a conseguir ir dando novidades aos leitores, evitando repetições desnecessárias e provocar cansaço ao falar-se dias seguidos dos mesmos assuntos. Pois neste último ponto assumo aqui hoje a falha: não vou deixar de destacar os incêndios do Algarve, que na última semana dominaram as atenções mediáticas no país.

A milenar localidade que nasceu como Cilpes é uma das mais históricas cidades nacionais. Reconquistada definitivamente aos mouros por D. Afonso III, chegou a ser longamente considerada a capital do Algarve e foi a ‘casa’ do Infante D. Henrique antes de entrar num longo declínio de séculos. O fogo que tem assolado a região de Monchique na última semana rumou a sul e a leste e o foco concentrou-se nas últimas horas em Silves, é dela que falamos, e nas aldeias em volta. Felizmente sem vítimas mortais, mas com muita confusão no combate aos incêndios, com uma chuva de críticas e acusações sobre a operação, com populações retiradas das suas casas e com uma sensação amarga de um país que ainda não encontrou uma fórmula minimamente satisfatória de fazer face a este flagelo.

Perante as dificuldades, e ao fim de seis dias de um fogo que não há forma de ser controlado, ontem foi o próprio António Costa quem veio dar o corpo às balas. Fez bem, evitando assim repetir erros do passado. O Governo parece decidido a manter comando apertado sobre a situação.

Mas se isto é verdade, também o é que a situação é novamente delicada para o Executivo. Eduardo Cabrita andou dias a dizer que era tudo notável e depois veio anunciar a substituição do comando, que passou de distrital a nacional. E ontem António Costa não resistiu e voltou a mostrar uma faceta fria e quase gélida e insensível ao dizer que Monchique "é a excepção que confirmou a regra do sucesso da operação de combate aos incêndios" este ano.

A afirmação até pode, no limite, ter algo de verdade. Mas um chefe do Governo deve inibir-se de a dizer perante uma tragédia em que todos os dias pessoas perdem casas e povoações são evacuadas das suas habitações. E, finalmente, deve inibir-se de o dizer quando ao fim de uma semana ainda não se conseguiu controlar o incêndio de Monchique, apesar de para lá se terem despejado meios de combate como nunca antes se vira. É caso para dizer que sobram a Marcelo os afetos e sensibilidade que claramente escasseiam a Costa.

No Público, Henrique Pereira dos Santos, que sabe e muito sobre este assunto, considera que "ter um governo a lamentar-se de que teve êxito em todas as ignições menos numa, como se as consequências destes fogos fossem um azar, é deprimente".

No mesmo jornal, o novo diretor, Manuel Carvalho, diz que "não fica bem a um primeiro-ministro congratular-se com os milagres das políticas de prevenção do seu Governo." E acrescenta que ao contrário do que Costa afirmou, "Monchique é a prova de que ao primeiro teste difícil o aparato de combate aos fogos falhou".

Aqui e aqui pode ver o desespero de habitantes de Enxerlim, em Silves, com a aproximação das chamas.
Aqui outra reportagem da SIC dando conta das reações populares ouvidas ontem.
E aqui as críticas do vereador da Câmara de Monchique à atuação das autoridades.
E estas são imagens impressionantes de drone que mostram o céu algarvio, sempre tão azul, nesta altura escuro como breu.
E aqui se procura dar resposta a uma das mais significativas perguntas colocadas nos últimos dias: 95% do fogo chegou a ser dado como controlado e agora vai demorar dias a apagar: o que aconteceu mesmo em Monchique?
Aqui explica-se que parte dos meios aéreos em Monchique não utiliza agentes extintores no combate ao fogo

O tema ainda domina as primeiras páginas dos jornais de hoje:
"Fogos às portas de Silves fez disparar as sirenes no governo" jornal i
"Desafiam GNR e recusam abandonar casas" Jornal de Notícias
"Algarve debaixo de fogo" Correio da Manhã
"Regra de comando adoptada após Pedrógão ignorada em Monchique" Público, link aqui
O Observador e o DN, agora sem edição diária em papel, dão destaque ao assunto.

OUTRAS NOTÍCIAS
Cá dentro,

Nos dias de maior calor na última semana em Portugal ocorreram mais de 500 mortes, revelou a diretora geral de Saúde, Graça Freitas.

No meio do caos, novamente excelentes notícias em matéria de emprego, com a taxa mais baixa de desemprego no nosso país nos últimos 14 anos. Aqui no Expresso falamos sobre cinco boas notícias e uma sombra relacionada com estes números.

Numa altura em que muito se fala das dificuldades das empresas de transporte ferroviário, em particular a CP, e das consequências sobre os utentes, o Negócios revela que o setor teve mais de 100 milhões de euros cativados pelas Finanças, o que representa cerca de 16 por cento do total das cativações que ajudaram o ministro Mário Centeno a fazer um brilharete.

Funcionários sob ameaça e a viver um clima de medo. A denúncia é da Comissão de Trabalhadores do banco público, a Caixa Geral de Depósitos.

Comunistas querem repetir em 2019 a receita dos dois últimos anos e ver as pensões mais baixas a aumentarem pelo menos 10 euros. A ideia é também defendida pelo Bloco de Esquerda e está em cima da mesa negocial para o próximo Orçamento do Estado.

Portugal com a energia mais cara da Europa? Não é bem assim. Este é o título desta notícia. O melhor é ir lê-la.

O número de reformas é superior ao de novos médicos de família, titula o DN.


O festival do momento é o MEO Sudoeste, na costa alentejana, e tudo o que se passa por lá é para seguir aqui no Blitz.


Lá fora,
Manuel Charlin Gama. Foi detido, aos 85 anos, o mais veterano dos líderes do narcotráfico da Galiza.

O senado da Argentina rejeitou a lei para legalizar o aborto. O tema tem dado muita discussão no país e ainda ontem foi dia de grandes manifestações em Buenos Aires em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez.

Estados Unidos impõem novas sanções à Rússia por causa do caso Skipral

O primeiro-ministro canadiano, Trudeau, confirmou que o seu país vai manter as relações com a Arábia Saudita, apesar da expulsão do embaixador canadiano de Riade.

Foi ordenada a detenção de ex-presidente do parlamento venezuelano pelo alegado atentado a Maduro. Tudo por ter “responsabilidade flagrante”:

Indonésia: Ela tinha 13 anos quando foi raptada e violaram-na durante década e meia: o cativeiro acabou.

Jay e Lauren fizeram o que muitos já pensaram fazer: despediram-se do emprego e foram viajar pelo mundo. Deixaram os EUA em direção a África, passaram pela Europa e seguiam agora pela Ásia. Queriam dar a volta ao mundo de bicicleta. Foram assassinados.

Jato espanhol disparou (sem querer) míssil sobre a Estónia. Eis uma notícia bizarra.

Vai haver mudanças nas cerimónias dos Óscares. Uma delas é para premiar os filmes mais populares. Não sei porquê, mas eis uma ideia que pode não ser a mais brilhante.

Este é o negócio de que se fala nesta altura lá fora. Envolve Elon Musk, que adora polémicas, e a companhia que fundou, a Tesla. Vale a pena ler os artigos do Financial Times sobre a ideia de Musk e sobre quem a poderá financiar.

No FUTEBOL, e com os campeonatos quase a começar - o nosso arranca amanhã à noite com o Benfica-Guimarães - são ainda as transferências a marcar o tom.

Esta tem sido a época das grandes transferências de guarda-redes: Buffon para o PSG, Patrício para os Wolves, Allison para o Liverpool… e agora Courtois para o Real Madrid e Kepa para o Chelsea.

Entretanto, ontem à noite houve debate na CMTV entre os candidatos à presidência do Sporting. Mas só estiveram presentes Ricciardi, Dias Ferreira, Madeira Rodrigues e um outro que deve ser muito conhecido mas eu não consegui fixar o nome. Ainda hoje deverá ser conhecido o destino da lista de Bruno de Carvalho, que deverá ser chumbada por ter como número 1 um sócio suspenso do clube.
Ainda sobre o Sporting, Rafael Leão foi confirmado como reforço do Lille.

Nos Europeus de Atletismo, que já nos deram uma magnífica medalha de ouro com o feito de Inês Henriques nos 50 km marcha, ontem foi Ricardo dos Santos a bater o recorde nacional nos 400 m e a conseguir apurar-se para a final da prova.

Na Volta a Portugal em bicicleta, o espanhol Alarcón continua de amarelo, Domingos Gonçalves foi ontem o primeiro em Boticas e a etapa de hoje liga Montalegre a Viana do Castelo.


FRASES
"A economia cresce, o emprego floresce, mas os salários nem tanto. (...) Portugal está a ganhar a batalha da criação de emprego, mas não a da produtividade", André Veríssimo, diretor do Jornal de Negócios

"O divórcio é um tributo ao amor, é a única forma de uma pessoa se manter casada enquanto gosta", Maria João Valente Rosa, DN

"Não, não é um problema do Governo, deste ou doutro qualquer, a única coisa um bocadinho mais específica deste Governo é a ridícula tendência para governar como se os governados estivessem sentados à espera de um espectáculo de ilusionismo, nos fogos ou noutra coisa qualquer.", Henrique Pereira dos Santos, Público


O QUE ANDO A LER
A aproximação das férias de verão é a altura de fazer a lista de leitura para as férias de verão. Uma lista em que me aproximo da criança em frente da montra de bolos da pastelaria, claramente com mais olhos que barriga e com vontade provar um pouco de tudo.
Este ano, a escolha é o que se pode chamar de peso. Nada de bolos de arroz ou queques, a coisa é mesmo mais para o lado de eclairs, brigadeiros e companhia.
Da estante já saíram Baudolino e O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, o falecido autor italiano que é um dos mais importantes intelectuais das últimas décadas e provavelmente o autor com a mais brilhante soma de romances e ensaios extraordinários. Mas também Ulisses, de James Joyce, um clássico das pré-escolhas para férias ainda nunca concretizado, Ressureição, de Leon Tolstoi e ainda a releitura de O Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez.

Quer se começe pelo fim, pelo princípio ou pelo meio, a satisfação parece garantida. Nos últimos dias já avancei 200 páginas de Baudolino, um romance histórico passado na Europa pós-medieval do século XII e que é verdadeiramente fascinante.

No regresso de férias, darei conta ao estimado leitor de qual o caminho que as minhas mãos e os meus olhos levaram.

Tenha boas leituras e um final de semana aprazível. E a melhor das sortes para as populações das áreas afectadas pelos incêndios e para os bombeiros e restantes forças que ajudam no terrível combate às chamas. Que me perdoem a expressão: porra de país!

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